Suicídios coloridos

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As virgens suicidas . Não vou falar do filme de estreia de Sofia Coppola, um êxito inegável, mas que eu não quis assistir até que lesse o romance, de Jeffrey Eugenides. No Brasil, a Rocco o lançou ainda em meados dos anos 90 e em 2008 a L&PM reeditou em formato de bolso.

Ao primeiro contato com o título, a impressão que se tem é que a leitura será um mergulho numa atmosfera soturna e melancólica; ou algo que induza à lembrança de entes meio etéreos. A melancolia está lá, mas levemente permeando a narrativa e as vidas de Cecília, Lux, Thereza, Bonnie e Mary Lisbon,  filhas de um típico núcleo familiar de uma cidadezinha norteamericana.

Estamos nos meados dos anos 70 e o que parece é que todos ali vivem uma espécie de ressaca de uma farra que durou a década anterior inteira. O que resta, portanto, é uma sociedade cheia de culpa, que vê na criação de seus filhos a possibilidade de se redimir da esbórnia que marcou sua juventude. A história das meninas, ao contário do que se pensa, é contada de uma forma divertida, mesmo que a intenção não seja parecer engraçada.

Alguns meninos bisbilhoteiros cresceram ao redor delas, apaixonados pela magia dos seus perfumes ou da acidez de suas salivas deixadas no chiclete sob a carteira. O que resultou disso é que, já homens feitos, mediante a reunião de depoimentos e evidências, eles vão montando todo um caminho que os faça entender aquele suicídio em família.

O autor Jefffrey Eugenides nos põe em contato íntimo com as figuras do bairrro e da cidadezinha, nos faz enxergar o quanto de mágico há na condição terrenal das meninas dos Lisbon; ou o quanto de insondável pode haver numa família típica norteamericana. As virgens suicidas  se mostra um tratado socioantropológico, em cuja tessitura vai se achar uma estética altamente  refinada, em que a poesia vai ressaltar:

“Os olhos de Lux, fogo e veludo, brilhavam na sala escura. Uma veia no seu pescoço pulsava macia, aquela em que se põe perfume exatamente por isso”.

A poesia que se inaugura em cada linha e a música imposta pelo narrador atento são elementos apaixonantes nessa história:

“Infelizmente, ela não reparava em Dominic, que espiava atrás da cerca para vê-la jogar tênis cheia de arrebatamento ou deitar-se suando néctar na espreguiçadeira à beira da piscina”.

Graças a isso, o suicídio pôde ser tratado como um método, quase uma assepsia praticada pelas virgens dos Lisbon. Melhor dizendo, nunca o suicídio foi tratado, com proximidade, leveza, mas ao mesmo tempo, com sentimento sublime. É como se as cinco moças estivessem, com seus suicídios, meramente retornando de uma visita que nos fizeram.

Jeffrey Eugenides, a meu ver, escreveu o romance perfeito; trama madura, digressões,  profundidade dos personagens, boa história e texto bonito. Talvez agora seja a hora de um mergulho no filme de Sofia; quem sabe ser feliz com a poesia que ela tenha fundado com signos de imagem, do jeito que foi feito nas páginas desse belo romance de Jeffrey Eugenides.

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6 comentários sobre “Suicídios coloridos

  1. Dê, não li o livro, vi o filme. Há salvação pra mim?
    Mas, olha, lendo tuas impressões sobre o livro, reconheço esse mesmo aspecto sensorial, onírico, no filme de Sofia Coppola. As cores, a luz maravilhosa, os campos dourados, as roupas… Esteticamente admirável (e feminino)! Vale a pena ver. Um cheiro, Nira!

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