Meliantes sentimentais

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Dennis Lehane é conhecido por seus romances, sobretudo pelos adaptados pras telas; como é o caso do exitoso Sobre meninos e lobos.

Em Coronado (Companhia das Letras, 2008), o leitor pode atestar aquela galeria de desordeiros de bairro e trambiqueiros  que caracterizam a obra do autor. Até aí, nada de mais, se os procedimentos narrativos do Lehane fossem esbarrar na mera construção de  boas tramas.

No entanto, além disso, nesse volume de contos, ele traz esses homens sob um profundo signo sentimental. Uma doçura acanhada marca os passos dos vagabundos e, para mais além,  em textos repletos de poesia.

Interessante é que Dennis Lehane  envereda nos contos de Coronado por um caminho que facilmente traria a atenção do leitor, já que transita por ruas escuras, praias desertas da costa oeste norte-americana ou cidadezinhas da Carolina do Sul, com boas histórias e com os meliantes sentimentais já citados. O que não se espera é ver que, em meio a essas escolhas de conteúdo, ocorram experimentações formais, como no conto Até Gwen, que além de cometer a ousadia literária da narração em segunda pessoa, nos traz coisas assim:

Por um instante, você se fixa no olhar dele. Seus olhos são grandes e suaves, e carregam algo da inocência impiedosa dos recém-nascidos.

No conto Desceram para Corpus, o narrador também nos dá poesia:

Tenho a impressão de por um minuto ter esquecido como se fala. Não sei bem como, Lurlene, seus olhos verdes, seu rosto muito fino parecem ter entrado em mim, por baixo da carne, por baixo do osso. Tenho certeza de que nunca vi criatura tão bonita como aquela menina de facão de açougueiro nas mãos e riso louco nas pupilas.

O que procuro dizer com tudo isso é que literatura é um bicho que tem duas espinhas dorsais (digo duas apenas, para ser simplório). Uma dimensão narrativa composta minimamente de começo, meio e fim, mas que surgem não necessariamente nessa ordem. Esses elementos trazem ao texto a capacidade de prender leitores e de emocioná-los, mas só mediante a tomada de um caminho que faça daquele texto um misto de reinvenção e espelho do homem que o lê. Mas literatura não é só isso. Correndo paralela à dimensão narrativa, está a dimensão estética; porque esse bicho (literatura) nada mais é do que o ‘lugar’ onde as palavras inauguram novos sentidos. Como se elas, as palavras, conspirassem contra suas individualidades e, juntas, arrumadas sob um ordem nova, renomeassem as coisas.

Coronado é um livro de contos que emociona e diverte. Diria mais. Dennis Lehane fazendo vibrar as faladas duas dimensões, na binaridade forma e conteúdo, acertou na mão.

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