O gênio maior do conto

Chekhov_at_Melikhovo.
Tchékhov em Melicovo, por P. I. Seryogin.

Em meio às inúmeras listas com grandes nomes que vi na rede social Facebook durante esta semana, eis que uma voz me surgiu dizendo: “Dênisson, fala daquele cara, o gênio, o maior de todos para você; o homem que traz o universo todo, muitas vezes em uma página e meia. Aquele que recria, encena e relê a miséria humana e suas sutilezas, magistralmente, em duas páginas. Fala da capacidade que ele tem de representar uma cena da vida cotidiana da Rússia rural, algo banal, de forma interessante, surpreendente. E fala também, Padilha, que as grandes obras são o conjunto da obra de um autor; algo que parece óbvio, mas que vem sendo esquecido, pelo jeito; porque o mainstream mercadológico literário acena para uma ditadura dos romanções, de modo que pouco espaço sobra para esses gêneros – o conto e a novela – e que foram justamente onde ele foi mestre.”.

Sempre digo o seguinte: a medida da genialidade é fazer algo parecer fácil. Partindo-se desse pressuposto,  o que vemos na obra dele é isso,  construções simples, acessíveis e que trazem, ao fim e ao cabo, revelações sobre nossa pequenez. Além disso, foi quem popularizou o chamado fluxo de consciência nas narrativas, o que  foi determinante para oxigenar  substancialmente o conto moderno.

Aliocha aninhou-se num canto e, cheio de horror, pôs-se a contar a Sônia como ele fora enganado. Ele tremia, gaguejava, chorava; era a primeira vez na vida que ele se chocara assim, grosseiramente, face a face com a mentira; antes disso ele nem sabia que neste mundo, além de pêras, pasteizinhos e relógios caros, existem ainda muitas outras coisas, que não possuem nome na linguagem infantil (Ninharias da vida, conto).

Das lajes e das flores murchas, misturado com o cheiro das flores do outono, vinha um sopro de perdão, de tristeza e de tranquilidade (Iônitch, conto).

 Um dia, lá na casa de campo onde Tolstoi escolheu para morar, ele, o anfitrião, conversando com Gorki, falou: ” Amigo, eu e você somos escritores, mas aquele ali? aquele ali é gênio!”. E apontou para o homem que sozinho olhava as plantas.

Chekhov_by_serov
Tchékhov, por Valentin Alexandrovich Serov

Hoje é o 154º aniversário do gênio a que os gigantes Tolstoi e Gorki se referiam: Anton Tchékhov (1860-1904). Um homem que nasceu destinado à literatura, escreveu para comer, enquanto não se formava em medicina; e não teve medo da vida.

Se mandou para onde o coração mandou, exercendo as profissões de escritor e médico até, precocemente, morrer aos 44.

Anton sentou-se extraordinariamente ereto e disse em voz alta e clara: Ich sterbe (“Estou morrendo”, em alemão). O médico acalmou-o, pegou uma seringa, deu-lhe uma injeção de cânfora, e pediu champagne. Anton tomou um copo cheio, examinou-o, sorriu para mim e disse: ‘Fazia um bom tempo que não bebia um copo de champanhe.’ Ele bebeu, e inclinou-se suavemente para esquerda, e eu só tive tempo de correr em sua direção e de colocá-lo na cama e chamá-lo, mas ele tinha parado de respirar e estava dormindo tranquilamente como uma criança…(Trecho escrito por Olga, a esposa, detalhando o momento da partida de Tchékhov)

Tchékhov deixou à humanidade uma vasta e valorosa obra composta de contos, novelas e peças teatrais, gêneros que fizeram de sua literatura uma obra eterna e indispensável.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s