Segundo Menalton Braff…

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O herói está de folga (Kalango Editora, 2014, contos) traz um texto do escritor gaúcho Menalton Braff, que apresenta a obra. Entre os contos destacados pelo autor estão: Com essas mãos, Onde demora aquele fogo dos teus olhos?, A pin-up que caiu do céu e Feito uma tonta. Leia abaixo o texto completo.

Não sei o que terá feito antes Dênisson Padilha Filho, nada sei sobre o autor, tampouco de sua obra. O que tenho aqui são os originais de sua coletânea de contos O herói está de folga, e o desconhecimento me permitiu uma leitura sem conceitos prévios o que me fez mergulhar em trabalho de descoberta, aquilo que se vê pela primeira vez: o impacto puro.

E o que vi me surpreendeu.

Numa época em que a moda é expressar a trepidação dos tempos modernos, é tentar a imitação da mídia diária (pelo menos assumir sua influência), este livro de contos foge ao modismo das palavras cruas, das gratuidades de diversos matizes.

O mundo escolhido por Dênisson, que muitos críticos incubados em apartamentos julgam não mais existir, é o mundo dos lugarejos, isto é, a maior parte do país. É um mundo rústico, de pessoas rudes, em que há, claro, violência, paixões, e, por que não, sentimentos delicados.

Em Com essas mãos, longo conto dividido em duas partes, um matador profissional conhece o inferno do remorso e não consegue fugir de seu passado a não ser por uma brusca mudança de vida em que procura pagar pelos crimes que cometeu. À primeira parte, crime e remorso, narrada com mão firme em terceira pessoa, segue a segunda parte, pagamento da dívida, agora narrada em primeira pessoa por alguém que acompanha com olhos atentos o descanso do herói.

“A verdade é que nosso homem vive o fim dos seus dias e aqui estou eu pra lhe prestar meu respeito e tocar essas mãos pela última vez. Obrigado, você foi tudo; um gigante, um assassino, um herói. O quarto é escuro, meu gigante vai descansar, vai ter sua pausa, livrar-se das dores. Nada parece mais tentador agora do que vê-lo partindo e sentir nisso uma alegria suprema”.

No conto que lhe segue, Onde demora aquele fogo dos teus olhos?, há como narrador um tipo bastante raro em nossa literatura, que é o narrador em segunda pessoa. E assim ele começa: “Mais um dia com sintomas de último. Você abre a janela e vê a cidade lá embaixo”. Um amor que não se realiza, resultando no aviltamento de ambos os amantes.

A pin-up que caiu do céu é, talvez, o ponto mais alto desta coletânea. Fascinante, a personagem Miqueias, que se apaixona por uma página de revista. Um conto que pode ser classificado no realismo mágico ontológico, para usar a nomenclatura do meio acadêmico, em que Miqueias passa a maior parte do tempo encarapitado num mourão, olhando o mundo, depois de haver realizado sua vingança contra um juiz corrupto. Miqueias é o menino que já nasceu velho, e com alma velha ele atravessa o conto, com suas peripécias.

Feito uma tonta é outro conto, dos longos, e que narra as tentativas impossíveis de uma mulher casada, frustrada, e que não consegue se livrar das lembranças de um antigo namorado. Vive torturada pela insatisfação e por ter deixado passar a oportunidade de uma realização plena de sua vida sexual. Neste conto, o narrador joga com realidade e fantasia numa simbiose em que nunca se sabe se a realidade é fantasiada ou a fantasia realizada. O narrador atravessa por esse entrevero com muita habilidade.

A linguagem dos contos demonstra bastante competência linguística, em que pese o fato de em quase todos predominar um coloquialismo, mas este mesmo adequado aos ambientes e personagens. A despeito disso, há verdadeiras joias como a passagem “Catou e saiu; e foi sumindo, e deixou a rua sozinha, entregue às árvores da praça, seus fantasmas matinais”.

Dênisson Padilha Filho, este é o nome, não podemos esquecê-lo.

Menalton Braff

Menalton Braff é escritor e professor de literatura nascido no Rio Grande do Sul. Tem 19 livros publicados e venceu o Prêmio Jabuti de Literatura 2000 (livro do ano ficção), além de participar como finalista nos principais prêmios brasileiros por diversas vezes. Entre seus livros estão: Na Força de Mulher (1984, contos, Seiva), À Sombra do Cipreste (1999, contos, Palavra Mágica – 6ª edição pela Editora Global em 2011), Castelos de Papel (2002, romance, Nova Fronteira), A Coleira no Pescoço (2006, contos, Bertrand Brasil), A Muralha de Adriano (2007, romance, Bertrand Brasil).

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