As células estéticas de Arriaga

GuillermoArriagaNota

Começo esta pequena resenha com o que já disse sobre ele: o escritor Guillermo Arriaga não deve nada ao roteirista.

Ao ler Retorno 201 (Gryphus, 2002), reunião de contos do escritor mexicano, percebe-se seu domínio, ou minimamente sua consciência sobre uma premissa que dever reger o artista da literatura: a experimentação.

Devemos entender a facilidade com que ele dramatiza fatos banais como algo devido aos procedimentos narrativos adotados pelo escritor. Mil quebradas permeiam e apimentam suas histórias e as fazem poéticas, recriações de um mundo agonizante e óbvio, mas que se tornam pictórico e gracioso por causa de suas palavras.

Escolher palavras não é fácil; e eu diria mais, nem todas suportam em qualquer situação a carga semântica que lhes é imposta. Mas Arriaga parece saber disso e as usa bem; e suas histórias de meninos do bairro, casais enfadados, velhos solitários e irmãos teimosos ganham status de grande obra, porque são mesmo:

Os dois dormiam, homem e mulher, recostados indolentes sobre as poltronas diante do aparelho de televisão, que, ligado, deixa escapar em vão o mundo de suas imagens. Lá fora, na rua, no traço sem curvas e largo, a tarde vai se desvanecendo em tons de cinza cada vez mais escuros.

(Impress343o de fax em p341gina inteira)

Guillermo sabe que o homem conhece dores, mas as narra de modo que refulge do texto, não a dor, mas células estéticas que vão dar a elas, as dores, nos textos, sua dimensão poética mais brilhante:

Os olhos de Gonzalo seguem as imagens, mas logo param no lugar onde não há imagem, nem luz, nem pontos coloridos, nem caricaturas de coelhos saltitantes.

Seu olhar se deteve no seu antebraço esquerdo. A velha dor metálica, a velha dor glacial que ele acreditava ter enterrado na memória, flui novamente por entre os ossos.

O conto é um gênero que apresenta complexidades tantas que nem cabem aqui, mas Arriaga as doma e transita bem por elas; e é por isso que o Retorno 201 é um êxito; e é por isso que o recomendo, porque é uma obra prima do conto contemporâneo; tanto que até esquecemos do Arriaga cineasta, a meu ver, sua segunda faceta.

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