A garota de Cassidy, de David Goodis

goodis - Cópia

 

Literatura noir.

Há um quê de oceano insondável que subjaz nessa expressão.

Primeiro porque ela sofre uma espécie de preconceito. Geralmente se atribui a esse subgênero, ou se define esse subgênero como uma trama ligada a mistérios, crimes e investigações e contada de forma corrida e com pouco apuro estético.

Depois, uma canonização em torno dos seus grandes nomes do século XX, Hammet, e Chandler.

David Goodis surge na dobra desses nomes. Ficcionista tardiamente reconhecido, Goodis não viveu para ver sua obra aclamada pelo grande público.

No entanto, é importante que se diga, ele, de forma sublime subverteu a literatura noir , quebrou os dois paradigmas citados acima; mostrou que ela não é sinônimo de literatura policial; o que não lhe traria demérito algum. Mas o que Goodis mostra é que, mais do que um detetive, um mistério em torno de um crime a ser desvendado, a ficção noir traz um elemento de desequilíbrio que vale por todos os demais: a presença de uma mulher fatal. Não porque de beleza irresistível, isso também, mas porque a função dramática dessa mulher é instalar o caos ou acenar um caminho sombrio para um ou mais personagens

A garota de Cassidy (L&PM, 2006) é a história de Jim Cassidy, um perdedor nato que vive de subempregos arrumados no subúrbio onde mora, próximo ao cais da Filadélfia. Mildred é sua garota, ele a ama, apesar de saber que estão se matando aos poucos, de porres e de brigas. Jim tenta se livrar de Mildred, embora seja louco por ela. Novas perspectivas se vislumbram e reacendem as esperanças dele de dar o fora e recomeçar a vida de outra forma.

Para além disso, o  estadunidense da Filadélfia desmente outra inferência em torno do noir e nos mostra que ali é lugar de refinamento e poesia também:

Tinha os olhos fechados e podia ouvir a chuva batendo na parede lá fora. Havia algo muito especial em transar quando estava chovendo. O som da chuva sempre tinha um certo efeito selvagem em Mildred. Algumas vezes, quando chovia muito forte, ela despertava o demônio nele. No verão, durante tempestades de raios, parecia que ela arrebatava o céu e usava um pouco daquela luz.

Ou:

Podia ver a garrafa subindo até seus lábios, depois seus lábios encontrando os lábios da garrafa, como se esta fosse alguma coisa, fazendo amor com ela.

Ou ainda:

A anágua jogada a seus pés era de um roxo radicalmente vivo e quando ele a olhou, parecia estar em fogo.

David Goodis, eternizado por Atire no pianista, A lua na sarjeta e Sexta-feira negra,  traz em A garota de Cassidy uma América de bêbados, mas nessa trama cheia de violência,  afeto e de poesia narra, com mão de mestre, o fracasso do sonho americano.

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Um comentário sobre “A garota de Cassidy, de David Goodis

  1. Dênisson, não sei se você sabe, mas sou leitora de ficção policial e adoro. A literatura noir não tem nada de “menor”, como os preconceituosos costumam rotular. Gosto muito de Hammett, de Chandler, e de Goodis, todos grandes! Ótima resenha, meu amigo. Um abraço.

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