A grande égua branca, de Sidney Rocha

A coluna CONTO AFORA desta semana traz o ficcionista Sidney Rocha, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura 2012 com o livro O destino das metáforas, (Iluminuras, 2011, contos). O conto seguinte integra o volume.

Boa leitura.

Conto Afora FINAL 2Anos 60

Brigid detestava os negros e se orgulhava de não estar sozinha naquilo. Centenas de vezes me falou do quanto Jack Kerouac concordava com ela. Foi em Chapel Hill, numa festa de sete dias. Se viram en passant, aquilo não foi mais que um aceno, enquanto Kerouac vomitava os baldes de sua loucura antissemita na cabeça dos rapa­zotes da Harvard Branca. “Jack estava morrendo, dava pra ver.” Chamava-o de “Jack”, embora não tivessem sido parceiros no tempo dos vagões. Nunca me disse o que fazia ali, mas na adolescência tivera um caso com o anfitrião, o nome era Russell Banks, com quem roubou um carro e terminaram no xadrez, em Los Angeles. “Rodar três meses pelo país num Thunderbird e ser de­tida justo por um oficial negro?”

Detestava os negros e eles a detestavam também. Era uma mulher de muitos fascínios, talvez isto impedisse de eles quebrarem sua cara quando exagerava na bebida e os xingava daquele jeito. Morávamos ao Sul de New Hamp­shire, depois de Brigid abdicar da vida de madama na qual o meu pai queria metê-la, sob a ameaça de inter­nação num manicômio. “Mulher com muita grana ou sucesso em um ano vira uma boneca sem lubrificação, e daí os caras se intimidam”. Brigid e Guterson se conheceram noutra festa, em dois meses casaram, se esmurraram e se odiaram. Ele era um industrial já sem muito dinheiro no banco, mas bastante eloquente com uma pistola. Então fugimos. De repente, viramos os branquelos, os baratas-brancas, o bebê e a bêbada-gostosa numa cidadezinha sob nuvens de chumbo, mas onde o sol de lâminas insistia em rasgar a pele da gente todo dia.

Brigid era boa mãe se não estava alimen­tando a sua paranoia ou imaginando conspirações em cada esquina. Não tolerava choramingos, con­tudo até os oito anos eu podia dormir sobre a firmeza dos seus peitos nas noites de pesadelo. Naquele 1969, o uísque a transformou num bicho sem freios para desafiar toda a polícia agarrando o pescoço de uma garrafa. “Live free or die, live free or die”, ela ber­rava para eles. “Chamem o Jack aqui. Chamem o Jack aqui”. “O senhor Kerouac está morto, Brigid”, gri­tava de lá o policial. Então ela se deixava vencer, caminhando até a viatura. “Entre, querida”, bateu a porta o policial.

Mas se a deixassem em paz, logo-logo vol­tava o seu encantamento, os seus olhos de oceano sem ventanias, a voz de pastora, até que outra vez a tempestade descesse carvão sobre o seu rosto de cristal. No entanto, gostavam de vê-la circu­lando no jeans apertado, a cintura sempre a desco­berto, a jaqueta só na medida para encobrir as taças de ouro; dois metros e tantos de granito que nenhum poderá esquecer.

O senhorio era um asiático em roupas de dândi, sem leitura e sem modos. Escapou de algum container dos navios de carga clandestinos de Portsmouth, como sardinha, ou pelo Pacífico, e cruzando o país até ali. Quando ele sentia falta do aluguel, Brigid o confortava por uma noite e eu detestava encontrar o cara ouvindo música na sala. “É um negroide, mesmo da cor de uma banana, querido, não se importe, todos aqui são negros, de um jeito ou de outro”. Era sobre as almas negras, Brigid fa­lava disso. Mas eu não conseguia defendê-la quando ela perdia as estribeiras e insultava, insultava, insultava, e eu os via acinzentarem com a sua arte de insultar, e ela continuava lá até todos fugirem pra suas casas, e o bar fechar. Então ela dormia na calçada, a falência da heroína num país sem kerouacs, sem mais festas de uma semana, enquanto a West Union não nos salvasse com os dólares do Russell, a grana chegava bem no limite de tudo ruir.

Anos 70

Então passou a depender dos negociantes de pedras e dos turistas para manter sua cota de uísque. Pedia, pedia e pedia, a montanha se desmanchando. Já não implicava tanto com os negros, aliás pedia pra eles um gole, dia e noite. O corpo boxeara com o tempo e vencera todos os rounds. As coxas grossas mantinham-na um facho firme.

Foi quando ofereciam uma dose, à maneira que pude ver.

“Te pago um drink, mas só se imitar pra gente aí uma macaca”.

E mamãe imitava, as pernas em arco como uma chimpanzé, os olhos no vazio.

“Não, macaca que nada! Imita aqui pro papai uma cobra”.

Brigid se esforçava. E eles:

“Não, orangotanga, com a cara no chão, como uma serpente”.

O outro gritava: “Rasteja, cobra”. Ela raste­java até a mesa. E eles lhe davam a bebida.

Quando cheguei aos quinze, perguntei se aquilo era tudo o que eu podia aprender com ela.

“Você já fumou seu primeiro cigarro?”

“Sim.”

“Já tomou um porre de cerveja?”

“Sim.”

“Então não tenho mais nada pra lhe ensinar. Se você pelo menos fosse uma menininha… espere, espere, espere: você é uma menininha, Ted?”, ela disse, beliscando as minhas bochechas.

Não dava mais. Fui embora. Ela rolava no piso da sala de tanto rir.

“Negroide! Você no fundo é um negroide, ouviu, Ted-menininha? Ted-menininha ahahahahaha”, ouvi.

Final dos anos 80

Eu já estava muito tempo longe quando ouvi a história.

Eles estavam falando no restaurante do hotel, os dois homens:

Homem 1 – “…é uma perfeição, a mulher, os quadris você não conseguiria abraçar com estes braçotes  – dizia ele ao amigo na mesa – o diabo foi quem torneou aquela serpente…” … “…talvez nós dois juntos não déssemos conta daquele peixão… mas a grande diversão dos caras não era comê-la, mas pedir imitações, é, imitação de bichos… foca, raposa, macaco…”… “… e depois de pagarem outro trago, man­daram a coroa imitar uma égua.”

Homem 2, com a dose de conhaque na mão. – “Uma égua?”

Homem 1 – “Sim, sim – disse ele. Mas escute aqui: então a mulher ficou de quatro, cara, que traseiro, ficou de quatro e, quando todos fi­zeram silêncio, relinchou feito uma égua. Aquilo ainda hoje zune nos meus ouvidos. As pes­soas de cera admirando aquilo”.

Homem 2 – “Estranho, não?”

Homem 1 – “Não. Estranho ficaria depois. Um desses negrões disse pra ela: ‘Esta imitação não está boa. Se quiser o uísque vai ter de melhorar’.

E aí ela repetiu, duas, três, dez vezes, era como assistir a um estupro”.

Homem 2 – “E aí?”

Homem 1 – “Aí eu fiz o que um homem tem de fazer numa hora dessas. Eu disse: ‘Ok, ok, chega: eu pago o drink da mulher.’”

Homem 2 – “E aí?”

Homem 1 – “‘Não, forasteiro, não se meta nisso’, ameaçaram. Recuei. Fazer o quê? E a mulher continuou, riiiiinch, riiiiiiinch…”… “então em algum mo­mento a égua parou, fechou os olhinhos e mandou: riiiiiiiiiiiiiiinnnnch. Cara… não sei quanto tempo demorou aquilo, mas depois foi silêncio e escuridão ao mesmo tempo, para acontecer o mais estranho.”

Homem 2 – “O quê?”

Homem 1 – “Depois disso se ouviu o relinchar de cavalos, dez, vinte, mais: cem cavalos, respondendo pra ela, rinch, rinch, rinch, rinch, as pessoas eram como fumaça dentro do bar, se ouviam rinchs perto, mais perto, se aproximando…”… “… a impressão era de que a qualquer momento eles iriam arrombar a porta, a tropa”.

Ele segurou o cigarro e pilou o fumo na unha, ao modo dos gays.

“Quando a mulher se levantou tinha brasa nos olhos, mas as lágrimas não eram pelo esforço, cara, aquilo a atingiu bem na alma, se há um alvo na alma da gente foi ali que a acertaram, rapaz, você pode acreditar.”

***

Depois o homem contou que Brigid saiu em silêncio. Não bebeu a dose, nada, sumiu. Ele mesmo voltou outras vezes lá, mas o paradeiro era o mesmo: desapareceu.

“Eu voltei ali muitas vezes, mas nunca mais se soube da mulher, rapaz, sumiu, a grande égua branca sumiu.”

Dias atuais

A cidade acaba no deserto e o semáforo dizia verde a toda hora para quem partisse. O automóvel me empurrava de volta pra casa, e a casa, o sol, o carro eram Brigid. Lembrei do homem do hotel e me meti num delírio. Encontrá-la. O Sr. Russell não fala muito ao telefone, mas disse ainda “faz muito, muito tempo. Os cheques come­çaram a voltar. Procure um pouco mais ao Sul, mas, por Deus, me informe sobre ela, filho.” Em New Hampshire o céu cinza era o mesmo, mas o mundo em volta era outro e os bares cansavam os fregueses com cantores sem talento. A cidade invadiu as plantações e os pastos e, de alguma forma, a cidadezinha batera em retirada, dei­xando as buzinas, a fumaça do diesel e o mau gosto vestindo esta outra cidade.

Um homem me contou o costume dali. As crianças negras pintam o rosto de branco e saem na vizinhança pedindo dinheiro em troca de imitações. As crianças brancas pintam o rosto de preto e jogam moedas para os negros em tintas de branco. “É a brincadeira da égua branca”. Alguns levam uma boneca nos braços. Chamam-na de Ted. “Se não der dinheiro, o Ted vai chorar, muquirana”, ameaçam. Mas falou também da montanha de granito contra o céu, do res­plendor do sol que era a Brigid, “ouvi falar, mas duvido de que tenha existido.”

 * * *

Dias depois, a cem quilômetros dali, numa vila sem importância, o escrivão Philip Warren me mostrou todos os documentos que eu não desejava ver. O corpo dormia há muitos outonos no cemitério de Meredith. Fiquei ao seu lado naquela tarde olhando o mármore amarelar. Deixei Brigid sob um sol desbotando, estava em paz, ouvindo pássaros e cigarras, “a natureza tem tudo o que não podemos aprender, e por isto é inútil”, ela dizia.

Na volta, o chumbo derretia no céu e os raios se atiravam contra o breu sem-fim. Os fazen­deiros abrigavam os animais, mas os vaqueiros eram poucos para conter os cavalos avançando a colina como lanças. Eu estava indo para o Norte, talvez pedisse ao Russell um emprego em New York, ou lhe contasse algumas mentiras para abrandar seu velho coração.

MSL_4806eu1Sidney Rocha, 49 anos, escreveu o livro de contos Matriuska e O destino das metáforas, (Iluminuras, 2011, contos), pelo qual recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura, e de onde se extraiu este conto. Os direitos de edição foram cedidos pelo autor e editora especialmente para este site. Pela Iluminuras também publicou o romance Sofia (2014) e este ano publica Guerra de ninguém (contos) e o romance Claro-escuro.

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