A bênção, de Lílian Almeida

Lílian Almeida é a convidada da coluna CONTO AFORA desta semana e nos apresenta um texto marcado por muito lirismo e palavras precisas.

Boa leitura!

Conto Afora FINAL 2

Parada na porta, ela observa. A casa pequena viu o tempo passar no esmaecimento das paredes, na fuga das forças e valentias daquela mulher. Agora ali, à espera do fim, sem voz, quase sem movimento. Os cabelos brancos, trançados, guardavam a imponência de sua sabedoria. Parada, ela olhava como quem avalia e pede licença. De onde está pode ver um pedaço da cama da avó, divisado pela cortina de pano amarrada no meio da porta do quarto. Aproxima-se e fica entre o tecido e a parede. A avó deitada, os lençóis dormindo no corpo quieto.

Na simplicidade desse quarto, reverencio o seu percurso, vó, dizia com os olhos. Uma mulher negra de cabelos brancos aguarda o fim dos dias. Eu, mulher negra de cabelos ainda pretos, me curvo e peço sua bênção, minha avó.

A bênção, minha avó. O silêncio continua cortado pelos barulhos da prima na cozinha, preparando o almoço. Sente no corpo um leve arrepio. Lembra-se do primo mais novo, ele pede a bênção e sabiamente ele mesmo responde, Deus lhe abençoe, no coração ela já abençoou.

Recebo sua bênção e a sabedoria ancestral das mulheres. Folhas, unguentos, chás e rezas. Colho e acolho cada prece, cada palavra bendita e o poder sagrado dormente na natureza. Por trás de seus olhos se perfilam centenas de mulheres. Em cada uma a marca do tempo, do destempero, dos dissabores de um caminho aberto no peito, na força e doçura de ser mulher.

Chega junto à cama e toma-lhe a mão. Observa atentamente aquela mulher. Ela parece responder com um leve pigarrear. Sou eu, vó, Diala. Olha para a avó como quem conversa. Acaricia os cabelos brancos e beija-lhe a mão. Beijo suas mãos de luta, cheias de linhas de vida e saberes guardados. Quantos, vó, gritaram seu sopro de vida em suas mãos? Quantos umbigos enterrados? Quantas vezes o sangue por onde brota a vida fez-se flor em suas mãos, na cabeça da criança? Heim, minha avó? E as vezes que as ervas e seus murmúrios fizeram sarar menino, velho, homem ou mulher? O canto surdo e sibilante enchia a casa precária e suas mãos, vestidas de folhas, dançavam diante do corpo do enfermo. A senhora se lembra, vó? Mulher decaída de vontade de viver, quebrantada. É olhado, né? E espinhela caída? A senhora se lembra?

A velha abre os olhos. Uma névoa desbota o preto e o branco já parece amarelado naquele olhar. Mira a neta como quem fala alguma coisa. Os olhos se tocam. O silêncio guardava cada palavra daquele diálogo. O olhar baço mareja, uma lágrima brilha nos vivos olhos negros da neta. O rosto da avó volta às pálpebras cerradas.

Esses olhos serenos já viram o tempo e os temporais. Tempestades, ventanias, mares revoltos. Revê as cenas das histórias contadas pelas tias, as lutas e as conquistas de um tempo imemorial. Celebramos a união com toda a existência, levantamos bandeiras, preparamos unguentos, reverenciamos o sagrado, fomos alimento para as fogueiras da intolerância. Beija novamente a mão da velha. Reconhecia o lugar dela na sua trajetória. A minha linhagem está no atemporal do tempo. Sou a herança dos percursos trilhados por minha tataravó, minha bisa, minha avó, minha mãe, minha filha, minha neta, bisneta, tataraneta e além.

Um cheiro de erva subia do fogão e chegava ao quarto. Quantas vezes sarou as dores com chá, heim, vó? Era tanta folha! Água de alevante para o coração. Folha de araçá, bem nova, para segurar diarreia. Ah, minha vó, estendo minhas mãos e recebo suas bênçãos. Curvo meu corpo e reverencio o seu saber ancestral, todas as mulheres que estão atrás de ti, que desbastaram as pedras do caminho por onde passo agora. Honro seus corações mutilados pelo desrespeito, suas mãos ensanguentadas pelas violências, seus olhos molhados das dores todas. Ó, mulheres que me antecederam, benditas sois todas vós.

Fiz um chá de folha de louro, você quer, Diala?, a prima oferecia. Não tô com o estômago muito bom. Quero sim, pode trazer aqui? Claro. E a minha velha, tá acordada? Ela voltou a atenção para a avó. Sua mão sentiu no aperto a força daquela mulher. Sim. A prima chega à porta. Um suspiro rouco rasgou desde o ventre. A mão deixando a mão. As xícaras estilhaçando no vermelho do piso. A erva, o chá, lavando, abrindo a passagem. Que Deus te abençoe, minha avó.

P1030849-002 - CópiaBaiana de Salvador, Lílian Almeida é Professora Assistente na Universidade do Estado da Bahia e doutora em Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Tem artigos impressos em jornais, revistas e livros e em veículos digitais. Publicou o livro Todas as cartas de amor (Quarteto, 2014, contos).  Mantém o blog Cartas, fotografias e outros guardados (http://lirioalmeida.wordpress.com/).

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