O McGuffin perfeito, de Márcio Matos

Na coluna CONTO AFORA desta semana, é a vez do ficcionista Márcio Matos. No texto inédito a seguir, o autor instala uma espécie de aflição kafkiana através de sua narrativa muito clara e concisa.

Boa leitura!

Conto Afora FINAL 2

A língua tremeu ao tocar o palato. Tomé acabara de repetir o texto pela sétima vez, parecia que lhe molestavam as palavras. Tinha o costume de testar os escritos em voz alta, numa audição solitária e exaustiva. O cansaço desaparecera nas inúmeras xícaras de café e ele ainda não se sentia satisfeito.

Era escritor de bandalhas – febris, perversas, desavergonhadamente dramáticas, dessas que infestam jornais populares e revistas de fotonovela – mas andava cansado do pega-chupa e a terceira posição na lista dos mais vendidos atiçou suas ambições. Estava decidido a escrever sobre morte, não sobre qualquer morte, mas “algo filosófico”. Não imaginava que a penosa labuta logo derivaria para reflexões miúdas, do tipo almanaque Capivarol. Desfeitas as pretensões autorais, optaria pela vertente policial: doze crimes bárbaros e um plano secreto para livrar a cara do presidente corrupto.

Ia bem a sua escrita, quando, naquela noite abafada, a trama empacou no despiste. Já estava no capítulo seis e um prosaico gato e rato se repetia ad nauseam. Havia tentado de tudo, desde o truque da mulher misteriosa, ao anão que lutava caratê. O óbvio, no entanto, aparecia até nos erros da arial 12.

Passou a se mortificar mais e mais, numa aflição estéril. O teclado, contêiner inchado, cuspia evidências e clichês. Alheia aos esforços digressivos, a história prosseguia límpida, sem camuflagens.

“Quem se interessará por um thriller em que, desde o primeiro capítulo, já se sabe o culpado?”

De fato, o autor dos crimes não fazia nenhuma questão de se conter.  Como em todo texto de Tomé, a verborreia corria solta.

Foram muitas horas e outras tantas xícaras de café, mas o martírio, como um levante, maltratava a imaginação, já debilitada pelos esforços de contrariar a vocação.

“Bloqueio criativo não acomete escritores operários!”, ele pensou. Sempre deixara a experimentação para os outros, para os mais angustiados ou presunçosos. Não sabia escrever sobre morte de um jeito filosófico, tinha se convencido depois de apenas três sofríveis páginas. Sua resma digital, suas chicanas e romancezinhos mela-cueca trariam mais alegria ao editor do que a mais brilhante reflexão metafísica. Já bastava escrever sobre morte num entrecho policial. O livro, claro, seria adaptado e até estudado na academia. Alguém mais inteligente faria a leitura psicológica das motivações do anão.

“Vamos, homem, adiante, é a sua obra-prima! Labuta, labuta, labuta, pois a resposta vem do esforço. Ponha um freio ao ramerrame e pare de reler o texto. A estética que você busca não está no estilo, está na ideia, na assombrosa comunicação da ideia. As orações coordenadas compõem bem o parágrafo, o público entenderá com facilidade. Se a subordinação vier, que seja intuitivamente. Se falhar, basta encerrar o texto com um adjunto adverbial ou com um gerúndio.”

Ele estava resolvido a matar mais um, estava feliz, pensando que era outro.

Tomé também era outro. Não o autor filosófico. Um Henry Miller popular, talvez. Joyce, não. O que Miller faria? Miller era um bom conselheiro. “Que tal calar a todos?”

Despudoradamente, bolou uma “epidemia da fala” e os personagens perderam a voz de uma hora para outra.

Segundo a narrativa, a água da cidade fora contaminada por um vírus misterioso. Desconfiava-se que o governo estivesse por trás do atentado biológico. McGuffin perfeito: Tomé tinha combustível para queimar pelas próximas quarenta noites. O vilão principal, antes muito atuante, agora era um Zé-ninguém, de olhos fundos e inexpressivos.

Os cidadãos da metrópole reuniram-se na internet para debater o acontecimento. Por serem considerados réus, presidente e outros governantes não foram admitidos. Nos fóruns, o moderador expulsava quem se sobressaísse.

Em pouco tempo, se formou um chat gigantesco, no qual se discutia todo tipo de assunto. Casais marcavam encontros, muambeiros vendiam tablets, pastores proclamavam o fim do mundo.

Ninguém mais se preocupava com o nome verdadeiro ou em recuperar a própria voz. Um avatar de Jason Statham fazia bem à pulsação de mocinhas casadoiras (e ao ego de fracotes envergonhados). O prefeito trocou a eloquência pela alcunha de Pammela Rose.

O sexo e a bandalha logo impregnaram a trama. Degradação e caos se seguiram, com o governo deposto por uma horda de zumbis silentes. Tomé estava satisfeito, nem releu o texto. Finalizou o capítulo com uma frase seca, dita de forma gutural pelo Zé-ninguém de olhos fundos: “o crime não compensa”.

????????????????????Márcio Matos é escritor e comunicólogo. Lançou seu primeiro livro, A suave anomalia (Casarão do Verbo, romance), em 2010 e estreou no gênero conto em 2014, com A noite em que nós todos fomos felizes (P55, 2014, contos). Estudioso de literatura e cinema, publicou em 2000 o ensaio O neo-realismo sertanejo: prosa e poesia de uma tragédia (SEPA-UNIFACS). Quando não está escrevendo, faz as vezes de pai, professor e Assessor de Planejamento e Gestão dos Correios.

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