Um elefante na mata atlântica, de Hugo Homem

A coluna CONTO AFORA  desta semana traz uma narrativa enxuta e afinada, ao mesmo tempo com a despretensão e com a forte sugestão imagética. O toque do insólito num conto do ficcionista Hugo Homem; porque a literatura não se ocupa do que a vida é, mas do que ela pode ser.

Boa leitura.

Conto Afora FINAL 2

Extremo sul da Bahia, costa do descobrimento, trinta anos atrás. Eram nove horas da manhã quando parei o carro na estradinha que penetra a mata atlântica; atravessei a pés descalços a rústica ponte de madeira, avistando uma bela lagoinha e, mais além, as ondas do mar imenso espancando a areia branca, várias vertentes a vazar no paredão vertical das falésias avermelhadas, às vezes até jorrando a água doce, o que tornava qualquer simples banho numa aventura espetacular.

Contornei a pequena lagoa, subi com dificuldade a minúscula duna que separava a água do mar do manancial insosso, quando percebi, na sombra salpicada de luz, alguém em meio ao banho: um vulto muito grande, escuro, que não identifiquei de imediato, mas, ao me aproximar, constatei que era várias vezes o meu tamanho, aparentando obesidade, já que suas banhas se sacudiam e tremelicavam sob o jato forte da cascatinha.

Como se pressentisse minha observação, o banhista parou os sacolejos por instantes, girou o pescoço numa torção impossível e olhou-me nos olhos.

Tomei um susto quando o reconheci, de tantos filmes e documentários, enorme e desajeitado, o apêndice nasal incipiente curvado sobre a boca: um filhote desgarrado de elefante marinho.

Sem a menor pressa, deixou que a água lhe batesse por cada polegada do corpanzil, revirando-se todo, seu pelo curto rebrilhando ao sol, até que voltou a olhar-me longamente, e, como me visse aguardando, o próximo na fila do banho, olhou o jato d’água como se dele se despedisse e saiu se arrastando, deixando um rastro largo de areia revolvida, as nadadeiras da frente puxando decididas o pesado corpo roliço, até começar a escalar o montículo que me impedia de ver o mar.

Entrei sob a água gelada e assim fiquei, me deliciando com a sensação daquele banho maravilhoso e, quando abri os olhos, o belo animal acabava de transpor a crista de areia, sumindo de minhas vistas, que novamente se fecharam para melhor apreciar o jato d’água.

De repente, senti a urgência de vê-lo mais uma vez, tão exótico, nos seus oitocentos quilos e que, contrariamente a qualquer expectativa, civilizadamente me cedera seu lugar no banho de cascata.

Corri até a parte alta da praia e vi apenas os rastros que mostravam o lugar exato onde ele se misturou ao oceano.

Desse dia em diante, sempre que passo em regiões de matas e nascentes, de onde seja possível ver o mar, trato de apurar as vistas, na tentativa de enxergá-lo entre as ondas, vindo para seu banho de água doce, em que eu pudesse reencontrá-lo, agradecer e, quem sabe, retribuir sua gentileza

905668_4022443859963_1396296957_o - CópiaHugo Homem nasceu no Rio (1948) e se radicou na Bahia em 1980. É membro da Academia de Letras e Artes da Bahia e da Academia Internacional de Letras, Artes y Ciências, com sede em Buenos Aires – Argentina. Em 2009, seu livro infantil A cachoeira encantada recebeu o troféu ANA – Agência Nacional de Águas – de Menção Honrosa, considerado livro infantil de educação ambiental. Autor de contos, novelas e romances, tem 10 livros publicados, dentre eles Histórias de juízo incerto… razão discutível… moral duvidosa; O homem em pé e a novela esgotada, em quinta edição, O mendigo apaixonado.

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