Marvin, de Catarina Guedes

A coluna CONTO AFORA desta semana traz um texto de Catarina Guedes. Uma melancolia sutil e uma despedida dão o tom neste conto inédito da autora de Isadora, sua Camisola La Perla e a BR, seu romance de estreia.

Boa leitura.

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Uma pequena multidão impediu que eu visse do outro lado da rua o exato instante em que Marvin entrou no taxi que o levaria pela última vez da minha vida. No centro do tumulto, um homem de uns 33 anos, morto na esquina por uma motocicleta que avançou o sinal. Agora estava cercado por estranhos em um fim de tarde de verão dourado em que certamente pensou em fazer qualquer coisa, menos morrer. Marvin sequer esperou que eu voltasse do trabalho, entrasse em casa, despejasse minha bolsa no sofá, enquanto me dirigia à geladeira, morta de fome, vociferando contra o trânsito, o clima, a política e sobre nós. Disse na noite anterior que ia embora e, dessa vez, seria para sempre. E assim parecia que ia ser. Mal vi o táxi sumir no cruzamento, e o pão comprado às pressas no caminho caiu no chão, dos meus braços inanimados. Marvin costumava ser um homem de palavra.

Corri, acenei, mas de nada adiantaria. Ainda que eu o alcançasse, se isso fosse humanamente possível, ele estaria mais longe quanto mais eu me aproximasse. Voltei para casa, sem pão ou objetivo, e senti o bafo quente do apartamento poente naquele janeiro infernal. Zapeei compulsivamente, esquadrinhei sem ler todas as redes sociais, com a cabeça vazia e o olhar vagando randômico entre uma e outra tela. Eu tinha consciência daquele transe, e simplesmente não conseguia sair dele. Não conseguia sequer pensar, ter pena de mim, arquitetar uma vingança grega. Enxergava o frenético movimento dos meus dedos sem saber o que os movia e muito menos como fazê-los parar, quando, por instinto, abri a porta do apartamento, desci a escada e me vi, como fora do corpo, andando a esmo pela rua, onde a multidão ainda não havia se dissipado, mas alguém foi piedoso o suficiente para cobrir o morto com um lençol, enquanto a perícia não chegava.

Juntei-me anônima, como todos ali, às pessoas em volta do homem, porque não havia mais nada a ser feito por ele, e naquele instante eu não sabia tampouco o que fazer por mim. Eu poderia ter entrado em qualquer fila, ou mesmo ter continuado andando sem rumo, mas eu parei entre o morto e a muralha humana. A princípio, observando a nuca de qualquer pessoa totalmente desinteressante, até que alguma reação voluntária voltou a se manifestar em mim, depois daquela ausência, e fui tomada de uma vontade incontrolável de chegar à frente, o que fiz, abrindo o caminho como um parente aflito, entre as pessoas que me impediam de contemplar os contornos daquele rosto sob o lençol.

Invadiu-me um prazer estranho, a vontade de tirar o véu de algodão surrado e contemplar a face sem expressão, tocar a pele endurecida pelo rigor da morte, sentir o frio asqueroso que sempre me fez intimamente recriminar os que acariciam defuntos, como se fossem vivos. O nariz adunco se projetava no pano, cuja tênue consistência me deixava perceber o escuro dos seus cabelos em contraste com uma pele alva, como a de Marvin. Exatamente como a dele que, aliás, tinha aproximadamente o mesmo comprimento do homem esticado no chão: um pouco menos que a distância entre a cabeceira da cama e o fim do colchão, o que sempre gerava algum desconforto.

Perscrutei o caminho entre a cabeça e os pés do desconhecido, detendo-me às vezes em alguma parte mal coberta pelo lençol, mas voltava sempre ao rosto, completando mentalmente o relevo parcialmente escondido pelo manto. Havia algum sangue, mas ele pouco me interessava. Eu não poderia esperar outra coisa de um acidente de trânsito com vítima fatal. Bateu com a nuca no meio fio, disseram. A violência, contudo, não lhe deformou o rosto, agora um pouco familiar.

A sirene de uma ambulância inútil soou próxima, confundindo-se com outra de mesma natureza, do carro da polícia, e a multidão abriu espaço num pulo para que aqueles homens e mulheres fizessem seu show. Em uma maca, ele foi colocado na ambulância, que partiu em disparada, sumindo no mesmo cruzamento onde mais cedo vi desaparecer o taxi de Marvin.

Não me restou qualquer vontade de continuar andando, ou de passar em algum shopping, ou tomar um sorvete. Voltei ao primeiro andar daquele prédio de linhas do Ecletismo, onde os últimos dez anos eu vivi, entre idas e vindas com Marvin. Ainda meio autômata, peguei na geladeira a garrafa de vinho pela metade, enchi a taça e, com ela na mão, sem dar contudo um único gole, visitei cada cômodo do apartamento. Ele fez um bom trabalho. Levou consigo as fotos, os vidros de perfume, absolutamente todas as roupas, boa parte dos livros. Deixou bem pouco sobre o que eu pudesse lamentar, ou desfazer em um ritual catártico.

Na área de serviço, grandes sacos de lixo revelavam o que foi segregado, que não deveria ficar nem com ele nem comigo, simplesmente porque não tinha qualquer valor, ou porque, ao contrário, seria difícil decidir numa partilha. Havia muito papel, caixas de papelão e outros objetos que eu podia adivinhar pelas saliências no saco de lixo. Uma velha miniatura de lhama, souvenir de uma viagem aos Andes,  a caixa do relógio que eu dei a ele no último aniversário, vidros vazios do seu perfume de sempre, e outras tantas coisas que eu identificaria de olhos fechados, e se insinuavam para mim no véu de poliestireno.

Tal como mais cedo, deu-me uma vontade súbita de abrir aqueles sacos e contemplar os vestígios que dez anos de comunhão são capazes de gerar. Tocar cada um daqueles objetos, refazer seus contornos, reconstituir o momento em que chegaram às nossas vidas, examinar o conteúdo para além das embalagens, como certamente faziam naquele mesmo instante com o morto da esquina. Vi que, obedecendo a um comando inconsciente, minhas mãos avançavam para um dos sacos, num ímpeto de abri-lo aos rasgos. Mas, uma sirene soou próxima. Era a coleta do prédio, que vinha para levar o que restou, tal qual mais cedo levaram também o morto da esquina.

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Foto de Ricardo Prado.

Catarina Guedes (1974) é jornalista, nascida em Salvador (BA). Depois de passar por diversas mídias impressas e eletrônicas, como repórter ou editora, dedicou-se à assessoria de Comunicação com ênfase na agricultura e nos assuntos ligados ao campo. Isadora, sua Camisola La Perla e a BR é o seu primeiro trabalho literário voltado para o público jovem e adulto. Para crianças, é criadora do personagem Alaor, o Agricultor e diversas publicações independentes.

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