Aqui se paga, de Emmanuel Mirdad

A coluna CONTO AFORA desta semana traz um texto de Emmanuel Mirdad. Um pouco da brevidade e do insondável que há em viver.

Boa leitura.

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O pequenino tem os cabelos ralados pela quimioterapia agressiva, e a cabecinha começa a doer muito na escada rolante de um shopping. Chora silenciosamente, sente a dor aguda, mas as lágrimas, quando escorrem, costumam agredir a quase microscópica e incipiente paciência do intolerante. A babá vocifera cuidadosamente ao ouvido do pequenino, com os maquiavélicos bons modos de quem não desperta a curiosa atenção alheia:

– Se você chorar, te levo ali na farmácia pra tomar injeção. Não chore! Quer tomar injeção?!

A dor era tão forte, que o pequenino nem conseguia gemer, só escorrer lágrimas e contrações no rosto, e a mãozinha esquerda roçando o cocuruto ralo de fios como numa prece pelo fim da dor aguda, certeira e impiedosa. E, ao ouvir a palavra injeção, o terror disparou a mãozinha a enxugar freneticamente as lágrimas, o que só fazia jorrar mais e mais. Dessa vez, a sutileza deu lugar a um tranco, sacudido:

– Você tá teimando, é? Vai agora mesmo tomar injeção! Vai parar ou não?!

A última lágrima desceu sem amparo. Parou de coçar a cabecinha e, desamparadamente, pra dentro, balbuciou:

– Num ké jéção… Eu ké morrê.

 ▪ ▪ ▪

 Três meses depois, a babá teve uma dor aguda no estômago. Morreu de choque anafilático, surpreendida pela anestesia. O pequenino não entendeu nada. Nem ela.

 ▪ ▪ ▪

 – Mamã, mamã, pô que papá do céu num me leva pas‘istêla cum Jana?

– De novo essa história, filho?! Já te falei que você vai ficar bom, papai do céu quer assim – um beijo rápido. – Agora vá, adiante, temos que ir no médico pra você tomar remedinho, viu, meu anjinho? – outro beijo, meio neurótico. – Pra ficar bom logo-logo, viu?!

– Ké ir não, mamã, eu vô pas’ istêla, eu sei.

E foi – 78 anos mais tarde, em casa, ao lado de sua esposa, filhos, netos e um bisneto.

Emmanuel Mirdad - Foto Leo Monteiro - Cópia
Foto: Leo Monteiro

Emmanuel Mirdad é baiano de Salvador, escritor, roteirista, diretor, compositor e produtor cultural, sócio-diretor da produtora Cali. É um dos criadores, donos da marca e coordenadores da Flica. Publicou Nostalgia da lama (Cousa,2014, poesia) e Abrupta sede (Via Litterarum, 2010, contos). O conto Aqui se paga integra o livro O grito do mar na noite (Via Litterarum, 2015, contos), que será lançado em maio. ( www.mirdad.com.br.)

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