Os passarinhos são os mesmos, de Mayrant Gallo

A coluna CONTO AFORA  está de volta!

E para começar essa 2ª temporada, que vai trazer mais dez contistas, contamos com o texto de um autor talentoso, reconhecido nacionalmente e extremamente devotado ao seu trabalho de escritor de ficção. Mayrant Gallo é quem abre a temporada.

Boa leitura!

Conto Afora2ª TEMPORADA 02

O ônibus parou na rodovia, e um rapaz desceu, uma pesada mochila nas costas. Pequeno no acostamento, olhou para um lado e outro, enquanto o veículo se afastava e por fim sumia, dois olhinhos vermelhos somente, na escuridão. Do outro lado, a distender-se no vale, silenciosa, a cidade era uma massa de luz tênue e amarela. O rapaz atravessou a pista e desceu em direção às primeiras casas. Para além da cidade, mais luzes tremulavam sobre o mar.

Era tarde, e ele não encontrou ninguém. Nem um bêbado. Muitas casas já estavam às escuras, e as ruas desertas pareciam sonhar, alheias a qualquer movimentação. Edu caminhava indeciso, mas, mesmo assim, muito menos hesitante do que imaginara. Oito anos longe não são oito dias. Estava agora com vinte e sete anos e não possuía mais a vitalidade de antes, quando partira. O entusiasmo então, quase que o perdera por completo. Sobretudo depois que soube da morte do pai…

– Morreu? Morreu como? – perguntou à mãe.

– Há duas semanas…

– E a senhora nem me ligou…?

Dias mais tarde ele decidiu que voltaria. Que iria ver a mãe, sozinha agora, na grande casa no fim da rua. Durante a viagem, pensou na Rural, o velho carro do pai. Ele nunca mais o mencionara. Será que ainda existia? Era bem provável que não. Ou se transformara em ferro-velho ou estava na garagem de algum rico colecionador, imóvel.

– Como o pai morreu? – perguntou, pelo telefone, da estrada.

– Dormindo. Gemeu, pensei que estava sonhando, mas, de manhã, quando o toquei, estava frio como uma porta de geladeira…

Ele ficou sem saber o que dizer. Morrer dormindo. Transporte de um estado sereno a outro, mais profundo. Talvez esta fosse a melhor das mortes. Completamente indolor. No ônibus, enquanto a paisagem fugia, lembrou-se de sua infância, de seu pai, de sua habilidade com as mãos, o gosto de consertar qualquer coisa e também de montar brinquedos, que chegavam pelo correio em grandes caixas: o Titanic, o Concorde, outros. Por que partira, oito anos antes, se tinha tudo, um lar, o amor dos pais, a atenção necessária pela qual reclamam os jovens rebeldes? Simplesmente porque é preciso devorar horizontes, chegar a algum lugar, estar consigo mesmo, sob seu próprio teto e controle.

Antes de alcançar a casa, ele avistou a luz da varanda, e a mãe, de pé, à sua espera. Emagrecera tanto, que, mesmo de longe, era possível sentir a fragilidade de seu corpo. Quando ele a abraçou, sentiu-lhe tão exíguas as carnes, de uma matéria tão frágil e débil, que foi como se a colhesse em seu peito para sempre, fundindo-a aos seus músculos, soldando-a aos seus ossos.

O dia o surpreendeu em seu antigo dormitório. A mãe já se levantara e mexia e remexia na cozinha. No ar, o cheiro bom de café. Foi isso, aliás, que o despertou, não os ruídos de pratos e talheres e panelas, que a mãe, meio surda, sacolejava na manhã. Edu passou do quarto direto para o quintal, nos fundos, ignorando o resto da casa. Procurava o carro, a Rural, sobre cujo destino, na noite anterior, esquecera-se de perguntar à mãe. Ainda existiria? A mãe o viu passar pela lateral da casa em direção à garagem. Sabia o que ele buscava e apenas sorriu, enquanto despejava o café na garrafa térmica.

A garagem estava trancada, sinal de que a Rural se encontrava ali, intacta. Satisfeito, Edu sorriu e, ao se virar, avistou um rosto, que o fitava por sobre o muro. Léo. Seu amigo de infância. Desde que o pai de Edu morrera, que Léo vinha todas as manhãs e ficava ali, parado, atrás do muro. A mãe de Edu, quando o via, apenas balançava a cabeça. Mas Léo sabia que o amigo voltaria, mais cedo ou mais tarde, ainda que fosse só por alguns dias, para revirar as coisas do pai… Aquele carro, por exemplo. Uma raridade na região e talvez em todo o estado.

Os dois se abraçaram, forte e demoradamente. Depois, sentaram-se nos degraus da varanda e ficaram conversando. Uma pequena revoada de passarinhos invadiu o quintal, trinando. Faziam ti-ti-ti, num alvoroço ensurdecedor. Catavam qualquer coisa pelo quintal, os farelos de pão que a mãe de Edu jogara logo cedo, ao começar a batucada na cozinha.

– Os passarinhos são os mesmos – Edu comentou.

– São sim – Léo assentiu.

Havia entre eles uma barreira de oito anos e algumas mudanças. O fim do gosto pelos quadrinhos. O fim do prazer de ouvir rock. O fim da insegurança diante das mulheres, substituída por uma petulância carnal. E isso era mais do que suficiente para silenciá-los. Súbito, ocorreu a Edu perguntar pela família do amigo, em especial por sua irmã…

– Como você, Diana foi embora. Deu um basta a essa cidade estúpida.

Da porta da cozinha, a mãe de Edu os chamou para tomar café. Na mesa, o assunto do carro veio à tona, e a mulher garantiu que a Rural estava sim lá dentro, na garagem, embora não soubesse, não mesmo, por onde andava a chave do enorme cadeado.

– Nem provavelmente da ignição… – Edu frisou, rindo. A mesma força rebelde que o impulsionara para longe o trouxera de volta.

Por algum tempo o café prosseguiu em silêncio. Até que a velha disse:

– Foi por isso que você voltou? Pelo carro?

Léo tentou interceder, conciliador, antes que a batalha entre mãe e filho, constante no passado, se reinstalasse. Edu ignorou a interferência do amigo e falou, sem convicção, mas em tom de desafio:

– Acho que sim. Foi. Foi pelo carro.

Não era o que a viúva pretendia ouvir, e por isso ela se levantou e começou a desfazer a mesa. O pão, destroçado, ficou sozinho entre os farelos. No ar, o odor de café era só uma lembrança, uma nódoa. Ela ainda não começara a lavar os pratos, quando os primeiros golpes de machado fizeram-se ouvir na porta da garagem. Lamentou-se então por não ter feito o serviço completo e enterrado também o carro.

MayrantGalloPorRicardoPrado
Foto de Ricardo Prado

Mayrant Gallo publicou O inédito de Kafka (Cosac Naify, 2003), Brancos reflexos ao longe (Livro.com, 2011), Cidade singular (Kalango, 2013), As aventuras de Nicolau & Ricardo: detetives (Penalux, 2014) e O gol esquecido (A Girafa, 2014). Sua novela Moinhos, que integra o volume Três infâncias (Casarão do Verbo, 2011), ganhou o prêmio Literatura para Todos 2009, do MEC. Em 2010, foi contemplado com a bolsa de criação literária MinC-Petrobras, o que resultou no romance Os encantos do sol (Escrituras, 2013).

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2 comentários sobre “Os passarinhos são os mesmos, de Mayrant Gallo

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