O sinal de nascença, de Gláucia Lemos

Quem vem estrelar a coluna CONTO AFORA é ninguém menos que Gláucia Lemos, cuja história na literatura dispensa apresentações. O texto que publicamos aqui traz, desde o título, um toque subliminar e nos impõe uma inquietação, frente à violência da natureza humana. Uma grande escritora nos visita esta semana.

Boa leitura!

Conto Afora2ª TEMPORADA 02

Maravilhados com a imponência da sala, olhávamos tudo com incontida curiosidade, pois nunca a tínhamos visitado antes. Começávamos a conhecer cada peça do mobiliário enquanto, ao mesmo tempo, eu tentava reconhecer as personagens retratadas e emolduradas nas redomas que pendiam das paredes, suspensas por longos cordões trançados.

Aquele senhor moreno de cabelos lustrosos, espessos bigodes bem aparados e costeletas recortadas, era, sem dúvida, o meu bisavô Diogo. Olhar severo sob sobrancelhas negras, queixo forte e nariz afilado, formavam um belo conjunto definindo, bem o rosto do homem de cuja personalidade impressionante eu estava acostumada a ouvir falar desde a minha infância.

Comentavam, em tom que se equilibrava entre respeito e temor, que administrava o engenho com punho firme, aplicando igual rigor na consideração dos erros e dos acertos, quando punia cruelmente os primeiros e premiava generosamente os segundos. Não conhecia meias medidas, ou, se as conhecia, preferia ignorá-las. Nunca perdoando, jamais negando prêmio. Mas tudo na exata medida em que lhe parecia.

Aquela moça da redoma a seu lado, era, com certeza, a minha bisavó Idalina. Olhei-a com simpatia. Demorei-me examinando o rosto delicado e fino. Cabelos escuros, penteados em bandós, ornavam as faces brancas que me pareceram de louça. Olhos grandes e claros irradiavam uma expressão tranquila, embora, talvez, um toque de melancolia.

Corri ao grande bisotê que encimava um console e comparei meu rosto. Era verdade. Eu era muito parecida com a minha bisavó, como minha mãe costumava dizer. Os olhos cinzentos, graúdos, a conformação do nariz, o desenho dos lábios. Se me penteassem uns bandós, poderiam dizer que aquela foto era minha. Teria tido minha mãe uma premonição ao escolher para mim o mesmo nome de sua avó. Apenas uma diferença existia entre os nossos rostos: eu trazia na face esquerda um sinal de nascença. Um pequeno traço oblíquo que poderia ser confundido com uma leve cicatriz de arranhão. Sinal que não encontrava no rosto sem mácula da minha bisa Idalina. Dizia a crendice popular que minha mãe, quando grávida, teria guardado em seu sutiã algum objeto de forma semelhante àquela que acabara por marcar o meu rosto. Talvez uma fina corrente de medalha que costumasse usar no pescoço, repousasse por acaso entre seus seios.

Devagar, continuamos explorando o casarão. Examinávamos tudo cuidadosamente, Olívio e eu. Gostamos da estante de canto, da delicadeza de uma enorme cristaleira jateada com ramagens, onde ainda estavam guardadas donzelas, jarras de opalina e compoteiras. Rimos da namoradeira, cada assento voltado em sentido contrário ao do par. Olívio apaixonou-se pela cômoda barroca e se deixou apreciando as graciosas volutas, enquanto eu me pus a andar pela sala e, foi então que encontrei a cadeira. Era algo extraordinário, imponente.

Uma cadeira de braços, de espaldar alto, estava colocada em lugar de destaque no salão. Parecia um trono. Ouvira falar dessa famosa cadeira do meu bisavô. Sentado nela, o fidalgo ditava as ordens no engenho. Demorei-me apreciando-a. Pernas sólidas que terminavam em pés de dupla garra. O encosto lavrado, ostentava no alto o brasão, à maneira das armas de uma casa nobre. A quantas cenas aquela cadeira teria assistido… Sentado nela meu bisavô teria exercido seu tirânico poder sobre familiares, mucamas e escravos daquela propriedade. Atraída, fui-me aproximando. Quanto mais me aproximava, mais me sentia atraída. Comecei a sentar-me. Tão logo acomodei-me no assento, fui possuída por estranha sensação de poder. Inicialmente atribuí à situação da peça, como um trono em local privilegiado na imponência da sala. Procurei avistar Olívio. Estava ajoelhado examinando os pés de bronze de uma arca. As solas dos tênis, voltadas para cima, mostravam-se muito sujas da terra do jardim. No meu costumeiro cuidado por asseio na casa, isso me fez sentir inexplicável irritação que me tomou subitamente. Um sentimento novo e agressivo. Procurei conter-me e chamei:

– Olívio!

Meu marido estava inteiramente absorto, sentindo nos dedos o caprichoso lavrado que ornamentava a arca, apaixonado que era por arte de marcenaria. Seu silêncio inspirou-me um sentimento de ira incontrolável, até então desconhecido para mim, e gritei:

– Olívio!!!

Assustado, ele ergueu-se de um salto e me olhou. No rosto uma surpresa de quem não me entendia. Eu estava trêmula de irritação. Agarrava-me aos braços da cadeira tentando conter-me, mas me tornara possuída por uma raiva incontrolável. Meu marido, olhos em pânico, correu para mim, tomando-me nos braços. E foi quando o abraço amoroso de encontro a seu corpo tirou-me da cadeira, perguntando o que havia comigo, que comecei a me tranquilizar e senti vergonha de lhe dizer da violência que me possuíra. Eu sempre fora louvada pela serenidade. Disfarcei, falando que me sentira muito mal de repente, e gritara tanto para que me socorresse, mas já estava bem. Olívio atribuiu ao calor da sala, pois havia no ar um incômodo abafamento. Abriu as janelas e nos pusemos a comentar a história daquela casa.

A casa grande do engenho não era habitada pela família havia muitíssimos anos. Empregados encarregados de limpá-la e conservá-la com tudo o que nela se encontrava, cuidavam fielmente desse encargo. Minha mãe, filha única de uma única filha, herdara dos avós, pelos quais fora criada ao perder os pais em um acidente, tudo o que havia no engenho. Desde a morte dos avós, porém, nunca mais voltara ali, receosa das recordações que a magoariam. Por esse motivo, Olívio e eu não conhecíamos o local, onde somente meu pai ia, regularmente, para administrar a lavoura de cana, já que o engenho fora desativado. Para nós, tudo era novo e fascinante, já que só conhecíamos a história.

Retornamos a conhecer os cômodos da casa e planejar modificações que nos permitissem trazer as crianças durante as férias para aproveitarem a quietude e a liberdade que poderiam desfrutar em todo aquele espaço da fazenda.

No início da tarde o céu mostrou-se nublado, e sem tardança o aguaceiro desabou precedido pelos relâmpagos e pelo ribombar da trovoada. Esquecemos o episódio da cadeira, preocupados que estávamos com a necessidade de retornar para as crianças que nos esperavam na cidade, aos cuidados de minha cunhada, o que estava dificultado pela mudança do tempo.

À tardinha um caseiro veio nos avisar que não poderíamos regressar naquela noite. Ruíra, ao peso do temporal, a velha ponte que se estendia sobre o rio, cujas águas cresciam inundando inteiramente as margens. A comunicação estava interrompida. Pernoitaríamos na casa grande do engenho, até que no dia seguinte pensássemos em como voltar, talvez por um caminho mais longo, por onde fosse possível passarmos com o carro.

Recolhemo-nos cedo. Não havia lua, só as águas do céu generosas. Sem demora os sapos puseram-se a coaxar nos brejos, e os grilos a habitar o pouco silêncio que a tempestade permitia.

Despertei aos gritos que me chamavam.

– Idalina! Idalina!

Era uma voz de homem de entonação muito forte. Sentei-me na cama ainda atordoada, enquanto repetia-se o chamado. Olhei em volta. A meu lado meu marido ressonava calmamente. Algum dos empregados estaria a berrar meu nome? Mas daquele jeito? Os cachorros continuavam silenciosos, o que me garantia que na área externa da casa nenhuma anormalidade acontecia. Só a chuva que lá fora continuava ruidosa, como um soturno fundo sonoro àquele estranho apelo.

Levantei-me entre apreensiva e sonolenta, aproximando-me da porta cuja vidraça era velada por pesada cortina. Afastei-a com cuidado, sem abrir a porta, e pus-me a espionar o salão contíguo à alcova onde nos acomodáramos. Sem entender, com olhos ainda turvos de sono, vi que havia alguém ocupando a cadeira majestosa. Era um homem. Usava um colarinho alto, engomado, que quase lhe tomava o pescoço. Aquelas costeletas, aquele bigode aparado, o meu bisavô Diogo?!

– Idalina! Idalina!!! – ele ainda gritava impaciente.

Comecei a tremer. Eu não atenderia àquele chamado. Prendi a respiração e deixei-o continuar. Em pânico, sequer ocorreu-me acordar Olívio.

Logo, porém, pela porta do corredor, assomou a figura esbelta da minha bisavó Idalina, no passo suave, cheia de dignidade. Olhos fitos no meu bisavô, as mãos branquíssimas segurando as pontas da mantilha rendada, ela aproximou-se e, sem dizer palavra, parou à sua frente. Vi o bisavô Diogo voltar a cabeça na direção do corredor, e ordenar gritando:

– Tragam a negrinha!

Imediatamente, dois negros vestidos com calções que lhes chegavam às canelas, entraram arrastando uma mucama até a frente de Diogo que se levantou e, retirando do espaldar da cadeira um chicote muito comprido, estalou-o no ar e voltou-se para minha bisavó, exclamando:

– Vou castigar sua protegida, senhora, para que aprenda que neste engenho todos têm que obedecer somente às minhas ordens. Somente eu mando aqui e ái daqueles que me desobedecem.

Levantando o braço da prepotência, aplicou na negrinha a primeira chicotada. A menina gritou e rolou no chão gemendo. O rosto de Idalina contraiu-se. Escutei sua voz atormentada, enquanto avançava e se punha entre o marido e a negrinha, protegendo-a.

– Não, senhor meu marido, não a castigue mais!

– Saia da frente, senhora, não quero machucá-la! – ele gritou.

E, erguendo o látego mais uma vez, cheio de indignação, a segunda chicotada colheu em cheio a face esquerda de Idalina , que se interpunha, protegendo a menina. Vi minha bisavó cambalear com as mãos no rosto, sem um gemido, e, mantendo a dignidade do silêncio, correr para o interior do casarão, deixando cair sem cuidado a mantilha rendada.

Foi como se sentisse arder a chicotada em minha própria face. Era terrível. Numa vertigem, recostei-me ao portal. Levei as mãos ao rosto. Estava úmido. Minhas mãos ensanguentadas. O meu sinal de nascença sangrava.

 eu ´posse Radel out.2014 003 - CópiaGláucia Lemos é baiana. Escritora. Dedica-se à Literatura como atividade principal, nos gêneros romance, conto, poesia e infanto-juvenil.  Já atuou muito em jornalismo, assinando colunas e publicando ensaios de filosofia da Arte em jornais da Bahia e de outros estados. Tem 37 livros publicados, 4 romances premiados. Seus livros infanto-juvenis levaram-na a todo o território nacional,  e lhe valeram vários prêmios. É filiada ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, à União Brasileira de Escritores de São Paulo-UBE-SP  e à Academia de Letras da Bahia. Mora em Salvador, Bahia.

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Um comentário sobre “O sinal de nascença, de Gláucia Lemos

  1. Querido amigo, Dênisson Padilha filho, você me distinguiu para reabrir a sua página Conto Afora. Sabendo-o o escritor com as qualidades que tem, avalio o seu bom gosto literário, por isso nesta sua escolha, sinto-me muito lisonjeada. Este conto participa do meu novo livro “Todas as águas”a ser lançado em julho próximo. Muito obrigada e deixo-lhe um beijo de amizade.

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