Ouro, prata ou bronze, de Állex Leilla

É incrível como ela consegue falar de forma leve e fluída sobre algo que poderia ser pesado.

Allex Leilla, é um prazer ter você estrelando a 2ª temporada da coluna CONTO AFORA.

Conto Afora2ª TEMPORADA 02

— Você já viu dois homens numa cena ou sessão?

A pergunta ficou alguns segundos ecoando. Eu estava com uma tarja sobre os olhos e todo mundo sabe que qualquer privação de um sentido aumenta a intensidade dos outros. Pois bem: meus ouvidos pareciam captar a reverberação daquela fala. Já vi?, me perguntei em silêncio. Logo vieram à mente sites, revistas, DVDs… Valeriam como resposta?

Pela demora em responder, recebi um beliscão.

— Sim ou não? — insistiu.

— Não, Mestre. Pessoalmente não — respondi.

Ele riu. Senti o barulhinho de sua risada colando-se em mim. A mão me puxou pra um lado.

— Venha. Ande devagar — mandou. — Há uma escada. Fique atenta.

Guiada por Suas mãos, fui descendo o que só poderiam ser degraus. Não eram muitos. Quando paramos, recebi ordem pra me sentar. Sentei num troço que pareceu uma cadeira sem fundos, pois minha bunda nua logo percebeu o vazio embaixo, enquanto minhas coxas se acomodavam ao que deduzi ser um quadrado de madeira.

— Ponha as mãos para frente — Ele ordenou.

Pus. Ele me algemou. Fez o mesmo com meus pés, prendendo meus tornozelos às pernas da cadeira, de modo que meus joelhos ficaram abertos, e meu sexo, escancarado, afinal, eu usava apenas uma microssaia sem calcinha, e um bustiê.

Durante algum tempo (pra mim é sempre uma eternidade), fez-se o mais completo silêncio. Meu corpo, quando quieto, começa a inventar modas, então, naturalmente, meu nariz coçava, minha boca estava seca, o cabelo caía sobre o rosto, e meu pescoço reclamava da pressão da coleira. Quando achei que estava sozinha, que Ele havia me largado ali, amarrada, exposta e de olhos vendados, percebi um murmúrio ao redor. Uma música também se fez ouvir. Um rock. Melhor dizendo: uma balada metal. Black Sabbath?, eu quis saber.

Ele tirou minha venda. Sentou-se atrás de mim, contornando a cadeira onde eu estava. Me acariciava devagar. Apontou a cama com dossel à frente.

— Veja. Quero que preste atenção em tudo.

Na cama, o Top estava de joelhos e segurava o rosto do bottom com uma das mãos, a esquerda; com a direita, usava um flogger pra atingir a bunda do rapaz. O bottom estava de bruços, a cabeça, contudo, erguida, chupava o pau do Top. Chupar não é o verbo preciso: ele estava com a boca aberta, os olhos arregalados, as narinas com quem engole todo o ar do mundo, enquanto o Top metia e tirava o membro da boca do rapaz. Algumas vezes, o bottom engasgava e tossia. O Dominante aliviava um segundo, permitia que o submisso tomasse fôlego, em seguida, empurrava outra vez o pau, com violência. Alternava bater o instrumento de couro nas nádegas do outro com a asfixia. Quando abandonava o spanking e se concentrava em enfiar o pau bruscamente e por inteiro na boca do rapaz, tapando-lhe o nariz, o bottom se avermelhava todo, fazia cara de quem ia morrer sufocado, arregalava mais ainda os olhos, às vezes babava, então, o Top deixava-o respirar um pouco, catava o flogger e tornava chicotear o sub. Dez, quinze, vinte… eu contava em vão, pois o Dominante ora acelerava, ora dava pausas súbitas, e logo eu me perdia na contagem. Na terceira sequência de açoites e asfixia, o Dom trocou o flogger por um relho preto, de ponta amarronzada. Com esse novo instrumento, as batidas aumentaram e a expressão de dor no rosto do sub tornou-se cristalina. Por alguns minutos, o Dominante espancou as nádegas, coxas e costas do submisso, sem intervalos. Quando parecia que ia ferir o outro de tanta pancada, o Top parou, inclinou-se sobre o corpo do bottom e o acariciou, lentamente. Corria os dedos nos locais atingidos, apalpando, massageando, enquanto o sub arfava, de olhos marejados, mas sorrindo pro Dom. Esse não só devolvia o sorriso, como piscava o olho pro bottom, entre divertido e galanteador. Eu me perguntava como podiam sorrir numa cena daquela.

Depois de algum tempo na estação carícias (tempo demais, eu sempre penso, tudo me parece uma eternidade), o Top se abaixou em direção ao rapaz e trocaram um longo beijo de língua. Era fascinante o quadro: o Dom é moreno claro, usa cavanhaque, tem o peito largo e peludo e as mãos grossas; o bottom é branquinho, lisinho, e tem um rosto que parece desenhado; os olhos grandes, claros, a boca vermelha, delineada, o nariz arrebitado, o queixo fino. Os dois se beijando de língua era um quadro digno de uma película hollywoodiana. E como estávamos muito perto, dava pra sentir o cheiro e a respiração deles. Beijavam-se com gosto, com fome. Numa palavra: embriagante. Eu me sentia tonta, como se tivesse bebido meia garrafa de tequila.

O Top virou o bottom de frente, dobrou e abriu suas pernas, na posição de frango assado. Os pulsos do menino estavam amarrados desde o início da sessão, porém, ainda assim, o Dominante mandou que o sub os suspendesse acima da cabeça. Pôs-se a acariciar a bunda e as coxas avermelhadas do rapaz. Depois, meteu a língua no rego do outro, subindo e descendo. Pôs dois dedos na boca do bottom, mandando que esse os lubrificasse. O outro obedeceu e, em seguida, o Dom enfiou os dedos úmidos no rego do submisso. Metia e tirava. Devagar, concentrado, enquanto o bottom soltava uns hmmmm e ahhh de prazer. Depois de explorar o rabo do menino com os dedos, o Top abriu uma maleta que estava aos pés da cama, pegou um plugue prateado e uma sacolinha roxa, donde tirou lubrificante e higienizador. De onde eu estava, deduzi que era um daqueles géis mentolados, por causa da cor verde exagerada do frasco. Ele passou o lubrificante no plugue e meteu no rapaz, enfiou até o limite, depois, tirou-o, brusco, estabelecendo um novo ritmo: um-dois-metia, três-quatro-tirava, enquanto o bottom gemia mais alto.

Durante a exploração, o Dominante falava com o sub, numa voz rouca, sensual, coisas como está gostando, meu putinho?, que carinha de safado é essa? Ou então dizia que o rapaz era lindo e gostoso, meu viadinho, ele chamava. Perguntava de quem era aquele rabinho delicioso e o rapaz respondia é todo Seu, meu Senhor.

Meu Mestre também enfiou seus dedos em mim. Sem querer, fechei os olhos. Não me lembro quanto tempo, segundos talvez. Logo me dei conta de que Ele havia dito pra prestar atenção em tudo e os reabri, temerosa. Mesmo estando atrás de mim, o Mestre percebeu meu vacilo. Levei um puxão de orelha, seguido de três tapas, que fizeram zunir na cabeça os murmúrios do casal na cama. Mas como poderia não ter fechado os olhos se o Mestre andou a mexer aqui e ali em minhas coxas, e mexendo em mim, sabe Ele muito bem, que esqueço até do meu nome?

Justifiquei isso e apanhei ainda mais.

— Quero que preste atenção — Ele voltou a dizer, ríspido.

Está certo, pensei resignada, que jeito? Me prometi obedecer, ainda que Ele voltasse com Suas mãos alucinantes. Ia virar uma geladeira, Ele podia me comer ali, na cadeira, que não tiraria mais os olhos dos rapazes, jurei.

Na cama, o Top higienizava um instrumento. Pensei em agulhas ou estilete, porque vi seu brilho metálico de relance. Mas somente quando ele esticou a mão até o criado e acionou uma luminária, direcionando o foco de luz pro corpo do bottom, é que pude ver que se tratava de um bisturi. O Dom passou álcool no peito do sub e desceu suas pernas, mandando-o ficar quietinho e esticado. Depois, inclinou-se e o beijou novamente. Ficou alguns minutos brincando de passar a língua na boca do rapaz, enquanto as mãos iam e vinham, passeando pelas coxas do outro, arrancando-lhe suspiros. Por fim, empunhou o bisturi. Mas antes de encostar na pele do bottom, perguntou:

— Qual palavra meu menino deve me dizer quando estiver tudo indo bem?

— Ouro, meu Senhor — disse o bottom.

— Que palavra meu menino deve me dizer quando precisar me pedir para diminuir a intensidade?

— Prata, meu Senhor — respondeu prontamente o rapaz.

Os dois tinham a voz firme, mas eram gentis, e me pareceram muito à vontade em seus papéis. O Top acariciou o bottom com a mão livre, enquanto a outra segurava o instrumento.

Voltou a perguntar:

— Qual palavra meu menino deve me dizer quando precisar me pedir pra parar?

— Bronze, meu Senhor — falou o submisso.

O Top disse muito bem e voltou a namorar o bottom por mais alguns minutos. Inclinava-se parcialmente sobre ele e o beijava, roçava o nariz no rosto do outro, roçava a barba, lambia seus lábios, as bochechas, beijava suas pálpebras e a testa. Pensei que nunca tinha visto cena tão sensual e tão romântica, mas, ao mesmo tempo (como definir sem erro?) tão assustadora. Sim, eu estava assustada com toda e qualquer ação do Dominante. Achei-o por demais sádico. Não, eu não o conhecia, todavia, ele assim me pareceu, com aquele jeito esquisito de prolongar a cena e, principalmente, com aquele bisturi na mão. Eu jamais confiaria naquele Top, ainda que fosse sexy. E se acaso estivesse sob seu domínio, fosse lá por qual razão, trataria de responder sempre bronze, meu Senhor a qualquer proximidade sua!

Eu olhava o rapaz e queria mesmo gritar bronze por ele. Meu coração estava aceleradíssimo. Se alguém me filmasse, decerto acharia que eu fosse não apenas uma masoca iniciante, mas uma adolescente estúpida: não conseguia controlar as batidas do coração, minha respiração era forte e minhas mãos suavam. Contudo, o bottom não demonstrava pânico: estava com uma expressão de total entrega. Melhor dizendo: estava de pau duro desde o início do spanking e assim continuava, aceso, à disposição do outro.

O Top desenhou uma letra no tórax do bottom; quando o sangue escorreu um pouco, ele lambeu o local com volúpia. Mas até nisso o Dom era sádico: antes de cortar, encostava o bisturi num mamilo, depois noutro, e recuava, fingindo estar avaliando o corpo do sub, enquanto o rapaz mordia os lábios, creio que de ansiedade. Está fazendo figa?, pensei, incrédula. Ficou nessa brincadeira, apertando os olhos e medindo o outro. De repente, o bottom murmurou por favor, meu Senhor, e o Top respondeu, muito sério, o quê, meu menino? O rapaz disse por favor, me permita Te servir. De riso estampado, o sádico respondeu sim, você vai me servir, meu escravinho lindo… Soletrou: você vai me servir e aplacar minha sede, porque você é minha gos-to-su-ra. O rapaz agradeceu e, de olhos fechados, esperou.

O Top fazia cortes pequenos e se abaixava a fim de lamber o sangue. O bottom pediu pra se tocar e o Dom assentiu. Desamarrou as mãos do rapaz, pôs lubrificante no pau do bottom e mandou que ele se masturbasse bem gostoso, no que foi obedecido prontamente. Eu não conseguia acreditar no quanto estavam excitados. Sentiam um prazer tamanho com o sangue: um em sugar, o outro em ser sugado. Não posso acreditar que isso dê prazer, pensei comigo. Porém, dava, e muito! Estavam ambos duros. Enquanto o bottom se masturbava, o Top se deu por satisfeito com o sangue lambido. Pegou um frasco de álcool ou equivalente, espremeu num chumaço de algodão, e passou  por todo o peito do outro, corte por corte. Afinal, pôs curativos transparentes. Três ao todo.

— Maravilhoso, não? — sussurrou o Mestre em minha orelha. Murmurei um sim, meu Senhor, mas não me voltei, não desgrudei os olhos, mesmo quando Ele pressionou mais forte a minha xana e iniciou um vai-e-vem.

O Top voltou a dobrar as pernas do bottom na mesma posição anterior, de frango assado, tirou o plugue prateado do rabo do sub e meteu o próprio membro no lugar. Notei que não usava camisinha. Quando o Top meteu de uma só vez no bottom, esse parou de se masturbar e deu um gritinho, mas o Dominante ordenou que continuasse e o sub recomeçou os movimentos em si mesmo. Aumentavam o ritmo e se olhavam nos olhos, gemendo.

Cá no nosso canto, o Mestre parou de enfiar os dedos no canal da frente e passou pro detrás. Doeu quando Ele enfiou dois dedos lá atrás, mesmo estando previamente lubrificados com meus fluidos. Todavia, Ele não se demorou nisso: pôs um vibrador lá, abriu minhas algemas, soltou meus tornozelos e me fez erguer da cadeira sem forro e me sentar no Seu membro. Era chata a posição. Não sei de outras mulheres, mas a mim nunca deu prazer, porque a cabeça do pau bate direto no meu útero e é uma dor desagradável, nada sensual. Uma dor chuchu, sem graça, de péssima reverberação. Em geral, corta todo o clima. Naquele momento não foi diferente: eu estava excitadíssima com a apresentação dos dois rapazes, porém, tudo se perdeu com as estocadas no meu útero. Todo mundo sabe que útero só serve pra guardar bebês, não é um órgão estimulável, não se sente prazer quando algo bate nele. Deveria tê-lo extraído, anos atrás, foi o que pensei naquela hora.

Contudo, me foi dada a ordem de não tirar os olhos do casal e assim fiz. Tratei de esquecer o incômodo de estar encaixada, de costas pro meu Mestre, mas de frente pros rapazes. Também ignorei o vibrador no meu rabo, até que não estava me incomodando tanto quanto ter de me movimentar daquele jeito e, ainda, não tirar os olhos da cena em frente! O Mestre me forçava a subir e descer cada vez mais rápida, e eu tentava ignorar o baticum no útero, me concentrando unicamente no casal em frente.

Top e bottom se amalgamavam tanto que eram quase um naquele instante. Via-se claramente que ambos estavam amando aquela sessão. O Top estocava e perguntava se era ouro, beliscando os mamilos do rapaz; esse respondia que sim, que era ouro, sempre, até a eternidade. O sub pediu pra gozar e recebeu permissão. Gozou gritando ahhh!, meu Senhooooor, em meio a uma chuva de beijos e mordidas que o Dominante lhe dava. O Top ainda deu mais algumas estocadas e, finalmente, também gozou, murmurando um longo meu meninoooo!

Ao terminar de gozar, o Dom ainda brincou alguns segundos de meter e tirar o membro de dentro do sub. Por fim, levou-o à boca do bottom e mandou que esse limpasse tudo. O rapaz lambeu o pau do Top, de cima abaixo, lambeu com gosto, os olhos felizes, a saliva escorrendo, como se chupasse um picolé. O Top tomou o rosto do bottom entre as mãos, limpou-o com uma toalhinha e beijou carinhosamente a testa, os olhos, as bochechas, os lábios do rapaz. Dizia bom trabalho, meu menino, enquanto o outro sorria, claramente envaidecido.

Cumpri tão obstinadamente a ordem de prestar atenção às cenas, que não percebi quando meu Mestre esporrou dentro de mim. Só me dei conta disso quando Ele me puxou os cabelos e, então, deduzi que Ele havia me mandado gozar anteriormente, provavelmente antes Dele, ou teria sido depois? Não sei, que me importava?, simplesmente não ouvi e não gozei, não estava sequer excitada mais, estava tão somente atenta, melhor: admirada.

— O que houve? — o Mestre me perguntou, virando meu queixo pra si. Um olhar de puro desapontamento.

Expliquei brevemente o problema da posição, do incômodo no útero, de como minha excitação havia sumido diante da minha obrigação de observar a sessão. Pela expressão Dele, vi que não gostou da minha resposta. Mas mandou que eu me erguesse e saudasse os rapazes. Assim o fiz. Meu Mestre nos apresentou. Formavam uma linda dupla, porém, o que mais me deixou boquiaberta não foi a beleza deles, mas a cumplicidade. Como se curtiam! E não era apenas admiração de bottom pra Top, coisa que estou cansada de ver por aí, era uma cumplicidade real, abertamente partilhada.

Fomos pra a sala. Mandaram que eu e o bottom nos sentassem no tapete e nos deram vinho. O mesmo vinho que Eles dois bebiam, apenas as taças nossas eram pequenas e transparentes, enquanto a Deles, enormes, escuras e jateadas. Eles se sentaram nas poltronas.  O Top era muito engraçado e, de perto, não parecia tão sádico. Na verdade, achei-o tranquilo fora da sessão: contava casos, mencionava filmes e livros, fazia piadas; por vezes acariciava os cabelos do bottom, que estava sentado aos seus pés — manifestação de carinho que meu Mestre, por exemplo, jamais faz em público.

Nos deixaram à vontade e o resto da noite foi muito agradável: comemos, bebemos, papeamos. Entretanto, como esquecer?, os olhares que Top e bottom trocavam me incomodavam demais: aquela coisa latejante entre eles, aqueles olhos molhados um no outro, afff!, estava cada vez mais irritada com aquilo e não atinava por quê.

Aproveitei um momento em que nossos Donos conversavam sobre futebol e falei pro rapaz que embora não gostasse de cenas envolvendo sangue, precisava reconhecer que a deles havia sido por demais bela. Me deixou de queixo caído, confessei-lhe. Também mencionei o pensamento que tive: de sempre dizer bronze frente ao mestre dele. Ele sorriu e afirmou jamais ter dito bronze ao Dono, só dissera prata, algumas vezes, mas bem no início da relação. De lá pra cá, era sempre ouro, frisou, com orgulho. Fiquei mais admirada e perguntei desde quando estavam juntos. Há sete anos, ele respondeu. Moravam na mesma casa há três anos, mas se relacionavam há sete.

Alguma coisa em mim esperneava sem querer acreditar naquela história. Mesmo sabendo ser uma grosseria, desdenhei: ora, ora!, sete é a conta da mentira, meu bem. O sub, no entanto, não fez caso da minha fala. Passou a bebericar o vinho, em silêncio, de olhos fixos nas pernas do Dono, me ignorando completamente. Senti uma comichão no corpo, que foi virando pontada, feito uma faca entrando no peito: de fininho, quente.

Somente horas mais tarde, quando já não era madrugada, quando o sol me encontrou deitada na cama, sozinha, insone, é que pude entender a entrada daquela faca (deveria dizer estilete? Adaga? Bisturi?). Sem dúvidas, o corte que eu mais temia na vida. E embora seu talho fosse vertical e profundo, não deixaria qualquer rastro de sangue na superfície. Mordi os lábios, derrotada: era a lâmina da mais absurda e genuína inveja, tão invisível e tão plena, que eu precisei da luz de ouro do novo dia, a luz inconfundível da manhã, pra finalmente, de olhos marejados, compreender.

Frankfurt 13.10.13 047Állex Leilla é escritora, natural de Bom Jesus da Lapa (BA). Publicou os livros Urbanos (contos, 1997), resultado do prêmio BRASKEM; Obscuros (contos, 1999); Henrique (romance, 2001); O sol que a chuva apagou (novela, 2009); Primavera nos ossos (romance, 2012), premiado pelo Programa Petrobras Cultural; e Chuva Secreta (contos, 2013). É professora de Literatura Portuguesa, na UEFS. Blog da autora: www.allexleilla.blogspot.com

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