O sangue que corre nas veias, de Rodrigo Melo

A coluna CONTO AFORA traz esta semana um texto econômico nas palavras, mas que esbanja emoção com precisão. Medidas que definem um conto maduro e bem trabalhado.

Rodrigo Melo é o nome da vez.

Boa leitura!

Conto Afora2ª TEMPORADA 02

Moleque, imaginava que, homem feito, eu seria alguma espécie de guerreiro, herói de batalhas, conquistador (nunca um médico, como meu pai, ou um contador). Transformei-me, por fim, num fiscal da secretaria de trânsito e transportes da prefeitura: o bloquinho e a caneta na mão, óculos escuros pro romantismo não morrer.

O ônibus era o 016, linha 20, que entrava pelo Alto do Basílio, cortava Palmares e descia lá na Avenida Esperança, perto da polícia federal. Minha função era anotar o número da catraca toda vez que chegávamos ao ponto final, e o objetivo da missão, como o pessoal da secretaria gostava de chamar, era descobrir se o trajeto suportaria um ônibus maior. Eu sabia que não, mas não fazia diferença: os diretores e os seus secretários, com as suas caras brutas e mal humoradas, quase nunca seguiam a lógica ou a opinião dos fiscais na hora de tomar as decisões.

Eu subia e descia aquelas ladeiras a olhar para o mar lá embaixo, pensando que, séculos antes, centenas de almas haviam cruzado aquelas águas em busca de amores, de riquezas e de salvação – quando o sangue humano não era derramado em vão. Agora, ao cruzar aqueles morros, eu não buscava nem mesmo um pouco de emoção.

O tempo, de uma maneira ou de outra, acabava passando, da mesma forma como passavam as ruas e as janelas que eu investigava. Quem sabe a vida, minha e a das pessoas que eu via, se resumisse àquilo: a sombra dos prédios e o sol marcando o asfalto, as tardes sonolentas, as horas arrastadas, uma curiosidade quase infantil, a melancolia dos lugares e dos dias.

A empreitada acabava perto das sete da noite. O 016 me deixava a dois quarteirões de casa. Eu apertava o passo porque era justamente nessa hora que as costas começavam a doer.

Naquela noite, no entanto, enquanto eu caminhava distraído, coincidentemente pensando na história dos Aqueus (e em Aquiles, que, antes da flechada, vingou Peleu, do jeito que previram), havia uma garota lá, do outro lado da rua, a gritar e a assobiar para mim. Tinha mais ou menos vinte e poucos anos, vestia um short largo, estilo surfista, um top cor de abóbora e marrom. Linda não era, mas a gente nem sempre pode escolher. O mundo aperta o laço pra quem já passou dos trinta e tantos e não vingou.

– E aí, gato, tá a fim?

– Tô – respondi, sem pensar muito. – Quanto é?

– Trinta.

Ela tinha uma boca carnuda, os seios grandes e pontudos.

– Tenho doze – falei.

Ficamos parados, nos encarando. Fazia frio. Eu pensava que era um tanto Aquiles também, o destemido herói a encarar a vida e as suas provações.

– Com doze, gato, é rapidinho – ela disse, a testa franzida, o dedo me apontando a direção.

E então, a transcendência e a eternidade nos fundos de uma serraria em alguma noite sem estrelas de um ano que não lembro mais. Eu não sabia se era o guerreiro usufruindo das conquistas da vitória, o fiscal de trânsito e transportes da prefeitura rumo à salvação ou o sujeito ultrapassado e perdido no labirinto dos anos e da vida gastando a grana do cigarro para beliscar a alma. Não encontrava a resposta, mas concluí que naquele instante não necessitava encontrar: me bastava sentir, indo um pouco para frente e para trás, com os olhos fechados, a tentar, entre as pilhas de cedros, vinháticos e putumujús, fazer valer a vida, o sangue que corria nas veias e os meus doze reais.

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Rodrigo Melo é natural de Ilhéus e escreve prosa. Lançou, em 2013, pela Editora Mondrongo, o seu primeiro livro, O sangue que corre nas veias.

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