O Sol parado no meio do céu, de Marcus Vinícius Rodrigues

Foi um percurso inusitado e muito interessante. A coluna CONTO AFORA foi provocada a lançar um desafio:  sugerir um tema ao  escritor Marcus Vinícius Rodrigues. Sugerimos, então,  algo em torno do trinômio infância/catecismo/confissão. O resultado foi um conto magistral desse autor premiado e talentoso.

Obrigado, Marcus, por estrelar nossa coluna!

Conto Afora2ª TEMPORADA 02

— E o Sol se deteve, e a lua parou, até que o povo se vingou de seus inimigos.

— Que mentira!

— É verdade. Tá na Bíblia, livro de Josué. Ele pediu para o Sol parar, e só anoiteceu depois que todo mundo morreu. Foi uma matança só. Cinco reis de uma vez.

— Mas na aula de ciências a professora disse que é a Terra que gira em torno do Sol.

Otávio disse aquilo com a certeza da fé e mais interessado no fenômeno natural do que na carnificina. A Terra girava em torno do Sol e girava em torno de si mesma, como no desenho do livro, as setas indicando a rotação com uma certeza de verdade. Ele sabia que a Terra girava como uma bola de basquete no dedo do jogador.  Bastava deitar de costas no chão e olhar para alguma árvore. Dava pra sentir a vertigem. Em torno do Sol não sabia. Apenas acreditava. Acreditava na professora, que era mais inteligente que o padre do catecismo. Aliás, o padre nem falava daquelas histórias do antigo testamento: o Sol parar pra Josué vencer a guerra. O negócio dele era Jesus. Era Beto quem lia sem parar aquelas histórias cheias de sangue e vingança e demônios vermelhos. Assim eram as figuras na Bíblia para jovens que ele lia.

O Sol, àquela hora, estava parado bem no meio do céu. O calor só não era insuportável porque vinha uma brisa fresca do descampado. O bairro era o último da cidade e a casa de Beto era a última das últimas da rua, quando nem havia mais rua direito.  Os paralelepípedos iam ficando aos poucos rarefeitos até virar uma estrada de barro que seguia até um riacho rasíssimo e limpo. Depois desse riacho, havia um caminho estreito até a rodagem adiante, que nem se via, mas que era denunciada pelos zuns velozes dos carros.

Otávio, recostado na parede bem embaixo da janela do quarto de Beto, olhava o céu absolutamente claro.

— E se ele nunca mais saísse daí?

O Sol.

Beto não respondeu. Apenas pegou no chão uma pedra e arremessou contra um cachorro vira-lata que fuçava as bicicletas.

— Sai, peste.

O bicho ganiu em disparada para os lados do riacho.

— Vai ter de contar esse pecado pro padre.

Eles estavam há dias fazendo a lista dos pecados. No dia seguinte ia ter a confissão. A primeira comunhão. O corpo de Deus. O padre levantava a hóstia bem alto. Todo mundo na igreja podia ver. Era o Sol parado no meio do céu. Mas o padre não queria matar cinco reis nem se vingar de nada. Ele queria o perdão dos pecados. Partia a hóstia em três pedaços e comia. O corpo de Deus. Depois, era a vez do vinho. O sangue.

Otávio achava que devia ser nojento ter aquilo na boca, mas tinha vergonha de falar. O padre falava como se fosse uma coisa boa.

“É o corpo de Nosso Senhor. Por isso tem de confessar antes e se arrepender pra se purificar dos pecados.”

“Se ficar um pecadinho que seja, a hóstia gruda na boca e não sai por nada. Às vezes vira até sangue.”

Beto se dizia entendido de Bíblia e de pecados e gostava de aterrorizar o amigo com aquela história da hóstia denunciando o pecado. Quando Otávio disse que achava que o padre não devia ter pecado nenhum, foi o amigo quem disse.

“Ou então tem pecado demais, mas tá sempre arrumando um perdão. Esperto, né?”

Ele achava que a confissão era como tomar um banho. Suja, lava, suja, lava.

“A gente faz o diabo, confessa e comunga. Zerado.”

Mas tinha de contar ao padre. Até a pedrada no cachorro.

— Um cachorro? O padre não quer esses detalhes. Ele já perdoa no bolo das malcriações.

— E você vai contar o que?

O amigo fez uma cara de mistério e apontou pra janela da casa.

Eles pegaram as bicicletas e desceram a rua.

— Pecado mesmo é ousadia, saliência. É isso que o padre gosta de ouvir.

Otávio quis saber o que era. Na sua lista tinha umas malcriações, umas mentiras. Talvez tivesse pensado em ousadia, mas pensar não lhe parecia pecado.

— O que você fez?

— Espera.

As bicicletas chegavam ao riacho. Beto acelerou. A água espirrou alto. Otávio ia logo atrás e ficou todo molhado. O amigo esperou as bicicletas emparelharem e finalmente contou.

— Dei uma dedada na Rita.

Otávio tinha acabado de se molhar, mas sentiu o corpo inteiro ferver. Rita? A sua Rita?

— E tem outra?

— Porra, Beto!

O menino gargalhava. Ele esperava a raiva do outro. Sabia das mãos esbarradas, dos versos escritos no caderno. Os grandes olhares, as pequenas gentilezas feitas com muito esforço. A timidez.

— E ela deixou, a safada.

O murro de Otávio apenas raspou o braço de Beto. O menino acelerou a bicicleta. Sabia que era mais veloz que o outro. A fuga premeditada. Otávio pedalava atrás o mais rápido que podia, impulsionado pela raiva. Beto se vangloriava.

— Ainda dá pra sentir o cheirinho.

Levava a mão direita para o nariz e cheirava com a cabeça inclinada para o alto. O Sol estava a pino, no meio do céu.

***

Quem já viu uma fila de meninos para a primeira comunhão deve ter notado como a música que eles cantam com as vozes ainda agudas de juventude e inocência vai aos poucos silenciando. A cada hóstia recebida, uma voz se cala. O corpo de Deus: silêncio; o corpo de Deus: silêncio. Na igreja ressoam apenas vozes adultas, calejadas e cínicas. Nas crianças, caladas, há um sentimento vago de decepção. Nada de sobrenatural acontece quando se coloca um pedaço finíssimo de massa de trigo na boca. A saliva envolve tudo e dissolve, como dissolveria qualquer coisa que se comesse. A hóstia não gruda no céu da boca do pecador, mesmo que se possa ter essa impressão quando, em meio às últimas vozes do hino religioso, ainda se escuta um grito de meses atrás: olha o carro! Um grito que se poderia ter dado, mas que se preferiu calar porque o Sol não fica esperando parado no meio do céu.

Marcus ViníciusMarcus Vinícius Rodrigues publicou Pequeno inventário das ausências (Prêmio Copene/Fundação Casa de Jorge Amado, 2001, poesia), 3 vestidos e meu corpo nu (Editora P55, 2009, contos), Eros resoluto (Editora P55, 2010, contos), Cada dia sobre a terra (EPPPublicidade/Banco Capital, 2010, contos), Se tua mão te ofende (Editora P55, 2014, novela) , Arquivos de um corpo em viagem (Ed. Mondrongo, 2015, poesia)Mantém o blog: cafemolotov.blogspot.com

 

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4 comentários sobre “O Sol parado no meio do céu, de Marcus Vinícius Rodrigues

  1. Eu li e reli. E da primeira leitura, tremendas (e tremendo vezes) me encontrei em primeiríssima comunhão com o texto.

    Estava na sala de espera para uma consulta, e a assistente do médico precisou me chamar duas vezes. Absorto. Marcus Vinícius tem uma forma de narrar que enreda personagens. Para o leitor, é fácil acompanhar: seduzido.

    Parabéns, meu amigo! Mais um belo conto!

    Francis.

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