Então, é isso, de Lima Trindade

Escritor maduro e reconhecido nacionalmente pela solidez e beleza de toda sua obra. Com toda sua emoção e poesia, Lima Trindade é quem aparece pela coluna CONTO AFORA esta semana.

Boa leitura!

Conto Afora2ª TEMPORADA 02

Então, é isso. Mãos dadas, dedos entrelaçados e um verde dourando a praça. A roupa afetando distinção, limpeza, zelo. Os cabelos e uma raiva que eu queria sentir mas não sinto. E dói. Tudo que é belo dói, cobra um preço alto. Uma vez a irmã de um amigo botou tarô pra mim. Eu não era assim como sou hoje. O amigo tinha mania de ler coisas indianas, espiritismo e maluquices dessa ordem. A barba dele era crespa e grande. Eu não era assim. Assim como sou hoje, de botas e suspensórios. A irmã dele botou o tarô para mim. Ela ficou muito cansada quando fez isso, eu não sei o porquê. Podia ser por causa das coisas que leu nas cartas. Mas ela disse que não, que sempre se cansava com o tarô, pois exigia muita concentração. Não sei se é normal alguém sentir medo do destino e do desconhecido, muita gente acha bobeira e conversa pra boi dormir. Eu senti medo. Era estranho. Ela virava as cartas e eu via uma torre aparecer e outros desenhos que não consigo lembrar. Era um baralho muito bonito o da irmã de meu amigo. A tarde está agradável e é bom estar com a turma, mesmo não conversando muito, a gente se sente seguro. Às vezes mais seguro do que se quer sentir. Os cabelos dele são muito bonitos. São negros e são escorridos. Eu devia sentir raiva de cabelos negros como os dele, brilhando numa tarde resplandecente, coroando sua independência e a testa larga. Corre corre corre. Eu não era assim e não acreditei muito no que a irmã de meu amigo me disse. Olhando para ele, de mãos dadas na praça, vejo o João todinho, inteirinho. Magro e com os ossos da face parecendo que iam furar a carne, os olhos de um fundo inatingível, de um desafio constante, de uma ternura doída e morna, olhos de louco, olhos assassinos. A pele era parda como a terra do jardim que tinha em casa, adubada. Eu imaginava que da pele dele brotariam flores. Era engraçado. O João tentando me ensinar a beber cerveja e a flertar com as meninas e eu só imaginando ele arrebentando todo de botões de rosas e margaridas. E eu ria e ele me chamava de doido. Mas quem era louco era o João, que tinha olhos tão mágicos que me lembravam as histórias que eu ouvira sobre uma lagoa negra onde dormiam monstros e seres fantásticos. Era só o João me olhar para eu me arrepiar. Me dava um desconcerto, uma vontade. E eu bebia toda a cerveja sem respirar. Para não sentir o gosto de mijo. Ou cerveja não tem gosto de mijo? Eu nunca bebi minha urina, mas eu acho que tem, não sei bem, mas acho. ¾ Cerca ele! Cerca ele! Não deixa ele fugir. Cerca ele. Corre, anda: corre! Por ali!… A praça não é grande, mas tá quase sempre vazia, uns namoradinhos aqui e uns cães ali. Ela é arborizada e tem banquinhos para se sentar. Gosto dessa praça, quando eu era pequeno e passava por aqui, meu tio, que é quem cuidou de mim depois da morte de meus pais, comprava pipoca doce para mim. O legal da pipoca doce é que ela é rosa e não branca como a outra, tem mais cara de brinquedo. Ah, ia esquecendo dos pombos. A praça tem pombos como antes. Os pombos pediam minhas pipocas. Eu dava, mas dava pouco, para eles não perderem o apetite pro almoço. Era o que meu tio dizia. Hoje ele não me diz nada, vive sedado de lexotan. Ele cuidou de mim quando eu era pequeno, mas eu tenho raiva de ter de lhe dar comida na boca. É uma nojeira sem fim. O cara não consegue nem limpar a boca. Ele deveria mesmo é ter se casado e tido um montão de filhos para cuidarem dele agora. Desse modo eu também poderia ter dividido minhas pipocas com alguém que não fosse pombo. Os pombos são egoístas e depois que comem não querem mais saber da gente. Hoje à noite eu não vou dar o papá do meu tio, quero que ele fique com fome, só pra aprender. ¾ Quem foi que deixou o outro fugir? Hein?! Quem foi? Traz esse babaca aqui. Eu quero cuspir na cara dele. Os cabelos dele estão ainda mais bonitos despenteados, soltos ao vento, caindo na testa suada, desenhando curvas e laços na pele branca, serpentes e dragões chineses. A camisa esportiva, gola pólo, desabotoada. Um tufo de pelos emergido. Os músculos estão retesados, firmes e arfantes. Olho as coxas grossas sob o tecido das bermudas, os joelhos no chão, as canelas de atleta, quem sabe um corredor? Haveria os competidores em suas raias, o tiro de largada e a excelência dos corpos em disparada, avançando a cada metro, projetando o peito à frente para romper a fita da vitória, receber os aplausos, erguer o troféu. E era eu que vencia nossa disputa. Não adiantava ele me lembrar o João. Chute chute chute. Um, dois, três, quatro…  Eu odiava o João, tinha vontade de matá-lo por saber que ele olhava para mim daquele jeito. Murro murro murro. Três, quatro, cinco, seis… Olhava como se.. olhava como se… Chute murro murro chute. Dez, oito, nove, dez… Como se… como se… Cuspe chute murro chute chute murro murro cuspe.  João olhava para mim como se me amasse. ¾ Espanca esse filho da puta! Esse veado escroto! Espanca com vontade, não quero ver branco da pele. É pra aprender – sua bicha! – aprender a não ficar se esfregando com homem quando careca tá passando, sacou?!  O tempo parou com esse calor, não venta e as folhas das árvores não se mexem, os pássaros não voam, as formigas não se enfileiram no cordão negro que vai da comida à toca, o céu está vazio de nuvens. Com os pés e os punhos sujos de sangue, meus amigos vão se dispersando, a raiva perdida e aplacada, as faces livres de emoções. O dia deixou de respirar, faz silêncio. João está longe. Eu fugi dele. Me livrei. Não vou ver meu tio hoje. Eu não quero. Eu não era assim. A irmã de meu amigo falou que meu signo era o da destruição, que era preciso destruir para recomeçar, que a morte estava no meu caminho. Eu não queria perder o João, não queria perder o meu tio. Há duas estátuas na praça. Não vejo mais meus amigos nem os cães que costumavam dormir ou cagar na grama, resta um vazio, um vazio enorme. Os bancos estão sujos de folhas, o lixo se amontoa fora dos cestos e o dia permanece parado e intocável como virgem. O outro, aquele que tinha fugido, surge de repente, correndo e gritando algo. Não está só, homens uniformizados correm com ele. Os pombos são egoístas. As duas estátuas nos vigiam. Então, é isto.

Foto por Ricardo Prado
Foto por Ricardo Prado

Lima Trindade (1966) é autor de Supermercado da Solidão (LGE, 2005, novela) e dos livros Todo sol mais o Espírito Santo (Ateliê Editorial, 2005, contos), Corações Blues e Serpentinas (Arte Pau Brasil, 2007, contos) e O retrato: ou um pouco de Henry James não faz mal a ninguém (P55, 2014, novela). Nelson de Oliveira o incluiu entre os mais expressivos prosadores surgidos na primeira década deste século no Brasil. Seus contos foram traduzidos para o espanhol, inglês e alemão.

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