O quarto, de Rita Santana

Nesta semana, a coluna CONTO AFORA adentra O quarto, da contista e poeta Rita Santana. Um conto que nos traz deleite e sensações de que mesmo a clausura de quatro paredes pode amanhecer em poesia.

Boa leitura!

Conto Afora2ª TEMPORADA 02

O amanhecer aqui, como em tantas partes, possui a litania dos sobreviventes, peculiar. Prosseguir não é nada fácil, não é doce, exceto aos dóceis, aos dúcteis, esses potentados herdeiros das débeis dádivas divinas, dos assomos e acintes das castas castas. Ou então, aos bem-aventurados que vieram ao mundo com as partes pudendas voltadas para as emanações lunares. De resto, só pedras, calhaus, cascalhos, mais pedras, pó e sal. Pó aos que perseguirem quaisquer saudades de um futuro que não vingou ainda. Pó àqueles que enfrentarem face a face a cara da Medusa, musa absoluta e palpável dos que morrem em horas dispersas do dia, e, durante a noite, sonham com olhos abertos e a alma dilacerada, em chagas, em chamas. Pó àqueles que, contudo, ainda sobrevivem. Pó, enfim, aos que ousam o verbo.

Estou aqui, num quarto todo limpo e luminoso. O branco grudado nas paredes sugere um ambiente de luz infinda. Todas as manhãs crepitam crepúsculos inóspitos, e o primeiro pensamento que me vem é de infelicidade. Mesmo no desespero do sempre, eu desperto e luto, luto contra esta sensação advinda de lonjuras, aonde não chego nunca, em mim talvez, ou no mundo que é mais vasto e pode sediar agruras e agouros. Minhas armas são afirmações declaradas de equidade.

As noites são abusivamente noturnas, povoadas com cenas do passado, onde os cadáveres pretéritos decidem simultaneamente a saída das tumbas, sim, pois que estão mumificados em minha memória servil. Ontem ainda, a rasga-mortalha rasgou com as asas a cortina da noite, proclamando a minha morte seguinte, aviltando desde então o meu dia vindouro. Com o seu grito agudo e oco bater intermitente de bico, todas as mulheres encarceradas desse quarto gemeram, menos eu. Só eu permaneci dormindo meu sono acordado, vigília constante que as bolinhas brancas não conseguem apagar. Criei resistências, a cada dia crio mais resistências, físicas e orgânicas. Os sobreviventes são assim, renitentes. Sim, eu tive medo, tive muito medo, mas e daí? Quis colo, senti sede e fome, senti rancores, ódio e medo, muito medo, mas e daí?

Elas são três e não têm rosto, existe apenas a fundura impenetrável dos olhos e a semelhança na ausência de peculiaridades faciais.  São iguais a mim na sorte. As roupas são as mesmas sempre: um guarda-pó branco de botões dourados, uma pétala de mussenda-rosa no bolso esquerdo e, no direito, muitas bolinhas brancas para “distrair as ideias”. As sapatilhas são forradas com lantejoulas douradas para combinar com os botões, tudo muito direitinho. O quarto é todo limpo e luminoso, o branco grudado nas paredes se estende pelas camas de cimento. As paredes são altas e lisas, nada há de crespo nesse universo, onde o total é único. Muito próxima ao teto, uma janela sempre aberta. E é para lá que temos, todas nós, os olhos voltados agora. Todas nós.

Meu pensamento vai trazer-te até aqui, onde eu me escondo e me restabeleço do mundo. Sou mulher de muitas paisagens interiores, e descrevê-las tornou-se o meu ofício. Ser flutuação de abismos e plantação de mandioca. Ser, ser e ser. Eu quis ser em demasia, quis existir demais, exagero de existência, por isso tão doída, por isso tão doida. Para que o amontoado de palavras traga-me pistas de um farelo de pensamento capaz de restituir-me à estrada, eu escrevo. Da infância, ficou aquela sensação de que o meu pensamento representava a única existência possível; o mundo só existia porque eu o pensava. Por isso me penso tanto e me perco tanto.

Por hora, deixe eu contar o que se passou comigo. Nós já éramos separação irremediável, eu e você. Estávamos delidos, afinal, não tivemos, de fato, uma história. Tivemos, isto sim, breves ensaios com cenários apropriados, marcação perfeita, e um texto aberto, aberto demais para a objetividade concreta do mundo. E aí nos perdemos nas possibilidades de leitura. Nada, de fato, dito. As entrelinhas nos esmagaram e o orgulho silenciou todo o resto. Agora, João habita em minha vida sem versos ou sonhos. Mas não esqueça, meu querido, que o instante abriga o ido e o vindouro, e que isolar o momento é negar a continuidade do Absurdo.

Era muito tarde para ter um quarto. A miséria instituída não permitia isolamentos e, com o advento-João em minha vida, o quarto surgiu como um grande susto. Era engraçado e confuso, porque eu poderia dizer “meu quarto”, mas e ele, João? O que fazer com ele? Os quartos são adeptos da antecedência, daí, a solução: tantos anos sem João ali, comigo. Era preciso ser feliz sem invasores, sem bárbaros, e o marido é sempre um bárbaro, sabia, meu querido? Pois bem, as paredes permaneceram brancas e vazias, toda a cor ficou o tempo inteiro ausente, e os meus olhos percorriam os cantos em busca das referências, das lembranças, das marcas. O desejo ficou amarrado ao pé da cama, desejo de brincar com o meu mundo de significações pessoais, fazer daquele espaço um recanto de relíquias. Eu não conseguia, os quartos são adeptos da antecedência. Tudo era o vazio das paredes. Comecei a perder o pé das coisas ali, nas paredes vazias do meu quarto. As vozes daqueles dias com João me perseguem até hoje, eram vozes que viviam voando da minha boca com asas de libélulas…

– Rogo por tua velhice João. Só para saborear a eternidade que quero contigo. Enquanto houver cio em teu sangue, perecerei de ciúmes cênicos e sofrerei com teu cinismo seco, arvorando sorrisos ante o meu cansaço.

– Madalena, eu…

– Dê-me tua mão João. Tens mãos de fêmea, meu bem, e bravores de um Deus todo maldito. Acontece, João, que tu és, em amplitude, um homem. Com mãos de fêmea, é verdade, mas um homem. A mulher que te pariu é uma serpente.

– Maldizer a minha própria mãe, Madalena! A casa…

– Falo de sapiências, João, de sapiências. João, meu bem, o zelo de tua casa me consome os anos, os sonhos, os planos. As borboletas amarelas fecham-se e não mais retornam quando pisas em casa. O ar arrasta os aromas da tua ausência. Só o teu cheiro impera. Sê maleável, João, tira o calçado, o mundo inteiro te acompanha, quero-te em poeira própria.

– Deite um pouco Madalena…

Sentia. Tudo que sentia era uma fraqueza no pensar, um tremor de ideias abalando as mãos, e o meu corpo todo parecia repetir movimentos, os dentes raspavam na boca um gosto de secura que a saliva não amaciava. Naquelas horas, uma comoção me exaltava os ânimos; buscava a pia e lavava pratos, muitos pratos, todos os pratos da casa e das casas vizinhas, pratos limpos, pratos sujos. Nunca consegui tocar nos copos, os copos abrigam bocas, impressas bocas que mangam de mim, e eu não gosto. Eu tinha medo, muito medo dos copos.

– João, meu bem, ando tendo ânsias de divindades. Não me peças para dizer além. Tem paciência, João, cedo ou tarde recupero a distinção das coisas. Tenho tido francos prazeres ao banho. O corpo adquire uma dimensão erótica que o resto do dia não me proporciona. Toda a flacidez adquire um ar possuível, tocável.

– Madalena, eu posso…

–… E eu desejo o meu próprio corpo João, tocando-o em funduras, moleiras. O espelho ainda ousa revelar indesejares. Confesso negligenciar tais pavores. O que fazer, senão aceitar a corrupção fértil do tempo?

– Isso são sandices, Madalena, sandices.

– Exegeses, preces, fragrâncias, ervas, bulas, burlescas saídas tenho buscado para escapar das lituras que riscam minha alma. Tem paciência, João, ainda aprumo os rumos, dou-te um filho.

– Há no seu olhar um ontem que não havia, telepatia que não acompanho, não aprendo, não contento. Quero olhar mais os teus dias, Madalena. Permita-me.

– João. Tuas palavras são tardias. A ambrosia tem-me deixado iludida de contentamentos, tenho frequentado o leito de Deus todas as noites e engravidado de orgasmos exuberantes. Vem daí o meu dilatar uterino progressivo, tenho parido filhos do Criador. João, meu bem, o mundo não vê, mas me sinto saciada, satisfeita, santa. Traze a cicuta João, para brindarmos a minha divindade oculta.

– Basta, Madalena, basta!

Meu querido, hoje tenho um quarto todo limpo e luminoso. Vejo o meu pensamento exposto em minhas mãos, trêmulo. E também eu tremulo, tremulo. O mundo continua sediando agruras e agouros. João perdeu-se arrastado pelo vento, pois, meu querido, o vento leva tudo, o vento é vassoura do tempo, arrasta a gente pra longe, pra terras de nunca. O amanhecer aqui, como em tanta gente, é turbilhão de pavores, mas eu luto. Luto contra o aniquilamento que nasceu comigo e que me carrega, e carrega os meus todos, minha gente, meus semblantes, minhas paisagens. Continuo grávida de Deus, por isso, ainda ouso o verbo. Em João ainda encontro respostas. Quem recebe meus preceitos e os observa é quem me ama. Quem recebe meus preceitos e os observa é quem me ama. Meu querido, quem me ama? João, o preferido entre os preferidos, quem me ama? Quem recebe os meus preceitos e os observa é quem me ama? E o quarto? Quem recebe, entre as mãos, os meus peitos, é quem me ama? Quem observa os meus defeitos e os recebe, é quem me ama? E o quarto? Lave os pratos Madalena, vá rezar. E o meu quarto? Por isso tão doída e tão doida. Por isso tão doida. Eu, Madalena, doida. Eu quis ser em demasia. Quis existir demais.

O amanhecer aqui…

SAM_8405 - CópiaRita Santana nasceu em Ilhéus em 1969. É atriz, professora e escritora. Sua estreia literária foi com Tramela (Prêmio Braskem de Cultura e Arte/ Fundação Casa de Jorge Amado, 2004, contos). Em seguida, publicou Tratado das Veias (Selo Letras da Bahia, 2006, poesia) e Alforrias (Editus/Uesc, 2012, poesia).

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