Das mães que só enfeitam as casas com angélicas nas manhãs de sábado, de Tom Correia

Chegamos ao final da 2ª temporada da coluna CONTO AFORA; mais dez contistas passaram por aqui. Para encerrar, nada mais especial do que um texto desse contista admirado e talentoso: Tom Correia.

Boa leitura, e que venha a 3ª temporada!

Conto Afora2ª TEMPORADA 02

Recomeços sempre foram sinônimo de tropeços e comigo não foi diferente. Esbarrava nas mesas, estantes e janelas abertas. Andei por algum tempo com joelheiras e aspirando aquele ar gélido das clínicas. Fazia os curativos e ouvia impaciente a conversa frívola das enfermeiras. Me desfiz de tudo que não tinha mais sentido. Celular, gente, chefe, viagens, livros impressos. Foram necessárias algumas adaptações no banheiro e na cozinha. Meu corpo também sofrera vários ajustes. Passei a andar devagar, com a cabeça baixa, imóvel. Olhos fixos-ansiosos se debatendo em órbitas sem ar, à espera de um milagre fiat-lux que poderia acontecer num segundo ou em um século. Meus movimentos tornaram-se mais comedidos, menos expansivos, e meu rosto perdera todo o leque de expressões que possuía. Passei a ser um rosto de um ator sem recursos, com apenas uma máscara. Nariz e ouvidos agora se sobressaíam depois de tanto tempo subvalorizados.

Foi uma dureza aquele período. Pelo menos os móveis e objetos tornaram-se menos hostis à minha presença. Sei que fui tropeçando cada vez menos, reinterpretando o ambiente totalmente novo ao meu redor. Certo dia percebi, com aflição e alívio, que não me lembrava mais do meu próprio rosto, por mais que o apalpasse. Um tempo virótico foi deletando todos os arquivos da minha memória e fui esquecendo os detalhes dos rostos dos meus pais, amigos, colegas de trabalho, namoradas. Depois esqueci as paisagens, as fachadas dos prédios da minha rua e da própria rua. Até que um branco devastador e solene, cheio de pontos pretos brilhantes como estrelas, parecido com um Universo ao contrário, tomou conta de tudo e as poucas imagens que ainda me restavam foram convertidas em sons.

Entenda. As pessoas pensam que nós, os ceguinhos, os coitados, somos todos bonzinhos e humildes, resignados devido à nossa condição miserável. Na cabeça delas somos inofensivos, dependentes e vulneráveis. Não fazemos mal algum. Massacram o quanto podem os que veem, os que andam, os que pensam e depois pedem desculpas não sei a quem, dando esmolas mesquinhas aos coxos, aos paralíticos, aos abilolados. O que elas não imaginam é o quanto somos felizes por não testemunharmos os males do mundo. Aqueles de sempre. (O mundo ainda tinha umas partes bonitas, mas estava sendo cada vez mais deteriorado e embrutecido). Não somos tributados pela teoria de São Tomé. Cremos justamente porque não vemos. Somos cegos, e nisso, um paradoxo: enxergamos com tanta nitidez que os olhos tornam-se mesmo coisa obsoleta, como o serviço de orientação educacional dos antigos ginásios e os próprios ginásios.

Minha depressão não fora assim tão grande como a tal da psicóloga dissera. Eu só estava meio cansado de não fazer nada e consegui uma colocação numa dessas falsas empresas filantrópicas, criadas apenas para não pagarem os impostos. Eles haviam sido premiados, dobrando o número de doações recebidas, mas o cegueta da história era eu. Trabalhava no escritório tirando xerox e carimbando papéis inúteis. Eu não via nada de bom naquelas tarefas até descobrir que, na hora do almoço, eu poderia furtar algumas notas de uma gaveta. Ninguém suspeitou de mim, afinal eu era bonzinho. Bonzinho banana nenhuma! Eu sabia era roubar, igual a um meia que sabe o momento certo do drible, do passe, do lançamento: uma notinha de cem hoje e, quando todos esqueciam, outra notinha. Eu as conhecia pelo cheiro. As de maior valor não têm cheiro de pele suada, circulam pouco; já as notas de cinco e dez são sempre pegajosas, ensebadas. Isso durou meses sem que eles trancassem a gaveta ou planejassem um flagrante. Eu, o cego, comecei a suspeitar de algo ainda mais sórdido. Bingo. A socialite voluntária, responsável pelo dinheiro, também passara a se aproveitar dos furtos. Para cada notinha de cem que eu pegava, ela guardava duas para si. Foi assim até um novo gerente financeiro exigir a instalação de microcâmeras em todo canto. O lugar era sem fins lucrativos mas possuía um gerente financeiro. O grande irmão onividente chegara para dar as cartas e tratei de dar o fora antes que eu fosse desmascarado. Eu não queria passar pelo mesmo vexame da socialite. Com o dinheiro comprei uma TV nova, cinquenta e duas polegadas, tela plana. O som é uma maravilha.

Eu perdera a visão, mas logo percebi que a força no meio das pernas aumentara. Uma compensação, talvez. Passei a sentir grande atração pelas meninas mais novas que me ajudavam nas ruas. A minha limitação sempre merece confiança e eu me aproveitava disso. Passava a mão nos corpinhos magros, trêmulos, perfumados com loções ainda meio infantis. Pedia para elas alisarem um certo ponto latejante e, para minha surpresa, algumas pediam para ver e tocar. Riam, nervosas.

Muitas se assustavam, desapareciam. Das muitas que conheci, apenas uma delas ficou. Harena, dezesseis anos. Pelo menos ela dizia ter essa idade. Tinha um cheiro de menina abandonando a meninice com urgência. Corpo sólido de quase mulher que passei a desejar e desejar cada vez mais com o falo petrificado. Sobre seus pais nunca perguntei, mas acredito que não paravam em casa, pois escutei algo sobre congressos, seminários, coisas do tipo. Ela chegava por volta das onze, ficava até as duas e meia. Depois ia pro curso de inglês, a depender do dia. Aos sábados ela demorava mais, chegava logo pela manhã  iluminando meu dia inteiro. Só voltava para casa porque havia uma avó para cuidar, não tenho certeza. Ninguém dizia nada. Eu era um ceguinho de aparência digna. Pensavam que a garota era uma sobrinha ajudando o pobre tio inválido. Aos poucos, fui aumentando o nível da ousadia, eu não queria assustá-la. Harena cada vez mais íntima, estimulante. Foram vários dias até ela me sentir por inteiro. Antes brincamos muito com mel, iogurte, sorvete, keep cooler, queijo derretido, mangas-rosas e caquis. Quando não estávamos juntos, eu não parava em casa, tirando vantagem de tudo que podia. Já não pagava mais cinema, ônibus executivo, lanche, museu, ferry-boat, couvert. Até motel eu consegui uma vez. Meus óculos escuros e bengala viraram uma boca-livre vitalícia.

Harena tornou-se um hábito para mim. Um cão-guia sempre alerta. Seu movimento e presença irradiavam uma luz invisível, envolvendo minha íris com um halo fugaz e pulsante. Ela era a única que não me despertava a autopiedade nociva comum nos casos iguais ao meu. Quando eu pedia, ela me dava banho com toda dedicação, sem pedir nada em troca. Eu me submetia a ela, somente a ela, para tomar aqueles banhos magníficos. E não pode haver submissão maior do que a de um homem cego, molhado e nu diante de uma menina. Só não era perfeito porque ela não podia me carregar até a cama enrolado na toalha, como minha mãe fazia. Meus pés pingando sobre o piso limpo e encerado. A felicidade do mundo todo naquele ritual das cinco e meia, antes de começar o Sítio e ao som de Marvin Gaye. A vida agora era um breu: Tia Nastácia morrera, eu não conseguia achar meus álbuns de Marvin e minha mãe já estava muito longe, impossibilitada de sair para comprar angélicas e enfeitar novamente todas as casas onde vivemos. Harena ainda lia os jornais para mim. Eu explicava tudo com a paciência que os professores das escolas públicas não têm mais (O que é kamikaze? E globalização? Quem é Collor? E lua fora de curso? Quem é esse cara, Dow Jones?). Um dia, ela apareceu com novidades, fazendo um barulhinho de drágeas presas no alumínio.

O que é isso?

Pílulas.

Anticoncepcional engorda. Você me disse que tem pavor de ficar gordinha. Mudou de ideia?

Mudei. Eu agora quero sentir seu visgo aqui dentro.

Sério!?

Muito sério.

Então, vem!

Passei a chover todos os dias dentro dela, paramos com o interruptus. Harena aprendia rápido, estava na fase da felação. Eu controlava os remédios, anotava os dias de sua menstruação. Não queria surpresas nem complicações paternas. Outro dia fomos a uma palestra numa biblioteca. Senti que o auditório era espaçoso e abafado, cheirando a copo molhado emborcado numa bandeja. O palestrante fazia a linha resolva-tudo-de-errado-em-sua-vida. As pessoas adoram esses crápulas. Harena parecia gostar, mas ela estava na idade para gostar de quase tudo. No meio de uma dinâmica, levantei e saí. Eu tinha regalias: sem usar crachá de visitante; sem dar explicações; sem pagar a entrada. Voltamos para casa. Harena não subiu. Beijou minha mão e foi embora. Pude sentir, atrás de mim, o olhar malicioso do porteiro. Depois dos policiais eles são sempre os primeiros a desconfiar das coisas, só que não são pagos para isso. Daquele dia em diante, passei a ignorá-lo. Ainda mais.

Eu não conseguia aprender o braille e isso me deixava nervoso. As pontas dos meus dedos pareciam incapazes de ler. As professoras também não me agradavam, todas mofadas por dentro. Além disso, eu também sofria muito quando percebia estar sendo observado em silêncio por olhos normais. Nós, os cegos, ficamos muito perturbados com um silêncio que identificamos bem. Um silêncio piedoso, malévolo. Deixei o instituto e entrei numa oficina de fotografia para deficientes visuais. O grupo era pequeno, mas não me enturmei com ninguém. O professor amava o que fazia, eu sentia isso. Fomos para as praças tirar fotos utilizando os sons como referencial. Gastamos muito filme e no final foi montada uma exposição. Apareceu imprensa, primeira dama, secretários e seus aspones. O professor foi homenageado, o que achei muito justo. E nós, os ceguinhos fodidos e talentosos, fomos elogiados, publicaram nossos trabalhos. Com a fotografia percebi que meu mundo se transformara num imenso quarto escuro, sem luz de segurança e onde eu revelava filmes sem imagem alguma. Pedi ao professor para ele separar o que fiz de melhor e dei tudo de presente para o meu cão-guia.

Nas ruas eu continuava a atrair as adolescentes. Primeiro sentiam pena de mim e, inábeis em lidar comigo, falavam bem alto no meu ouvido numa tentativa desesperada de me fazer voltar a ver novamente. Depois, riam muito com as minhas piadas de cego. Quando eu as arrastava para alguma praça menos iluminada (no meu caso, qualquer praça) e as tocava, quase não havia resistência e eu ia até onde elas permitiam. Uma delas foi Caroline. Havia deixado o hímen para trás aos treze e consentiu meu dedo médio trabalhar mais fundo. Marcamos para outro dia, mas dei meu telefone com número errado. Harena podia desconfiar.

Entenda. Eu podia rir alto em velório, chutar cachorro morto, envenenar o prefeito, parar o trânsito às seis da tarde, mostrar a bunda na fila do banco, mandar o pastor à puta que pariu, ser arrogante com vigilantes, guardas, flanelinhas, fazer chantagem para obter o que bem quisesse, xingar a mãe do gerente, votar na direita e na esquerda numa mesma eleição, pedir favores, dinheiro, empréstimos, passar o calote, manipular as pessoas. Por tudo isso, eu sentia uma imensa alegria me encharcando por dentro, como Harena ficava quando eu a penetrava com força e bondade. Eu agora era um homem poderoso, havia deixado de ser comum, nem fila eu pegava mais: todos me respeitavam. Eu era um ceguinho bom, um quase-deus. Eu podia tudo.

Este conto integra o livro Memorial dos medíocres (Editora Casa da Palavra/ Prêmio Braskem de Literatura, 2002, contos).

TOM CORREIA - FOTO DE ARTHUR CARIA
                          Foto: Arthur Caria

Tom Correia nasceu em Salvador. Jornalista, publicou Sob um céu de gris profundo (Casarão do Verbo, 2011, contos) e participou das coletâneas As baianas (Casarão do Verbo, 2012, contos) e 82: Uma copa, quinze histórias (Casarão do Verbo, 2013, contos). Integrou ainda a antologia Wir sind bereit (2013), a convite da editora alemã Lettrétage. Em 2014, fez parte do 2º volume de Autores baianos: um panorama e, em 2015, além de ter participado da coletânea Outro livro na estante (Editora Mondrongo, 2015, contos), deve lançar Ladeiras, vielas & farrapos. Publica no blog: http://acavernadoescriba.wordpress.com.

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