A balada do café triste, de Carson McCullers

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Não é fácil descrever a obra de uma escritora que fez literatura com tanta intensidade. Carson McCullers, nascida em 1917 na Geórgia, estadunidense, morreu aos 50 e deixou, dentre outros, seu mais famoso trabalho, O coração é um caçador solitário. No entanto, o assunto aqui é outra obra prima da autora. A balada do café triste (Círculo do Livro, 1987, contos), já reeditado em português várias vezes, é um pequeno volume de contos cheio de emoção, dor e aquela insondável gama de traços que nos inquietam e nos fazem delirar com a  boa literatura. O texto que dá nome ao volume, bem verdade, é uma novela – com tudo que define o gênero –,  mas, seguido dele, há mais meia dúzia de contos primorosos, dotados de sutileza e concisão de fazerem inveja. Na novela A balada…:

A cidade estava cheia de expectativa, e o rosto das pessoas era estranho à luz que morria. A escuridão foi caindo mansamente. Por um momento, o céu ganhou uma tonalidade amarelo-clara contra as linhas retas e escuras da igreja, depois foi se apagando lentamente, e a escuridão transformou-se em noite.

E também, momentos de pura poesia:

O canto dos galos soou sobre os campos, fazendo brotar sombras azuis na terra.

Carson Mccullers escolhe falar de amor, ou de como se vive o amor na trama, mas não como coisa gratuita e fácil. Seus personagens reverberam a complexidade do amor e de demais sentimentos, saudade, dor de um tempo que se fora, de forma pouco vasculhada na literatura, como no conto Uma árvore, uma rocha, uma nuvem:

– A verdade é que o amor é uma coisa estranha. No começo, eu só pensava em tê-la de volta. Era uma espécie de mania. Mas depois o tempo foi passando, e quando eu tentava me lembrar dela… sabe o que acontecia?

– Não – o menino disse.

– Quando eu caía na cama e tentava pensar nela, minha cabeça ficava vazia. Eu não conseguia vê-la. Então pegava as fotografias dela e as olhava. Mas não adiantava nada. Um vazio. Você consegue imaginar isso?

E ainda, no mesmo conto:

– Qualquer coisa. Eu dava voltas à toa e nunca sabia como nem quando ia me lembrar dela. Tem gente que acha que você pode se defender disso. Mas a lembrança não vem direto a um homem, vem por esquinas, dando voltas, pelos lados. Eu fiquei à mercê de tudo o que via e ouvia. De repente, em vez de ser eu quem atravessava o país para encontrá-la, era ela quem me perseguia, dentro da minha própria alma. Ela me perseguindo, veja só! E na minha própria alma.

Carson McCullers foi uma escritora destemida; falou do ser humano como fazem aqueles para quem tudo já está perdido, ou seja, com liberdade. Daí nascem as joias literárias, livres de qualquer necessidade de moral ou de ethos. Foi disso que falou Caio Fernando Abreu, tradutor para a edição de 1987:

A srta. McCullers e talvez o sr. Faulkner são os únicos escritores depois da morte de D. H. Lawrence com uma sensibilidade poética original. Eu prefiro a srta. McCullers ao sr. Faulkner, porque ela escreve com mais clareza, e prefiro-a a D. H. Lawrence porque ela não tem mensagem.

Carson McCullers, repito, uma escritora destemida.

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