Trama negra, de João Anzanello Carrascoza

Estamos começando a 3ª temporada da coluna CONTO AFORA e, para isso, recebemos a visita de um contista consagrado nacionalmente, premiado e muito talentoso. João Anzanello Carrascoza é quem inicia essa temporada com uma bela e exitosa experimentação. O conto que ele traz não está cheio de personagens, ou com um arco dramático vultoso, tampouco encerra em si uma epifania; mas, para nossa grata surpresa,  quem fala no conto é a própria trama. Para o leitor, uma experiência insólita, sem dúvida.

Boa leitura!

Conto Afora 3ª TEMPORADA

Sou uma trama e procuro uma história onde possa me esconder, ou me revelar. Trago em meu sangue saberes ancestrais. Sei o que dizem as sombras, quando se encontram – eu nasci delas. Sei, por exemplo, o que diz a sombra de um homem no chão do quarto pela manhã para a sombra da noite debaixo da cama. Mas sou ignorante em luz, não sei distinguir o sol (de um dia) de outro sol, claridade para mim é sempre claridade, rosto que não sei decifrar.

Ando à deriva, livre de qualquer plano: às vezes, cruzo com outra trama e caminhamos um trecho juntas, de mãos dadas ou paralelas; mas há casos de total incompatibilidade, e, então, uma das duas altera seu rumo para evitar o conflito, embora o conflito seja inevitável – há quem diga que uma trama só é trama se tiver um conflito, nem que seja consigo mesma.

Repito, eu procuro uma história onde possa me esconder, ou me revelar – sem muita esperança, meu desejo no fundo é nada encontrar. Já atravessei muitas histórias, e, em todas, pude desfrutar de uma certa vida – mas o que me fascina mesmo é a não-história. Eu anseio, com todos os fios da minha escuridão, que nenhum escritor me capture – meu destino é flanar pelos teares do nada.

Foto Juliana Monteiro
                 Foto: Juliana Monteiro

João Anzanello Carrascoza é natural de Cravinhos-SP. Escritor e professor universitário, estreou com o livro Hotel Solidão (1994), Prêmio do Concurso Nacional de Contos do Paraná. Recebeu também o prêmio Jabuti (CBL), Radio France Internationale (RFI), Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) e Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Publicou os romances Caderno de um ausente e Aos 7 e aos 40 e várias coletâneas de contos, como O volume do silêncio, Amores mínimos e Aquela água toda.

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