Breve lembrança da câmara de gás, de Flamarion Silva

Um texto enxuto. Um sarcasmo sutil e a banalidade amedrontadora que nos assola e condena todos os dias. É assim o conto de Flamarion Silva, um grande escritor .

Boa leitura!

Conto Afora 3ª TEMPORADAAcordei acometido por repentina tosse. Repentina naquele momento, pois ela me castigava fazia mais de um mês. O gosto adocicado na boca me assustou. Sangue.

– Tossi sangue, disse à minha mulher.

– Sangue?!

– Sim. Sangue.

Escarrei outras vezes, para ver se sangrava, mas nada.

– Deve ter sido um vaso que se rompeu, ela disse. Venha deitar.

– Não, já é hora de ir para o trabalho.

Pegar ônibus no fim de linha é melhor. Perto de casa ele passa muito cheio. Por isso, fui andando até o terminal. No meio do caminho, a tosse voltou, incontrolável, molhada. Cuspi para ver se tinha sangue. Por um momento imaginei ver uma bolota vermelha, mas logo constatei que o cuspe era branco e ralo. Outras vezes cuspi, mas o sangue tinha ido embora.

Na estação, a fila enorme e confusa. Posicionei-me atrás de uma mulher, que conhecia de vista e de rabo. Impossível conhecê-la de outro jeito. Era horrível de cara, salvava-a o traseiro, que uma vez roçou-se em mim e pude sentir que era firme e quente. O sangue subiu-me à cabeça.

O ônibus chegou, mas não teve jeito, quando cruzei a borboleta, todos os bancos já ocupados. Posicionei-me na frente, pois logo o carro ficaria cheio. Para nosso azar, começou a chover.

– Fecha a janela! – gritou um passageiro que recebeu uns pingos de chuva.

– Tem que deixar um pouco aberta.

– Quer que a gente morra sufocado?

– Ainda mais a doença solando!

– O ar tem de circular.

– Mas não posso me molhar, posso? Respondeu o homem que recebera os pingos de chuva.

– Deixa a janela aberta, porra!

O ônibus começou a inchar. Muitos braços levantados, como se estivéssemos sendo vistoriados pela polícia. O ar começou a faltar. Todos já suando; alguns, suores fétidos; outros, perfume forte e barato. E eu no meu canto, sufocando, oprimindo o peito para não tossir perto de alguém. Segurei o mais que pude, até que não agüentei. Um jato vermelho saiu de minha boca e foi bater nos cabelos da mulher grávida sentada na cadeira do canto.

– Ai, que nojo! Ela disse, pegando os cabelos pelas pontas, afastando-os de si.

Eu nem pude dizer nada, pedir desculpa. Só queria ar livre para tossir com liberdade. Mas o trânsito estava parado, chovia lá fora e todas as janelas estavam fechadas.

 Flamarion Silva é escritor, natural de Barcelos do Sul, na Baía de Camamu. É graduadoFOTO DE FLAMARION, PARA CONTO AFORA em Letras Vernáculas (UFBA), reside em Salvador. Estreou com o livro O rato do capitão (Selo Bahia, 2006, contos). Publicou O pescador de almas (Escrituras, 2010, novela) – finalista do prêmio SESC de Literatura 2007 – com o apoio da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, através da Fundação Pedro Calmon (FPC).

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