Seis minicontos de Wilson Gorj

Nesta semana a coluna CONTO AFORA resolve dar vez ao miniconto. Poucas palavras e, na proporção inversa, muita carga semântica. Trouxemos seis minicontos do escritor e editor Wilson Gorj, um autor dedicadíssimo ao gênero. São micronarrativas cheias de tensão e beleza. Experimentem.

Boa leitura!

Conto Afora 3ª TEMPORADA

Encontro

Saiu de casa e caminhou até o ponto de ônibus. A condução o levou para o aeroporto. Em pouco tempo, o embarque: já estava num avião.

Horas depois, desceu em outro país. E apanhou um táxi. “À estação, por favor”.

Mal chegou ao local, entrou num trem com destino a uma cidade litorânea.

A tarde ia morrendo, enquanto ele pedalava uma bicicleta alugada.

Avistado o cais, pulou do selim e se pôs a correr. Vã corrida: chegara atrasado. Já ia longe o seu navio…

Do convés, alguém lhe acenava.

***

Partida

Dali a um mês iria embora. Por conta disso, só falava do trem. A paisagem vista do vagão. Que o trem era isso e aquilo. Trem de dia, trem de noite. Trem, único assunto. Chegou então o dia da partida; a passagem marcada para as 18h. Nesse dia, porém, não falou do trem. Acompanhado da mãe, rumaram calados para a estação. O trem apitou não muito longe e a locomotiva logo apareceu dobrando a curva dos trilhos. Olharam-se, mãe e filho. O abraço da despedida. O trem chegando e o abraço ficando cada vez mais apertado. O trem, o abraço. Trem, abraço. Trem-abraço… “Mãe” , ele sussurrou, agarrando-se a ela com súbita força. “Por favor” – o trem parando fazia um barulho ensurdecedor – “não me deixe partir”.

***

De luxo

Despindo-lhe da calcinha, descobriu a tatuagem.

– Não me admira que seja tão cara a sua companhia. Você é uma mulher “cinco estrelas”.

– Conte direito, meu bem. São apenas três.

– E os seus olhos?

***

O baile (ou Como esmagar um coração)

Ele mal acreditou quando ela aceitou dançar aquela balada romântica. Rostos e corpos colados; o perfume dos cabelos dela, o calor do pescoço, aquela orelha macia a poucos milímetros de sua boca… E, de repente, as palavras sussurradas: “Sabe aquele amigo que está com você?” , ela perguntou, afastando-se um pouco. “O que é que tem?” E ela, com a delicadeza de um mamute: “Ele tem namorada?”.

***

Miniconto de Natal

Na praça, o Bom Velhinho pergunta para mais uma criança: “O que você quer ganhar de Natal?”. E o menino: “Um Papai Noel que seja de verdade”. “E eu não sou o próprio?” “Não, não é. Você só dá balas e pirulitos. O de verdade iria me dar o que eu quero?” “E o que você quer?” “O meu pai de volta”. “E para onde ele foi? Quem sabe eu possa ir buscá-lo…”. “Ele foi pra lá” – o dedo do garoto apontava um muro caiado de branco, atrás do qual despontam cruzes e anjos.

Papai Noel teve um dia triste naquela véspera de Natal.

***

O caixão

Noé foi o primeiro a padecer. Depois, morreram a esposa, os filhos, as noras e os netos. Por fim, todos os animais da arca sucumbiram à peste. Menos um – a ave que voou à procura de terra firme.

No convés, apenas um vulto transitava da popa à proa. No céu, um ponto negro se aproximava: era o corvo a regressar de sua viagem. Trazia no bico um ramo seco. Pousou no ombro de Caronte.

gorj-face2Wilson Gorj é editor e escritor, nasceu em Aparecida, SP. Além de participações em antologias, revistas e jornais, tem 3 livros publicados: Sem contos longos (Edição do autor, 2007, contos), Prometo ser breve (Multifoco, 2010, contos) e Histórias para ninar dragões (Multifoco, 2012, contos). É também sócio-fundador da Editora Penalux. Contato: gorj@editorapenalux.com.br.

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