Organismos, de Georgio Rios

Um texto salpicado de memória. Há uma sugestão silenciosa de esquecimento no conto que segue (Juan Rulfo o assiste), mas o contista Georgio Rios – que sendo poeta escreve com ritmo – prefere revirar a emoção, a minha e a sua.

Sem dúvida, um dos melhores contos que figuraram a coluna CONTO AFORA.

Boa leitura.

Conto Afora 3ª TEMPORADA

Lembro que no dia em que tia Júlia faleceu, o corpo ainda quente, e de repente desabou o muro dos fundos; grande estrondo. Por ocasião do enterro, ninguém deu muita importância. Depois passou o tempo e ninguém se lembrou de por o muro de pé novamente. A gente relaxa quando não faz as coisas logo e acaba deixando um sem fim de coisas por fazer.

Morreu Helenita. O preto voltou a cobrir a casa coisa de três anos depois da morte de tia Júlia. Não sei precisar o tempo exato. Quando se convive muito de perto com a dama Morte as lembranças se diluem num sem fim de caminhos.

Lembro-me apenas de ter que lidar com a imagem constrangedora dos ossos de tia Júlia empilhados ao lado do monte de terra no cemitério. Coisa horrível! Não bastasse todo o desgaste do velório, todos aqueles pêsames, ouvidos reiteradamente, a falta de sentimentos do pessoal da funerária ao jogar o corpo de Helenita na cama por não haver cabido no primeiro caixão que trouxeram. Tantos afetos agora duros no cálcio mal limpo daqueles ossos empilhados. O céu estava cinza escuro e sons de trovão iam se aproximando à medida que a noite soltava seus laços negros sobre a cidade. A chuva caiu. E caiu a cobertura da extensão da cozinha, onde ficava a mesa externa. Ali se tomavam os cafés feitos por Vô Almerinda. Saudade dela. Também nessa ocasião despencou a chaminé do fogão de lenha. Ritinha se acostumou com o fogão a gás.

Aos poucos, o colorido das roupas reaparecia, o silêncio do café já permitia alguns comentários, risadas eram ouvidas pelos cômodos da casa. Só tia Nélida ainda estava incrustada de negro. Nunca negou luto; acho até que veio à Terra só para isso. Seu baú, sim, seu baú. Ao invés de guarda-roupa, closet, cômoda, ela tinha um baú. Composto por camadas negras de brim, cetim e seda. Cada ocasião um tecido.

Na sala tem uma foto, a primeira colorida que a família fez. Tia Nélida, desde ali, já aparece de preto, por Vô Lupicínio. O velhinho foi valente. Na guerra, suportou o frio da Itália; na cama, já em convalescença, resistiu ao pulmão dilacerado, lentamente, por conta das adversidades, da vida e do fumo, até que seu coração num extremo ato de piedade resignou-se a não mais bater. Morreu vô Lupo, como chamávamos. Caiu o tampo do tanque do fundo, onde bombeávamos a água que abastecia a caixa. Naquela época, a água só aparecia na cidade coisa de uma vez por semana, ou quando a calha da bica jorrava para dentro do tanque. Por um milagre Joanita não caiu lá dentro. Aprendia a andar, então, e deixaram a porta do quintal aberta. Todos estavam tristes e quietos, exceto Joana, que só queria por uma perna adiante da outra e andar, conquistar o mundo a cada passo.

Seguiu o destino Corina. Morreu de batida de carro. Nova ainda. Por conta do desmoronamento do telhado da copa e de parte da sala, não pudemos fazer o velório na casa;  tivemos que fazer diretamente na capelinha do cemitério. Deu agonia como as beatas, na hora de encomendar o corpo, tentavam botar a alma de Corina no céu a qualquer custo, vencer os guardiões do céu pelo cansaço. Sei que Corina foi boa pessoa, mas aquele exagero de rezas só servia para deixar os familiares ainda mais tristes com a já triste situação do acidente. Ainda consegui ouvir o coveiro resmungar: Vá pra o diabo com um negócio destes, comadre Helena, quer subir a alma da pobre no muque. E seguiu batendo o cabo da pá nos paralelepípedos da porta da capelinha.

O tempo passou. Aqui, na cama do hospital, estou a desenhar estas lembranças, ora nítidas, ora fugidias, enquanto um ser invisível, lento e impiedoso, me consome por dentro.  Duas semanas no máximo, foi o que me deu Dr. Euclides, médico que sempre acompanhou a família. Pediu-me pra morrer em casa. Não posso voltar, sei que duas semanas foi um prazo generoso. A parede da frente da casa eu sei que cai com qualquer vento mais forte, como me disse Nequinha na visita de hoje cedo. Não posso voltar. Não há mais casa. Foi sumindo com cada habitante, lentamente. Quem partia levava um pedaço. Deve cair entre hoje à noite ou amanhã, no máximo. Posso sentir. É das poucas certezas que me restam.

_67A2060 (1)Georgio Rios publicou Depois da Chuva (Multifoco, 2009, poesia) Veredas de Sarépta (2010), Modus Operandi (2010), e Ficções ao mar (P55, 2012, contos). Participou das coletâneas: Sangue Novo: 21 poetas baianos do séc. XXI (Escrituras, 2011, poesia). Outro livro na estante (Mondrongo, 2015, contos) . É formado em Letras com Espanhol pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS).

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