Identidade, de Claudia Manzolillo

Nesta semana, a coluna CONTO AFORA traz um texto de Cláudia Manzolillo. Palavras breves narrando que nem tudo é cinza e que, enquanto houver sede, haverá busca.

Boa leitura.

Conto Afora 3ª TEMPORADA

Rosas amarelas, era isso o que ela queria. Dúzias delas para espalhar pelos quatro cantos da casa, do mundo. Queria respirar perfumes exóticos e banhar-se em águas coloridas. Queria vida. Buscava no outro o que nela minguava. Colhia cada gota de chuva como se fosse um licor e embebedava-se dele. Passos de bailarina se perderam no tempo. A marcha era outra, um pouco dura, um pouco claudicante. Mas caminhava, sem parar. Entrava dia e caía noite. Seus olhos miravam à frente procurando a vida que viria. Ah, sem dúvida, viria. A vida apaziguada, ela queria agora uma vida apaziguada. Com os medos resolvidos e as dores anestesiadas ela podia dizer-se: estou pronta para a terceira vida em mim.  São tantas e foram tantas as mulheres que viveram nela. Descascava-se agora como fizera com a cebola graúda que pusera no arroz. Chorava. Tirar as cascas sempre pressupõe dor. Em silêncio o fio amargo corria pelos olhos cerrados. Ela, que era doce, amargara. E não se dera conta quanto. Pensava nos enganos e nas noites escuras. Só e sombra. Era como um ponto final na luta contra o que já sabia perdido. As cascas no lixo existencial, as cascas apodreceriam. O miolo ah! Esse estava vivo ainda e palpitava. Ela pensava no que fazer com a vida recolhida. E retirou-se em seu castelo. Como fizera em criança, se olhava no espelho do móvel antigo. Via tantas faces. Brincava com as faces diversas. Olhava para os espelhos que a multiplicavam e escolhia a face preferida. Qual seria a dela de fato? A do espelho multifacetado? A da foto? A do quadro? Ganhara outra face. E as demais subsistiam ainda, ainda?!

11056629_10207707697679918_6082104026663112797_n - CópiaCláudia Manzolillo nasceu no Rio de Janeiro, é licenciada em Letras (Português-Literaturas) pela UFRJ, especialista em Educação pela Fahupe, mestre em Literatura Brasileira, pela UFRJ, com dissertação intitulada Perfis femininos na ficção de Lygia Fagundes Telles. Professora de Língua e Literatura do magistério estadual e federal, lecionou na Escola Normal Carmela Dutra, no Colégio Estadual Visconde de Cairu e no Colégio Pedro II. Revisora de textos. Escreve contos, poemas e ensaios. Posta seus textos no Facebook. É autora de A dona das palavras (Penalux, 2015, contos), seu primeiro livro de contos.

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2 comentários sobre “Identidade, de Claudia Manzolillo

  1. Gosto deste tipo de questionamento. Claudia não entrega respostas, faz das perguntas o estímulo à reflexão : “Olhava para os espelhos que a multiplicavam e escolhia a face preferida. Qual seria a dela de fato?”
    E assim, outros textos deste livro de contos poderão ser lidos.
    Grande beijo!
    Eliana Pichinine

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