Linha 1108 (Resgate / Lapa), de Gustavo Rios

Por dentro de um flash cotidiano há um oceano em tempestade. É o que o escritor Gustavo Rios nos sugere com seu texto esta semana na coluna CONTO AFORA.

Boa Leitura.

Conto Afora 3ª TEMPORADA

Estou num ônibus lotado. Calor. Tem um pivete vendendo balas a um real. Do meu lado uma garota lê o Cioran. Lá fora, outdoors tentam me convencer que minha vida vale a pena. Se eu tiver um tênis Nike e camisas Lacoste. O motorista não tá nem aí. E acelera. O ruído constante do motor incomoda. Aumenta o calor. Quero chegar em casa. Minha camisa ensopada de suor, tô um caco. Existem frases surgindo em minha cabeça agora. Mais um livro que vai morrer. Não tenho como anotar as frases. O ônibus chacoalha como numa correnteza. Somos náufragos. O motorista acelera. Pela janela leio algo sobre a felicidade num clube de veraneio. Um outdoor. São doze prestações e “voilá!”, seja feliz! Simples assim. Seja feliz. Pague as prestações e afogue-se na piscina do clube. Encha o cu de cerveja. No meu rosto acho que tem um riso. Meio insano, é verdade. Penso em drinks exóticos. E garotas dançando Ula-Ula. Tem lá no clube. É só pagar. O pivete vende balas, aceita vale. Pede pra eu comprar só para ajudar. Eu não tenho grana. Alguém lá atrás manda o pivete ir estudar. Que aquilo não é vida. A garota do livro de Cioran parece em transe. Vejo que o pivete tá com fome. Bastante fraco. Eu ainda tô suado. O motorista continua firme. Ultrapassando os sinais vermelhos. Choveu na cidade hoje. E chove agora. Pequenas poças de água no chão refletem a felicidade dos outdoors. A felicidade do tênis Nike. E das camisas Lacoste. E do clube com as garotas do Ula-Ula. Simples assim. É só pagar. O ônibus balança. Sinto cansaço. O motorista acelera. A garota continua a ler. Ela chora agora. Um choro convulsivo. Estranho. Somos todos náufragos. O pivete vende balas. Aceita vale. Eu tô sonhando com tênis Nike. E com as garotas do Ula-Ula. A garota ainda tá chorando. Ninguém ouve. Mais um sinal vermelho. A chuva aumenta. Os vidros embaçam. Quem quer comprar balas. O ruído do motor. Minha cabeça roda um pouco. Cansaço. Mais um sinal vermelho. O pivete tá com fome, eu sei, eu sei, ele vai desmaiar. Ele não tá aguentando. A garota arranca as páginas do livro. O motorista acelera. O ônibus faz barulho. As pernas do pivete vacilam. Isso foi numa curva. Mais um sinal vermelho, tênis Nike, Ula-Ula, camisas Lacoste, Cioran. O pivete cai no chão, olhos fechados, a garota agora come as páginas do livro, o motorista acelera, o pivete tá com fome, a garota mastiga as páginas do livro, eu quero ser feliz, o motorista sonha com sinais verdes, o pivete no chão e as balas espalhadas, a garota devorando o livro com lágrimas nos olhos e a boca cheia, na cabeça do motorista sinais verdes, na minha tênis Nike, camisas Lacoste e Ula-Ula, a garota agora mastiga a capa do livro, o pivete no chão tá desmaiado, sinais verdes e Ula-Ula e Cioran e balas e poças de água e outdoors e felicidade e camisas Lacoste e o motor e tênis Nike e livros sendo mastigados e engolidos e suor e chuva e vidros embaçados. Tudo isso enquanto alguém lá atrás batuca, sossegadamente, um desses pagodes de verão.

foto - CópiaGustavo Rios é baiano e mora em Salvador. Autor de O Amor é uma coisa feia (7Letras, 2007, contos), também participou da coletânea Tempo bom (Iluminuras, 2010, contos) e da edição impressa da revista Confraria (2007). Publicou Rapsódia bruta (Virtual Books, 2011, poesia) além de ter participado da coletânea As baianas (Casarão do Verbo, 2012, contos). Seu livro mais recente é Allen mora no térreo, um projeto da Mariposa Cartonera, de Recife. O conto acima é inédito. 

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