Micronarrativas de Luciana Setúbal

Esta semana a escritora Luciana Setúbal visita a coluna CONTO AFORA  com duas micronarrativas sensíveis e intimistas. Pequenas joias.

Boa leitura!

Conto Afora 3ª TEMPORADA

This Is The End?

“Despedidas não duram muito, não é, Clarissa?” E Clarissa abriu a janela, o pesado do céu desabando em seus olhos. Não havia dessas frases em sua vida, ela que nunca se despedira de alguém, como se fazia isso? O silêncio piscou miúdo na garganta, embolou com uma coisa forte dentro dela. Clarissa se virou, encarou o cachorro – que esperava a resposta das respostas, afinal, humanos sabem em excesso – “não sei, talvez lembranças permaneçam mais”. E pulou a janela, com a mansidão típica que define tanto os decididos quanto os conformados. E claro, também os que acreditam que um fim nunca é o fim.

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Ao passar pela portaria, a atenção pesca algo: o porteiro lê robusto livro. O que seria? Bíblia, Código da Vinci, O menino do pijama listrado? O olho se alonga. Irmãos Karamazóv, Dostoiévski. Uau! A pergunta óbvia entre amantes de livros: tá gostando? Afirma, sim, mostra o pouco que falta para acabar. Questiono, e me sinto IBGE analisando hábitos culturais do brasileiro: como faz para ler, retira, compra, pega livros emprestados? Carinho e orgulho na mão que alisa a capa antes de mandar bala na resposta: “Esse eu comprei, mas a primeira vez que eu li era emprestado.” Desço as escadas com o peso da ignorância ao quadrado nos ombros. Leitores disputam em silêncio a corrida de quem leu mais ou melhor, e dos russos eu só dominava A dama do cachorrinho, Tchékhov em gotas. Vergonha imensa, ainda mais eu querendo ganhar a vida como amante da escrita. Chego à rua, e o sol perdido em camadas de cinza ressurge, aquecendo a grandeza do acontecido: havia perdido uma etapa da maratona pelo cálice sagrado da alta literatura, mas o porteiro lia, e lia Dostoiévski. A manhã estava ganha.

6tag-17950431-1048115366746047409_17950431Luciana Setúbal é gaúcha e reside em São Paulo/SP há quase sete anos. Redatora publicitária, revisora e professora, seus contos e crônicas foram publicados em diversas coletâneas. Lançou recentemente Onde começa o que sempre acaba (Penalux, 2015, contos), versando sobre a finitude do amor. Bloga no lsetubal.wordpress.com, e seus contos, crônicas e poesias também podem ser conferidos em coletivoclaraboia.wordpress.com.

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