O aborto do sonho americano

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Esta não é apenas mais uma resenha que escrevo, porque não é fácil falar da obra de John Fante. Pelo menos para mim que sou seu leitor voraz e recorrente. Não que sua literatura seja para iniciados ou qualquer inferência boba do tipo. Ao contrário, Fante alcança absolutamente todas as faixas de leitores, o que por si é um verdadeiro êxito para qualquer escritor. Assim acontece com sua contística primorosa e cheia de vigor, assim acontece com seu mais famoso romance, Pergunte ao pó, ou com duas novelas suas magistrais, Meu cão estúpido e A orgia, que integram o raro A oeste de Roma. A fala de seus narradores é sempre muito direta, enxuta e, ao contrário do que isso pode fazer concluir, cheia de emoção.

Em 1933 foi um ano ruim (L&PM, 2011, romance) é isso o que vemos. A história é contada pelo rapazote Dominic Molise, um ítalo-americano do interior do Colorado, que sonha em abandonar a pobreza de sua casa e se tornar um astro do beisebol. Até aí, nada de novo, talvez, mas é que as coisas vão se passando diante de nós leitores de forma tão límpida, e nos convidando a conhecer o desemprego do pai, a religiosidade da mãe, a ojeriza à América e a saudade da Itália da avó, que torcemos, se não pelo êxito de Dominic, pelo fim do seu sofrimento. A avó, aliás, é quem denuncia o destino ruinoso daquela sociedade que agoniza persistente em meio à crise que os EUA atravessam. No romance em questão, temos Fante em sua melhor forma, expondo-nos a família americana, nesse caso, não a família-aberração costumeira, denunciada por outros autores , mas a verdadeira: imigrantes vivendo privações. Com isso, desmitifica o sonho americano e nos mostra o aborto do sonho.

No entanto, para além de denúncias, Fante é genial porque nos oferece um narrador  que W6CpzMRhsOjq1LjwCd3MAkBBDaA3vjw6j9F7hMp!eVzkZ4lVxPVxykEW5BPe97DnfVnT7LBLahQKQVXhoY3Ii!rewGrmMU7OAIkpAlacmRThQfk+ornWiMqaSgLV10ngconta tudo de dentro, que sofre o medo da culpa que a tradição lhe obriga, a brutalidade do pai que joga bilhar para suprir a despensa da casa, e narra tudo com emoção sem se acovardar diante dela.  Charles Bukowski , grande entusiasta da obra de Fante, dentre tantas vezes em que se pronunciou a respeito, disse: “finalmente um escritor que não tem medo da emoção”. E olha que não é fácil fugir dela, manter a literatura no texto, uma harmonia poética em equilíbrio com a emoção, com a memória da infância de ítalo-americano, como seus personagens:

Fiquei lá deitado na noite branca, observando minha respiração subir em plumas enevoadas. Sonhadores, éramos um bando de sonhadores. Vovó sonhava com sua casa na remota Abruzzi. Meu pai sonhava em estar livre das dívidas e assentar tijolos ao lado do seu filho. Minha mãe sonhava com sua recompensa celestial e um marido cordial que não fugisse. Minha irmã Clara sonhava em tornar-se freira, e meu irmãozinho Frederick mal podia esperar para crescer e se tornar um caubói. Fechando os olhos eu podia ouvir o zumbido dos sonhos pela casa, e então caí no sono.

Uma nota breve sobre a ascendência ítalo-americana de John Fante e de boa parte de seus personagens. Creio que a maior prova da maturidade, segurança e humildade desse escritor se dava ao afirmar que escreve sobre família, interior do Colorado e infância porque é o que ele conhece. Poderia reagir, falar de recriações, alegorias e coisas assim. mas o conjunto da obra faz tudo isso de maneira mais competente. Naturalmente, deixo escapar aqui obras ambientadas em Los Angeles, como o já citado Pergunte ao pó, Sonhos de Bunker Hill e A caminho de Los Angeles.

A palavra posta no lugar certo, a bem da emoção (ela, de novo) e a linguagem direta, aliadas ao destemor de mostrar a criança cruel que fomos — já que ainda sem o aparato moral do bem e do mal — fazem de John Fante um exímio autor.

Imaginei os dois deitados lá na escuridão de mundos diferentes, dividindo a mesma manjedoura, como um jumento e uma galinha. Marido e mulher, lado a lado, em dois leitos de um colchão abaulado, ainda assim separados pelos restos de seu casamento morto. Aquilo fez eu me estremecer.

1933 foi um ano ruim é uma obra prima de John Fante, um livro altamente recomendável, uma boa amostragem da literatura desse autor, precursor de muitos outros que viriam nas décadas à frente.

BovgULAIIAAGVU3Fante morreu em 1983, cego, vítima de diabetes, e seu último trabalho, Sonhos de Bunker Hill, foi redigido pela esposa, enquanto ele ditava-o a ela. Romancista e contista, também foi roteirista em Hollywood e teve seu Pergunte ao pó adaptado em 2005 para as telas. O livro alcançou notoriedade depois disso, embora seja difícil dizer qual seu melhor trabalho, já que toda a sua obra se equilibra na excelência.

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