E depois disso tudo

jello-biafra

Ex-casais se desejando feliz ano novo com sorrisos sinceros. Mulheres descoladas batendo no púbis e dizendo ‘eu quero é prova!’. Soldados amargurados dançam tango sob o som do Arrocha. A monarquia agoniza bonito nas veias da Centenário. Suas dores lombares cessam ao reler um conto de Quiroga. Dois viralatas festejam com a cadelinha malhada, mesmo que não saibam quem é o pai. O Sol torra tudo hoje, celebrando sua amnésia sobre o dia cinza que fez ontem. Meninas de 16 fazem corredor polonês de beijo na avenida. Sua televisão queimou há dois meses e você ainda vive. Você está vivo, por mais que se sinta morto. Sua amiga envia a terceira mensagem consecutiva, mesmo sem ter sua resposta. A menina branca dá um rabo de arraia no playboy bêbado. O mar regurgita sem hipocrisia toda a hipocrisia do dia Dois. Uma velha promessa da mpb que não deu certo assassina sua obra em nome de um punk rock postiço. E a juventude linda e ingênua o venera, como se assistisse a Jello Biafra em plena San Francisco. As prateleiras de bebida já alteraram seus preços, menos o do conhaque nacional. O pai tatua sua prole no braço. E acende um cachimbo de haxixe na varanda de nascente. Jornalistas incautos, mesmo com palavras pobres, pedem paz.
As redes sociais entram em floração mesmo sabendo que os canteiros coloridos são regados a mijo.
E depois disso tudo, você ainda diz que é poeta?

(pensando no Ritmo, de Sam Shepard).

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