Presságio, de Davi Boaventura

Não. Não estamos começando a nova temporada da coluna CONTO AFORA. Ainda não. Mas é que resolvemos publicar um, digamos, ‘episódio especial da série’. Optamos por um texto do contista Davi Boaventura. As histórias já foram todas contadas e o que nos leva a relê-las é a forma, as soluções estéticas encontradas. Davi parece se preocupar com isso e nos traz um texto rápido, no tamanho e no ritmo, texto sem areia ou pigarro para quem lê. Bem vindo, Davi!

Boa leitura.

conto-afora-final-2

 

Nas duas horas seguintes eu acordei e cochilei um sem número de vezes: dormi e acordei, dormi e acordei, igual velho diante da TV. De vez em quando um sonho, eu bêbado e maltrapilho pedindo esmola na saída de um restaurante sem teto, ou eu em casa lendo um livro de capa vermelha com um cachorro preto pintado no centro. Apenas um sonho foi diferente, mais denso: estou em um terreno descampado, completamente abandonado, com um chão de terra batida seca e árvores sem folhas e o céu inicialmente é vermelho e sujo, manchado por chumaços de nuvens escuras, depois se torna de um azul quase roxo, o ar é quente, abafado, mal se pode respirar, e então, longe, um casarão caindo aos pedaços se constrói enquanto sigo em sua direção, suas paredes estão gastas, mas parece que receberam um verniz recente, as portas estão parcialmente quebradas, um cérebro enorme aberto por um corte no topo e transbordante de sangue serve de piscina ao lado do prédio, com uma versão mais nova de mim dentro do líquido, dormindo, durmo e acordo e, apesar de assustado, ando até o prédio, o lugar está deserto, quieto, e fede, mesmo assim entro na sala sem móveis e o chão parece frágil, as ripas se soltam a cada passo, estalam, por isso piso com cuidado, tenho medo de me machucar porque também há pouca luz, somente um candeeiro antigo tenta iluminar o salão e no entanto é fraco demais, consegue apenas uma penumbra, olho para o teto, no teto a pintura está velha e apagada, podem-se ver os buracos do forro, pergunto se tem alguém por ali, nenhuma resposta, pergunto novamente, e nada, não deve ter alguém ali há anos, o mofo já tomou conta das paredes, de repente a escada no fundo do cômodo brilha e desaparece e o espaço diminui e o ar esquenta ainda mais, minha pele arde e, na tentativa de fuga, vou em direção ao quarto do lado, também vazio, lá as paredes são escuras, sem janelas, decoradas com quadros pretos, eu sento e observo, o medo por estar ali enfraquece, mas seu espaço é ocupado por um cansaço dolorido e persistente, me entristeço, choro, sinto minha cabeça quente e percebo uma gosma grudada nos fios do meu cabelo, vou morrer, eu penso, e deito no chão, os músculos se tornam fracos, flácidos, murchos, a sombra do teto se espalha pelo ambiente e me envolve gradativamente, perco a reação, eu vou morrer, meus braços, pescoço e pernas não se mexem, meu corpo atravessa as placas do assoalho e se aprofunda na terra em uma velocidade absurda, raízes de plantas se amarram em mim, fico assustado, grito, ninguém me ouve, nenhum som sai de minha boca, entro em desespero, vou morrer, sei que vou morrer, e afundo, afundo cada vez mais, a terra entra pelo nariz, pelos ouvidos, pelos poros, pela boca, engole meus dentes, engasgo, os olhos não têm como se abrir, tento gritar, não dá, as cordas vocais se rompem, eu vou morrer, e de repente, paro, calma, não vou morrer, eu penso, ainda não é a minha hora: eu vou morrer aos 77 anos.

Acordei suado, o sol quente no rosto, vômito em minha camisa, difícil saber se, de fato, meu. Eu fedia, um depósito de lixo. Dormi no banco de um ponto de ônibus. E o ponto estava cheio de velhos de volta das compras, com sacolas enormes e dentaduras coladas por adesivo bucal, e todos eles fingiam não me enxergar ali. Eu poderia ser um idoso igual a eles, pensei, e fiquei terrivelmente triste ao pensar: nunca havia analisado o assunto por este ângulo antes, de que eu podia um dia me tornar um velho, cheio de rugas, marcas de sol e pele desidratada – pelo contrário, acreditava piamente ser dos feitos para morrer cedo, em um acidente de carro ou um infarto fulminante do miocárdio, embora, de qualquer jeito, no final das contas, jovem ou velho, carro ou miocárdio, nunca enxerguei realmente uma diferença, a gente simplesmente morre, e ainda bem que é assim.

Fabiola Freire
By Fabíola Freire

Davi Boaventura é baiano e reside em Porto Alegre. Jornalista, mestre em Escrita Criativa e doutorando na mesma área na PUC do Rio Grande do Sul. Publicou Talvez não tenha criança no céu (Virgiliae, 2012, romance).

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s