Agora que estás junto a mim, de Rodrigo Urquiola Flores

Esta semana, o premiado escritor boliviano Rodrigo Urquiola Flores — a fina flor da literatura latino-americana contemporânea —  brinda a coluna CONTO AFORA com sua narrativa forte, carregada de lirismo. Parte integrante do livro Eva y los espejos, o conto a seguir esbanja sentimento e verdade, como uma boa conversa deve ser.

Depois de ler o conto, clique AQUI e escute o tema musical de Agora que estás junto a mim.

 

Conto Afora4ªTemporada
By Renato Ribeiro

Tradução: Ricardo Thadeu

a Ariel, meu irmão

Ontem à noite não pude dormir. Talvez você saiba melhor que eu, por sentir isso na pele, ou talvez não, pela indiferença com a qual talvez trate estes assuntos: não parou de chover até as sete da manhã. Você consegue dormir com isso? A verdade é que para mim é muito difícil imaginar alguém dormindo sob aquela chuva feroz. Inclusive é difícil imaginar a mim mesmo dormindo com aquele ruído de trilhões de gotas de chuva caindo em uníssono. Não pude me imaginar dormindo e, talvez por isso mesmo, não pude dormir. É que dormir tem muito a ver com sonhar – apesar de crermos que em alguma noite não sonhamos: frágil memória, poderoso esquecimento –, e sonhar tem muito a ver com imaginar. Ali onde se fabricam os sonhos, sim, ali é onde repousa a imaginação. Repousa a imaginação, aparentemente tranquila, enquanto convive, às vezes para o mal às vezes para o bem, junto com a lembrança. A lembrança é mais poderosa que a memória e menos perecível – inclusive é mais inventiva e criativa, creio eu –; a lembrança se apaga com pedras, enquanto que para apagar a memória basta um suspiro. Jamais encontrei as pedras que possam apagar a lembrança. Jamais consegui que minha imaginação conviva em paz com a lembrança. E é disso que quero falar, ainda que não esteja muito seguro de que vou conseguir; às vezes as palavras se camuflam e dizem coisas que não queriam dizer, às vezes, por medo, dizem coisas doces rodeando e evitando o amargo, não sei onde isso vai dar. Mas agora, já comecei: ontem à noite não pude dormir.

Lembro-me de uma noite distante, outra noite em que não pude dormir. Mamãe costumava dizer: está sem sono, mas logo o sono chega, tudo que tem que chegar chega quando tem que chegar. E o sono chegou, sim, na noite seguinte, e dormi até o meio-dia e depois tive vontade de continuar dormindo. Mas me deixe contar o que foi que aconteceu durante aquela noite em que não pude dormir. Conheci a insônia, estendi a mão a ela, nos demos um abraço e ela me disse: hoje trabalharei contigo. Abaixei a cabeça, sim, até quase roçar as ardentes entranhas de nosso planeta com meus cabelos. A principio tive medo. A ideia de sair da cama e nadar na escuridão me parecia tão aterrorizante quanto saltar da montanha mais alta rumo ao fundo inexistente do maior abismo. A vertigem de cair e cair e não morrer e não poder respirar porque o vento entra pelo seu nariz e quer arrebentá-lo e sentir como teus cabelos parecem evaporar e começar a crer que teu corpo já não é teu nem de ninguém. Sim, isso: cair e cair. Tive medo, mas isso foi se diluindo quando conheci aquele rosto secreto e sorridente que a escuridão tem quando brinca com o silêncio. E sim, o silêncio é amigável, conheça-o bem e ele será um amigo inseparável e muito mais leal que teu próprio eu, ainda que provável que você saiba disso melhor que eu. Quando a última gota fria de medo desapareceu da pele de minhas costas me senti corajoso o suficiente para me sentar na cama e respirar aparentando tranquilidade. Mas a verdade é que a frequência de minha respiração estava muito acelerada, como se eu estivesse fingindo. Não pude fingir nada, mas não tive medo da situação. Tive medo, sim, mas não tanto, quando decidi sair da cama para medir o nível da escuridão e para checar, auditivamente, os níveis do silêncio. Perto da janela que dá para o pátio, onde há um pessegueiro, a escuridão fica fraca e se deixa invadir por algo que se assemelha ao princípio de uma doença branca, e o silêncio parece quebrar-se em pedaços como se algum ser invisível e voador estivesse pisoteando-o com seus delicados pés quase inexistentes. Um pouco mais adiante da janela, a alguns passos de distância, a escuridão parece reviver e o silêncio parecer estar a ponto de gritar com seus conhecidíssimos ruídos ébrios de ar silencioso. Na última esquina de meu quarto de juventude, a escuridão é rei e o silêncio é rainha, ainda que às vezes gostem de inverter os papéis. Sim, ali fui, ali me sentei, ali conheci um ser de olhar repulsivo e indesejável, aquele a quem chamam de frio. Golpeou e congelou minhas costas. O frio é o bobo da corte, da qual fazem parte a escuridão e o silêncio, assim como o calor é um cortesão puxa saco. Um não pode confiar no outro plenamente. Se você se descuidar, ou podem cuidar de sua retaguarda ou apunhalar você, para depois devorá-lo, tudo depende de tudo. Mas, é claro, a escolha é sua. Da última esquina, vamos chamá-la de canto, dali, vi, onde a escuridão estava doente de brancura, ali onde o silêncio se quebrava, vi um chapéu cheio de sombra, um chapéu de formas inconfundíveis. Vi a sombra de um chapéu ou, talvez, não sei (como poderia saber?) o chapéu de uma sombra. Não era mais que um objeto extraviado, um, talvez, objeto que ainda não era objeto. Então chegou a manhã e acordei estando já acordado, quer dizer, fingi, por fim, despertar e desci para o café da manhã porque mamãe me chamava aos gritos na sala de jantar da família. Que bela noite! Jamais voltei a viver outra igual. Que belo o terror que senti quando vi aquele chapéu! Que inigualável sensação! Que incensurável o prazer efêmero que provoca o terror quando caminha sobre a pele!

Recordar uma das noites mais belas me transporta à inevitável lembrança de outra noite de insônia, porém de uma insônia ao contrário, uma noite horrível. Noite de primavera. Já eram três da madrugada e mamãe não chegava do trabalho. Eu era pequeno, mas não tanto, por isso tomei a firme decisão de esperar por ela acordado, sim, fazendo vigília. Porém o sono me traiu, a insônia ficou de cabeça para baixo, trabalhou o mais mediocremente que pode. Dormi. Ouvi gritos. Escutei a palavra sangue repetida várias vezes por meus tios e avós. Mas não podia acordar, lutei para acordar, mas não consegui, não pude, apesar do alvoroço que se desenvolvia bem em cima de minha cabeça. Nunca mais voltei a ver mamãe. Mas não quero falar disso, não, não aqui neste banco do El Prado; é pouco usual ver um homem chorar, ainda mais nestes felizes bancos deste mísero passeio do El Prado.

Está vendo aquele casal de jovens que se abraçam e se beijam enquanto sorriem e tomam sorvete? Se eu não estivesse aqui, sentado junto a você, poderia jurar que ele sou eu e que ela é Beatriz. Agora, você pode ver aqueles casados? Sim, aqueles que carrregam um bebê vestido de rosa. Se eu não estivesse aqui, juraria que aquele homem, sim, o que segura o bebê, sou eu mesmo e que a mulher que o acompanha é Beatriz. Olha! Os dois casais, os jovens e os casados, estão frente a frente, é como se uma Beatriz mãe olhasse diretamente os olhos da Beatriz da juventude; é como se eu me olhasse a mim mesmo, e eu, aqui sentado, pudesse ver como eu mesmo me vejo. Desejaria que Beatriz estivesse sentada no mesmo banco. Beatriz foi embora, sim, para casa de seus pais em Santiago. Foi embora há seis anos e o bebê, a pequena Sofía Beatriz, está cada vez maior. Nos vimos em dezembro, nas praias de Lima, foi um verão espetacular. Fomos assistir a um filme, desenho animado, e Beatriz, ao final, se emocionou até as lágrimas. Tive que abraçá-la, mas ela foi embora de novo para Santiago. Tenho planejado viajar ao Chile daqui a duas semanas, dessa forma creio que poderei visita-las logo. Espero que minha presença seja uma grata surpresa. A gente nunca sabe.

Olha! Aquela turma de jovens com as camisas azuis do Bolívar. Ah, é claro, quase esqueci, hoje é domingo. Li na seção esportiva do jornal que tenho no colo que o Oriente Petrolero chegou com seis dias de antecipação à cidade de La Paz para aclimatar-se e poder fazer um grande jogo. Hoje é a final do campeonato. Se o Oriente Petrolero ganhar, será campeão; ao Bolívar basta um empate. Ouvi que milhares de torcedores fanáticos chegaram de Santa Cruz. Quando ainda estava no colégio, aconteceu algo semelhante. Na época, o campeonato se definia com dois jogos finais. O Bolívar iria jogar em Cochabamba contra o Wilstermann depois de ganhar do The Strongest nos pênaltis; sim, viajamos até lá de ônibus, me lembro como se fosse ontem, fomos Álvaro Ch., que era fã do The Strongest mas que nos acompanhou mesmo assim porque prometemos pagar suas passagens de ida e volta; foi também Álvaro R., e César e Luis Fernando e eu. Teria sido uma viagem perfeita se o Bolívar não perdesse na decisão por pênaltis. Ainda me lembro: todos nós, menos de Álvaro Ch., apoiávamos o Bolívar gritando e saltando, mas ao final brigamos porque Álvaro Ch. não deixava de apoiar o adversário. Nos reconciliamos logo, quando tivemos que rachar a conta da janta. Jantamos bem e voltamos felizes. Chegamos na rodoviária de madrugada e dali fomos direto ao colégio. Foi espetacular.

Ontem choveu tanto que ainda sinto a umidade sobre minha pele, como se meus ossos fossem fabricados de água que vai evaporando pouco a pouco e que escapa pelos meus poros. Ontem choveu tanto que pensei que o mundo iria cair a qualquer momento, você pode imaginar? Que o mundo não seja mundo nunca mais, que o tão famoso “Fim do mundo” chegue como tudo o que tem que chegar, chegue por fim o tão ansiado e talvez odiado fim de tudo.  Assim, amanhã não seria segunda e eu não teria que voltar ao trabalho. Assim, nunca mais haveria um amanhã pelo qual se preocupar. O dinheiro de nossas carteiras não serviria para nada. A inteligência, a força, o calor humano não serviriam para nada. E tudo mais, porque seríamos nada. Bonita utopia para tão arraigada realidade. Sonho de insones perpétuos. Olhe para mim, estou tremendo de emoção, é como se tivesse milhares de calafrios em apenas alguns segundos. O sol brilha cada vez com mais força e isso é algo que me alegra. Não, não, por favor não se levante, fique um pouco mais. Necessito de mais alguns minutos, só mais alguns minutos. Espere, venha, tome, uma moeda de cinco bolivianos. Fique.

Nunca, até hoje, tinha reparado nos mendigos. Sempre pensei neles como simples desconhecidos, até hoje, até agora. Você nunca pensou nisso antes de entrar para a mendicância? Todos nós, os seres humanos, somos uns simples desconhecidos que saem por aí mendigando, todos necessitam de algo, todos. Olha só: você algumas moedas e eu alguns segundos de sua companhia. Nada mais. Todos somos mendigos, por isso que, por favor, não abaixe a cabeça para mim nem se sinta menor em relação a mim só porque eu estou mais bem vestido e cheiro melhor. Fique.

Certa vez, alguns meses antes da morte de mamãe, perguntei a ela, com essa curiosidade insaciável que têm as crianças, onde estava meu pai, por que todos os meus colegas de escola têm um pai e eu não; e sabe o que ela me respondeu? Ela me disse: você também tem um, está aqui, e me deu uma fotografia antiga, em preto e branco, um pouco amassada. Nunca mais pude me separar dela. Nos tantos momentos de solidão olhava a fotografia, memorizava os traços que se desenhavam naquele rosto tão parecido com o meu e, às vezes, até sonhava com um homem dono desse rosto, porém jamais, nem em meus próprios sonhos, pude chama-lo de papai, ou pai, sempre senhor. Jamais tive contato algum com ele, mas sempre que desejava referir-me a ele, chamava de senhor. O senhor fez isso? Como era aquele senhor? Por que o senhor se foi? Isso já não importa, filho. Às vezes me pergunto o que teria acontecido se em vez de crescer sozinho tivesse crescido numa família ‘normal’, com um pai guiando meus passos e uma mãe viva. Sem lugar para dúvidas, teria sido alguém muito diferente de quem sou agora, e teria sido muito infeliz – claro, no caso de saber que me cabia ser outro –, pois agora sou feliz, apesar de tudo, apesar de que minhas olheiras digam que mais pareço um lúgubre personagem saído de algum filme trágico. Sou feliz porque continuo vivo e, sim, também, pelo que você diz com os olhos, sou feliz porque estou bem vestido e cheiro melhor que outras pessoas. Juro para você que me deu vontade de ligar para Beatriz, ouvir essa voz da qual alguma vez me apaixonei e logo ouvir a voz da pequena Sofía Beatriz, mas sei que não farei isso, hoje é domingo e, agora acabo de lembrar, tenho tanto trabalho para terminar para amanhã que é muito possível que hoje não possa dormir.

Lembra que mencionei um chapéu que quase não era um objeto? Sim, a sombra abandonada de um chapéu, um chapéu aterrorizante, inesquecível; pois era um chapéu exatamente igual ao seu. Lembra que mencionei a fotografia de meu pai? Pois aquele rosto é igual ao seu e seu rosto seria igual ao meu se eu fosse um mendigo envelhecido que agora está junto a você. Mas não sei o que dizer por último, dizer senhor, sou seu filho, e lhe contar todas estas coisas e talvez depois ir comer, ir ao jogo de futebol e esquecer do trabalho ou voltar para casa com a consciência intranquila depois de ter lhe presenteado com um triste bilhete; não sei se faço isto ou aquilo, mas, enquanto medito sobre este assunto, tome outros cinco bolivianos e fique, me escute, que quero voltar a falar do clima ou de alguma outra noite de insônia.

DSC_0146Rodrigo Urquiola Flores nasceu em 1 de novembro de 1986 em La Paz, Bolívia. É autor dos livros de contos Eva y los espejos e La memoria invertebrada, das obras de teatro El bloqueo (Premio Adolfo Costa du Rels, 2010) e El retorno (Premio Municipal de Dramaturgia Cochabamba, 2015), e dos romances Lluvia de piedra (Mención de Honor Premio Nacional de Novela, 2010) e El sonido de la muralla (Premio Marcelo Quiroga Santa Cruz, 2014; Premio Interamericano de Literatura Carlos Montemayor, 2016). Contos seus ganharam diversos prêmios na Bolivia e no exterior.

La versión original en español:

Ahora que estás junto a mí

Conto Afora4ªTemporada
By Renato Ribeiro

a Ariel, mi hermano

Anoche no pude dormir. Quizás lo sabes mejor que yo, por sentirlo directamente sobre la piel, o quizás no, por la indiferencia con la que tal vez ya tratas estos asuntos: no escampó sino hasta las siete de la mañana. ¿Pudiste dormir anoche? La verdad es que se me hace muy difícil imaginarte durmiendo bajo aquella lluvia feroz. Incluso se me hizo muy difícil imaginarme a mí mismo durmiendo con aquel ruido de trillones de gotas de lluvia cayendo al unísono, no pude imaginarme durmiendo y, tal vez por ello mismo, no pude dormir. Y es que dormir tiene mucho que ver con soñar –pese a que creamos que alguna noche no soñamos: frágil memoria, poderoso olvido–, y soñar tiene mucho que ver con imaginar. Allí donde se fabrican los sueños, sí, allí, es donde reposa la imaginación. Reposa la imaginación, aparentemente tranquila, mientras convive, a veces para mal a veces para bien, junto con el recuerdo. El recuerdo es más poderoso que la memoria y menos perecedero –incluso es más inventivo y creativo, creo yo–; al recuerdo se lo borra con piedras mientras que para borrar la memoria basta un suspiro. Jamás encontré aquellas piedras que puedan borrar el recuerdo. Jamás logré que mi imaginación conviva en paz con el recuerdo. Y de eso es de lo que quiero hablar, aunque no estoy muy seguro de si podré lograrlo, a veces las palabras se camuflan y dicen cosas que no quisieron decir, a veces, por temor, dicen cosas dulces rodeando y evitando lo amargo, no sé en donde iré a terminar. Sin embargo, ya empecé: anoche no pude dormir.

Recuerdo una noche lejana, otra noche en la que no pude dormir. Mamá solía decir: no hay sueño pero ya llegará, todo lo que tiene que llegar llega cuando tiene que llegar. Y el sueño llegó, sí, a la noche siguiente, y dormí hasta mediodía y aún después tuve ganas de continuar durmiendo. Pero déjame contarte qué fue lo que sucedió durante aquella noche en la que no pude dormir. Conocí al insomnio, le extendí la mano, nos dimos un abrazo y me dijo: hoy trabajaré contigo. Yo agaché la cabeza, sí, hasta casi rozar las ardientes entrañas de nuestro planeta con mis cabellos. Al principio tuve miedo. La idea de salir de la cama y nadar en la oscuridad me parecía tan terrorífica como saltar de la montaña más alta rumbo al fondo inexistente del más grande abismo. El vértigo de caer y caer y no morir y no poder respirar porque el viento se mete por tu nariz y quiere reventarla y sentir cómo tus cabellos parecen ir evaporándose y empezar a creer que tu cuerpo ya no es tuyo ni de nadie. Sí, eso: caer y caer. Tuve miedo, pero fue diluyéndose cuando conocí aquel rostro secreto y sonriente que tiene la oscuridad cuando juguetea con el silencio. Y sí, el silencio es amigable, conócelo bien y será un amigo inseparable y mucho más leal que tu propio yo, aunque es probable que esto tú lo sepas mejor que yo. Cuando la última gota fría de miedo desapareció de la piel de mi espalda me sentí lo suficientemente valeroso como para sentarme en la cama y respirar aparentando tranquilidad. Pero lo cierto es que el pulso de mis respiraciones estaba muy acelerado como para intentar aparentar alguna cosa. No pude aparentar nada, pero no me reproché por aquello. Me reproché, sí, pero no tanto, cuando decidí salir de la cama para medir los niveles de la oscuridad y para palpar, auditivamente, los niveles del silencio. Cerca de la ventana que da al patio, donde hay un duraznero, la oscuridad se hace endeble y se deja invadir por algo que se asemeja al principio de una enfermedad blanca, y el silencio parece quebrarse a momentos como si algún ser invisible y volador lo estuviera pisoteando con sus delicados pies casi inexistentes. Un poco más allá de la ventana, a unos cuantos pasos de distancia, la oscuridad parece revivir y el silencio estar a punto de gritar con sus conocidísimos chillidos ebrios de aire silencioso. En la última esquina de mi habitación de juventud la oscuridad es rey y el silencio es reina, aunque a veces gustan de cambiar los roles. Sí, allí fui, allí me senté, allí conocí a un ser de mirada repelente e indeseable, aquel a quien llaman frío. Me golpeó la espalda y la congeló. El frío es el bufón de la monarquía que componen la oscuridad y el silencio, así como el calor es un cortesano chupamedias. Uno no puede confiar en ninguno con total plenitud. Si te descuidas, o bien pueden cuidarte las espaldas o apuñalarte para luego devorarte, todo depende de todo. Pero, por supuesto, eso tú lo debes saber mejor que yo. Desde aquella última esquina, llamémosla el rincón, desde allí, vi, allí donde la oscuridad estaba enferma de blancura, allí donde el silencio tendía a quebrarse, vi un sombrero hecho de sombra, un sombrero de formas inconfundibles. Vi la sombra de un sombrero o, quizás, no lo sé, ¿cómo poder saberlo? el sombrero de una sombra. No era más que un objeto extraviado, un, tal vez, objeto que aún no era objeto. Entonces llegó la mañana y desperté estando ya despierto, es decir, aparenté, por fin, despertar y bajé a desayunar porque mamá me llamaba a gritos desde el comedor familiar. ¡Qué bella noche! Jamás volví a vivir otra igual. ¡Qué hermoso el terror que sentí cuando vi aquel sombrero!, ¡qué inigualable sensación!, ¡qué poco reprochable el placer efímero que provoca el terror cuando camina sobre la piel!

Recordar una de las noches más bellas me traslada al inevitable recuerdo de otra noche de insomnio, pero de un insomnio al revés, una noche horrible. Noche de primavera. Ya eran las tres de la madrugada y mamá no llegaba del trabajo. Yo era aún pequeño, pero no tanto, así que tomé la firme decisión de esperar por ella estando despierto, sí, haciendo vigilia. Pero el sueño me traicionó, el insomnio se puso de patas arriba y trabajó lo más mediocremente que pudo. Me quedé dormido. Oí gritos. Escuché la palabra sangre repetida varias veces por mis tíos y abuelos. Pero no podía despertar, luché por despertar, pero no pude hacerlo, no pude, pese al alboroto que se desarrollaba precisamente sobre mi cabeza. Nunca más volví a ver a mamá. Pero no quiero hablar de ello, no, no aquí en esta banqueta de El Prado, es poco usual ver a un hombre llorar y lo es mucho más en estas felices banquetas de este mísero paseo de El Prado.

¿Ves a aquella pareja de jóvenes que se abrazan y se besan mientras sonríen y toman helados? Si no estuviera aquí, sentado junto a ti, podría jurar que él soy yo y que ella es Beatriz. Ahora, ¿puedes ver a aquel matrimonio joven?, sí, aquellos que cargan una bebé vestida de rosa. Si no estuviera aquí, juraría que aquel hombre, sí, el que sostiene a la bebé, soy yo mismo y que la mujer que lo acompaña es Beatriz. ¡Mira!, las dos parejas, los jóvenes y el matrimonio, están frente a frente, es como si una Beatriz madre mirara directamente a los ojos a una Beatriz novia de juventud, es como si yo me mirara a mí mismo, y yo, aquí sentado, pudiera mirar cómo yo mismo me veo. Desearía que Beatriz estuviera sentada en esta misma banqueta. Beatriz se marchó, sí, a casa de sus padres en Santiago. Se marchó hace seis años y la bebé, la pequeña Sofía Beatriz, está cada vez más grande. Nos vimos en diciembre, en las playas de Lima, fue un verano espectacular. Fuimos a ver una película, dibujos animados, y Beatriz, al final, se emocionó hasta las lágrimas. Tuve que abrazarla, pero volvió a marcharse igual, a la casa de Santiago. Tengo planificado viajar a Chile de aquí a dos semanas, así que creo que podré visitarlas pronto. Espero que mi presencia sea una grata sorpresa. Uno nunca sabe.

¡Mira! Aquel grupo de jóvenes con las poleras celestes del Bolívar. Ah, por cierto, casi lo olvido, hoy es domingo. Leí en la sección deportiva del periódico que tengo sobre los muslos que Oriente Petrolero se vino con una anticipación de seis días a la ciudad de La Paz para aclimatarse y poder hacer un gran juego. Hoy se define el campeonato de la liga. Si Oriente Petrolero gana, será campeón; al Bolívar le basta con un empate. Oí que varios miles de hinchas están llegando de Santa Cruz. Cuando aún estaba en colegio, sucedió algo similar. Por entonces, el campeonato se definía con dos partidos finales. Al Bolívar le tocó jugar en Cochabamba contra Wilstermann después de ganarle a The Strongest por penales, sí, viajamos hasta allí en bus, lo recuerdo como si fuera ayer, fuimos Álvaro Ch., que era hincha de The Strongest pero que nos acompañó de todas maneras porque prometimos pagar su pasaje de ida y su pasaje de vuelta, fue también Álvaro R., y César y Luis Fernando y yo. Hubiera sido un viaje perfecto si es que el Bolívar no perdía en la definición por penales. Aún lo recuerdo: todos nosotros, a excepción de Álvaro Ch., apoyábamos al Bolívar gritando y saltando, pero al final nos peleamos porque Álvaro Ch. no dejaba de apoyar al rival. Nos reconciliamos pronto, cuando tuvimos que dar cuotas para cenar. Cenamos bien y retornamos felices. Llegamos a la terminal de buses de madrugada y de allí nos fuimos directamente al colegio. Fue espectacular.

Ayer llovió tanto que aún siento la humedad sobre mi piel, tal como si mis huesos estuvieran fabricados de agua que va evaporándose poco a poco y que se escapa a través de mis poros. Ayer llovió tanto que pensé que el mundo iría a derrumbarse en cualquier momento, ¿puedes imaginarlo?, que el mundo ya no sea mundo nunca más, que el tan mentado Acabóse llegue como todo lo que tiene que llegar y por fin el tan ansiado y a la vez odiado fin de todo. Así, mañana no sería lunes y yo no tendría que volver al trabajo. Así, nunca más habría un mañana por el cual preocuparse. El dinero de nuestras billeteras no serviría de nada. La inteligencia, la fuerza, el calor humano no servirían de nada. Y todo porque seríamos nada. Hermosa utopía para tan arraigada realidad. Sueño de insomnes perpetuos. Mírame, estoy temblando de emoción, es como si tuviera miles de escalofríos en apenas unos cuantos segundos. El sol brilla cada vez con más fuerza y eso es algo que me alegra. No, no, por favor no te levantes, quédate un rato más. Necesito unos cuantos minutos más, tan sólo unos cuantos minutos más. Espera, ven, toma, una moneda de cinco bolivianos. Quédate.

Nunca, hasta hoy, me había fijado bien en los mendigos. Siempre he pensado en ellos como simples desconocidos, hasta hoy, hasta ahora. ¿Nunca te pasó eso antes de dedicarte a la mendicidad? Todos los seres humanos somos unos simples desconocidos que van por ahí mendicantes, todos necesitan algo, todos. Mira, tú unas cuantas monedas y yo unos segundos de tu compañía. Nada más. Todos somos mendigos así que, por favor, no agaches la mirada ni te apoques ante mí tan sólo porque yo esté mejor vestido y huela mejor. Quédate.

Cierta vez, unos cuantos meses antes de la muerte de mamá, le pregunté, con esa curiosidad insaciable que tienen los niños, que donde estaba mi padre, que por qué todos mis compañeros de escuela tienen un padre y yo no, y, ¿sabes qué me contestó ella?, me dijo: tú también tienes uno, está aquí, y me dio una fotografía antigua, en blanco y negro, un tanto ajada. Nunca más pude apartarme de ella. En los tantos momentos de soledad miraba la fotografía, memorizaba los trazos que se dibujaban en aquel rostro tan parecido al mío y, a veces, hasta soñaba con un hombre poseedor de ese rostro, pero jamás, ni en mis propios sueños, pude llamarlo papá, o padre, siempre señor. Jamás tuve contacto alguno con él, pero siempre que deseaba referirme a él lo llamaba señor, ¿el señor hizo esto?, ¿cómo era aquél señor?, ¿por qué el señor se fue?, eso ya no importa, hijo. A veces me pregunto qué hubiera sucedido si en vez de crecer solo hubiera crecido en una familia ‘normal’, con un padre guiando mis pasos y una madre viva. Sin lugar a dudas, hubiera sido alguien muy distinto de quien soy ahora, y hubiera sido muy infeliz –claro, en el caso de haber sabido que me correspondía ser otro–, pues ahora soy feliz, pese a todo, pese a que mis ojeras digan que más bien parezco un lúgubre personaje salido de alguna película trágica. Soy feliz porque continúo vivo y, sí, también, por lo que tú dices con los ojos, soy feliz porque estoy bien vestido y huelo mejor que otras personas. Te juro que me dieron ganas de llamar a Beatriz, oír esa voz de la que alguna vez me enamoré y luego oír la voz de la pequeña Sofía Beatriz, pero sé que no lo haré, hoy es domingo y, ahora que lo recuerdo, tengo tanto trabajo que finalizar para mañana que es muy posible que hoy no pueda dormir.

¿Recuerdas que mencioné un sombrero que casi no era un objeto?, sí, la sombra abandonada de un sombrero, un sombrero terrorífico, inolvidable; pues era un sombrero exactamente igual al tuyo. ¿Recuerdas que mencioné la fotografía de mi padre? Pues su rostro es igual al tuyo y tu rostro sería igual al mío si yo fuera un mendigo envejecido que ahora está junto a ti. Pero no sé si decirte esto último, decirte señor, soy su hijo, y contarte todas estas cosas y tal vez luego ir a comer y al partido de fútbol y olvidarme del trabajo o retornar a casa con la conciencia intranquila después de haberte regalado un triste billete, no sé si hacer esto o aquello, pero, mientras medito este asunto, toma otros cinco bolivianos y quédate, escúchame, que quiero volver a hablar del clima o de alguna otra noche de insomnio.

DSC_0146Rodrigo Urquiola Flores nació el 1 de noviembre de 1986 en La Paz, Bolivia. Es autor de los libros de cuentos Eva y los espejos y La memoria invertebrada, de las obras de teatro El bloqueo (Premio Adolfo Costa du Rels, 2010) y El retorno (Premio Municipal de Dramaturgia Cochabamba, 2015), y de las novelas Lluvia de piedra (Mención de Honor Premio Nacional de Novela, 2010) y El sonido de la muralla (Premio Marcelo Quiroga Santa Cruz, 2014; Premio Interamericano de Literatura Carlos Montemayor, 2016). Cuentos suyos han ganado diversos premios en Bolivia y el extranjero.

 

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