Os olhos dos hipopótamos, de Lupeu Lacerda

Quem disse que o lirismo mora nas rosas? Esta semana a coluna CONTO AFORA prova o contrário ao trazer um conto de Lupeu Lacerda, um dos escritores mais viscerais e  líricos em atividade. Seu texto revela a liberdade desafiadora dos que não têm saída.

É um conto que integra a coletânea Tempo bom (Iluminuras, 2010, contos).

Depois da leitura, clique AQUI e escute o tema musical de Os olhos dos hipopótamos.

Conto Afora4ªTemporada

Cheguei tarde querendo descobrir qual das chaves abriria o mistério das portas. Parado na frente da porta, sem ter certeza se era a chave que estava errada. Decido esperar, mas a porra da madrugada está fria. É junho. E a mulher que chamava de minha entrou em um avião para se ver livre e do tédio dessa cidade anêmica. Vou até a ponte. Andando. Os vapores da dama loura gelada vão abandonar esse corpo que não pertence mais a mesa alguma. Equilíbrio é uma palavra fascinante. Olho detalhes que nunca tinha visto. Pinturas nas paredes. Cartazes de duplas sertanejas e infelizes. Fico pensando se não é uma outra cidade – essa de agora – diferente da que vejo de manhã e à tarde. Ninguém se aproxima muito. Ninguém sabe quem é o predador, ou quem é a caça. Uma mulher vestida com quase nada me pergunta se tenho fogo. Acendo seu cigarro. Tento continuar e ela me pergunta se não quero fazer gostoso. Cutuco os bolsos. Desisto. No máximo ia conseguir chamar por um outro nome, ou pior: vomitar na sua roupa de guerra na primeira sacudida. Digo que não tenho condição de fazer gostoso, e continuo com meus passos de bailarino que levou um tiro. Eis a ponte. Olho e vejo a lua. Redonda. Amarela. Um olho de um hipopótamo. Rio da besteira. O que me fez lembrar os olhos dos hipopótamos? E associá-los à lua. Esse globo ocular sem retina que fere o céu. A porra da memória fica presa nos olhos dos hipopótamos. Lembro: vi na televisão. Eles (os) idiotas, obesos, olhos de quem não está entendendo nada. Os hipopótamos não perdem casas, nem chaves, nem suas namoradas viajam de avião com destino ao futuro. Olho de novo a lua. Penso nos olhos dos hipopótamos. Vou tentar achar a casa que combina com minha chave. Provavelmente, hoje, eu bebi demais. (Não) pago.

lupeuLupeu Lacerda é escritor e artesão. Autor dos livros Entre o alho e o sal (2007), Caos Technicolor (2012) Enfermaria 5 (2016).  Nasceu em São Paulo, criou-se no Cariri, mora momentaneamente em Juazeiro da Bahia. Gosta de cerveja, maconha, vinho, rock e sexo não necessariamente nessa ordem. Tem complexo de Peter Pan, ou Macunaíma (não sabe ao certo). Tem 50 anos, mas sabe que até isso é provisório.

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