Acalanto de passagem, de Cinthia Kriemler

Esta semana, a coluna CONTO AFORA recebe a talentosa escritora Cinthia Kriemler. O tom confessional do conto a seguir, revela sua habilidade em tecer uma narrativa intensa e, ao mesmo tempo, sensível.

Depois da leitura, clique AQUI e escute o tema musical de Acalanto de passagem.

Conto Afora4ªTemporada

A profissão, escolheu cedo. Nenhum acaso, nenhuma hesitação. Apenas um desejo de estar lá. De estar lá inteira, com mãos de afagos, lágrimas honestas. E um dó imenso daquele silêncio obrigado, daquela hora repleta de ninguém, do frio permanente. Quisera ser o que era. Tinha que ser. Fora feita para a despedida, para o momento em que os remorsos e a saudade e todos os duelos tramados entre razão e emoção se tornam inúteis.

Quem mais entenderia o nada como ela? Ela que sempre fora nada. Um cisco escondido atrás das portas. Tão leve que sob o seu corpo se recusavam a ranger as tábuas velhas do soalho. Ela e sua presença ignorada. Sem chamados, sem vozes de afeto, sem abraços de carinho, sem direito a querer, doer, gritar. Quem mais enxergaria o nada? Esse não ser que ainda assim se desconforma. Esse não ter que ainda assim cobiça.

Por isso se entregava a eles. Para lhes dar o impensado: atenção. Uma ou duas carícias suaves no rosto frio, na cabeça fria, nas mãos postas em entrelaçamento de oração. Tivessem ou não fé. Para lhes recitar um monólogo curto de acalanto. Um acalanto de passagem.

Ela escolhera. Em cada ida ao quarto apertado e sem janelas da avó doente, esquecida sobre a cama suja. Em cada poço negro que vira no fundo dos olhos da mãe traída, abandonada. Escolhera que morrer devia ser sem solidão.

Quando começou na profissão de preparar os mortos, ninguém ligou. Não houve desprezo, nojo, deboche. Ela não valia opinião. Não rangia tábuas. Então, ficou sozinha com o primeiro corpo. Depois com outro, e mais outro, e mais tantos que os anos trouxeram. Iguais em sua última presença visível. Nus. Marcados. Solitários.

Imaginava-os em medo, angústia, ansiedade. Espíritos, energias, matérias, o que quer que fossem. Presos ainda à tensão da vida. Procurando por um rosto conhecido na sala impessoal com cheiro de substâncias fortes. Buscando suas gentes de afeto. Não havia. Ali, só mesmo ela. Para limpá-los, vesti-los, pôr-lhes um terço entre os dedos, pentear-lhes os cabelos. Para fazê-los se sentir um pouco mais que inquilinos em vias de despejo.

Ela escolhera.

Foto Conto agora 2Cinthia Kriemler é contista.  Vez ou outra, escreve poemas. Nasceu no Rio de Janeiro e mora em Brasília. Autora dos livros Na escuridão não existe cor-de-rosa (Patuá, 2015, contos); Sob os escombros (Patuá, 2014, contos); Do todo que me cerca (Patuá, 2012, crônicas) e de Para enfim me deitar na minha alma (2010), projeto aprovado pelo FAC-DF. Está em diversas antologias de contos e em algumas de poemas. Escreve todo dia 16 para a Revista SAMIZDAT. Seu blog: http://cinthiakriemler.blogspot.com.br

 

 

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