Dois litros de gasolina, de Arquímedes Gonzalez

Um conto em atos, podemos dizer assim? Esta semana a coluna CONTO AFORA  traz  um conto do premiado escritor nicaraguense Arquímedes Gonzalez, hábil, implacável e exitoso na escolha dos seus recursos narrativos. Talvez Arquímedes evoque Guilhermo Arriaga, na capacidade de mostrar as cenas, em lugar de contá-las; com isso, celebra a tradição latino-americana de reinventar as formas de narrar.

Depois da leitura, clique AQUI e escute o tema musical de Dois litros de gasolina.

Conto Afora4ªTemporada
By Renato Ribeiro

Tradução de Dênisson Padilha Filho

23 de Abril.

— Bom dia, Fiona.

— Olá, Nora.

—  Parece que você não conseguiu dormir…

— Isso mesmo…

— Outra vez os meninos…?

— É.

— Chamou a polícia?

— Chamei

— E?

— Nada.

— Falou com os pais?

— Com os meninos.

— Não deu uma bronca neles?

— Sim, o suficiente para que não voltem a nos abusar.

— Me alegro por você. Às vezes as crianças são inconscientes das maldades que fazem. Seus filhos estão bem?

— Sim, estão me esperando no carro.

Fiona carregava um recipiente plástico contendo gasolina.

— Dois litros?

— Sim.

A vendedora ficou olhando para ela.

— É pra combater uma praga de formiga que tenho no jardim.

— Um dólar e vinte e dois centavos.

Fiona lhe deu uma nota de dez e recebeu o troco.

Se despediu da encarregada do negócio e foi ao estacionamento.

Através da janela viu que a baba manchava a camisa de sua filha de vinte anos. Estava sentada no banco de trás. Seu outro filho, ao lado, dormindo.

Fiona pegou o lenço que estava no chão e a limpou.

— Mamãe! — exclamou a menina, alegre, porque de novo retomavam a viagem.

Adorava quando Fiona a levava para passear.

Sempre que escutava o tilintar das chaves, se enchia de alegria e corria pelo chão da casa procurando os sapatos.

Fiona lhe sorriu.

—  Faremos um grande passeio — adiantou.

— Mamãe! — a filha voltou a dizer, desta vez, num tom preocupado.

— Ah, me perdoa ! — disse-lhe, passando para ela o urso de pelúcia que havia caído.

Girou a chave na ignição e o motor despertou.

A filha se alegrou.

— Lá! — pediu mostrando parte alguma.

—  Sim, filha. É pra lá que vamos.

Nisso, passaram duas patrulhas.

Fiona saiu do estacionamento e entrou na rodovia. Pelo retrovisor observou que uma ambulância se aproximava.

Saiu de sua faixa e o veículo com as luzes de emergência e a sirene ativadas a ultrapassou.

A filha voltou a se babar.

Fiona acelerou saindo da avenida e tomou o rumo da estrada que ia à montanha. Depois de quase meia hora de viagem, parou numa curva. Desceu do carro e se assomou ao barranco.

Voltou ao carro, pegou o recipiente com a gasolina, tirou a tampa e verteu o líquido sobre os bancos traseiros e dianteiros.

A filha olhou e franziu o rosto.

Fiona despejou mais gasolina no vestido da menina, no corpo do seu filho adormecido e no dela.

— Será bem rápido — explicou à jovem, que se inquietava e se aferrava mais ao seu urso de pelúcia.

— Mamãe! — rogou a filha nervosa.

Fiona se sentou ao volante, deu uma ré de cem metros e voltando a olhar para Andrea lhe perguntou:

— Pronta?

A menina sorriu e, com um rosto confuso, assentiu. Seu braço direito apertou com força no peito seu urso de pelúcia.

Sua mãe pegou a bolsa e dela tirou um isqueiro.

— Não se deve brincar com fogo — recomendou a filha, pois em repetidas ocasiões sua mãe lhe advertiu do perigo.

— Isso mesmo, filha.

A mãe fez pressão com seu dedo polegar na cabeça do isqueiro, fez girar e no instante em que seu dedo descansou na alavanca que liberava o gás, produziu-se uma faísca eletromecânica que originou a chama. Passou a primeira marcha, pisou no acelerador e dirigiu na direção do abismo. Sem olhar para seus filhos, aproximou o fogo do assento dianteiro, de imediato tudo ardeu em chamas e segundos depois saltaram pelos ares.

1 de Março.

 Fiona preparava a janta. Seu filho brincava na sala. Sua filha Andrea via tevê.

Nisso, escutou vozes. Vozes de crianças.

Saiu da cozinha e foi à janela da sala.

— Estúpidos! — escutou isso que gritavam.

— Andrea é uma burra! Andrea é uma burra! Andrea é uma burra! — cantarolou outra criança.

— Marc come cocô! — gritou mais uma.

Fiona foi à porta, abriu e ficou olhando para a escuridão.

De pronto as vozes se calaram.

Fiona quis responder-lhes, mas se conteve.

Saiu pro jardim, colocou as mãos na cintura e procurou em ambos os lados da rua, mas não localizou os pequenos.

Desapontada, entrou em casa, fechou a porta e ao chegar à cozinha voltou a escutar os gritos.

— Par de retardados mentais!

Andrea seguia vendo tevê. Marc não estava na sala. Procurou-o pela casa. Estava escondido debaixo da cama de seu quarto, tapando os ouvidos com as mãos.

Ela o tirou dali, carregou-o em seus braços e foi ao telefone ligar pra polícia.

— Policial…

— Boa noite, Fiona — saudou o policial do outro lado da linha, pois havia meses que lhe era familiar essa voz no telefone.

— Outra vez estão perturbando — denunciou sem responder à prévia cortesia.

— Pediu a eles que fossem embora?

— Não.

— Pois então…

— É que quando saio, se escondem ou fogem.

— Veremos se podemos ir — respondeu.

— Como da outra vez — protestou ela.

— Trataremos de enviar uma patrulha — anunciou o agente sem se alterar.

Ninguém apareceu.

Os meninos perturbaram por mais vinte minutos.

Ela aumentou o volume da tevê e saiu à rua outras duas vezes, mas não os viu.

11 de Marzo.

Fiona escutou ruídos no teto.

Prestou atenção e concluiu que de novo eram os jovens vândalos.

Os golpes eram cada vez mais fortes. Marc e Andrea dormiam.

Ela foi à porta, abriu e sentiu cheiro de ovo podre.

Saiu e descobriu cascas de ovo grudadas na porta e nas paredes. No chão, o líquido pegajoso das claras e gemas.

Foi à cozinha, pegou um balde, colocou debaixo da torneira, encheu de água, juntou-lhe sabão líquido e pegou uma esponja.

Demorou uma hora para limpar tudo, mas o cheiro de ovo podre não desapareceu.

Na manhã seguinte, quando saiu com seus filhos para deixá-los no centro de reabilitação, encontrou a porta manchada com fezes de cachorro.

 

20 de Marzo.

No sábado, aproveitando o bom clima, Fiona deixou que Marc e Andrea brincassem no jardim. Enquanto preparava o café da manhã, pensou em ir com eles ao zoológico. Fazia meses que não davam um passeio. Marc se encantava com os leões e Andrea com os ursos polares.

Enquanto os meninos estavam lá fora, lavou os pratos, limpou a mesa e carregou o cesto de roupa suja até a máquina de lavar. Colocou tudo e ativou a máquina.

No corredor, escutou Andrea.

— Mamãe! Mamãe!

Correu e descobriu que Marc tinha nos lábios um cigarro aceso.

— Quem te deu isto? — perguntou, tirando-lhe o cigarro.

Marc apenas sorriu.

Andrea apontou para a rua.

Não havia ninguém.

Fiona jogou o cigarro no chão, entrou em casa e ligou pro departamento de polícia.

— Olá, Fiona — disse o oficial como se fosse a ligação habitual de uma vizinha.

— Os meninos deram um cigarro a meu filho — contou-lhe.

— Tem certeza?

— Tenho.

— Não foi o próprio Marc quem conseguiu?

— Não. Meus filhos estavam brincando no jardim e…

— Mas por que os deixou lá fora?

— O senhor quer que eu os mantenha presos?

— Não, mas…

— Mas nada! Deveriam prender esse pirralhos rebeldes!

— Vamos ver o que podemos fazer.

 

2 de Abril.

Enquanto assistia à tevê, Fiona escutou pedras no teto.

Uma delas bateu no vidro da janela da sala e o fez em pedaços.

De imediato, saiu do sofá.

A pedra era do tamanho de um punho.

Chamou a polícia. Apareceram dois agentes.

— O que posso fazer para manter meus filhos a salvo desses pequenos delinquentes? — perguntou Fiona ao policial encarregado.

— Tem certeza de que são as crianças?

— Tenho. A cada semana nos perturbam duas ou três vezes. Por que acham que ligo pros senhores? Por acaso acham que gosto de conversar com os senhores? Isto está de mal a pior. Desde dezembro começaram a incomodar. Já não aguento mais.

— Vamos falar com alguns vizinhos. Você identificou alguns dos meninos?

— Conheço um chamado Alfredo. Mora a três quadras daqui, na casa número B―196.

— Perfeito. Então falaremos com seus pais.

Os policiais tomaram nota dos danos e se retiraram.

Uma semana depois, Fiona trocou o vidro da janela.

10 de Abril.

Fiona voltou a escutar pedras no teto.

— Merda! —  exclamou.

Marc e Andrea acordaram nervosos.

14 de Abril

Os meninos gritaram obscenidades.

Nessa noite, Fiona deu soníferos a seus filhos e os botou para dormir. Ficou horas escondida na esquina da quadra e ao localizar o grupo escondido entre os arbustos, correu até eles.

Pegou dois pelas orelhas. Eles se assustaram.

— Estou farta de vocês! — repreendeu-os, sacudindo-os.

Os demais jovens se aproximaram e a acossaram puxando seu vestido e seu cabelo, até que ela soltou os dois que tinha pegado pelas orelhas.

Quinze minutos depois chegou uma patrulha policial. Desta vez ela não os havia chamado.

— Boa noite, senhora Fiona — disse-lhe um dos fardados ajeitando as calças.

Ela cruzou os braços sobre o peito.

— Recebemos reclamações de pais de família denunciando que a senhora atacou quatro vizinhos — informou-lhe o outro.

— São eles que vêm me perturbar e ninguém faz nada.

— Senhora Fiona, sabemos o que está ocorrendo, mas cremos que a senhora exagerou quando bateu nos meninos sem antes falar com seus pais.

— Não bati neles.

— Os pais de família não querem prestar queixar, mas lhe pedimos um pouco de controle.

Fiona virou as costas e fechou a porta.

16 de Abril.

Fiona, por meio de um amigo da cidade, comprou uma pistola marca Star.

Tinha nove balas.

20 de Abril.

Marc sangrava pelo nariz. Fiona limpava o rosto dele.

Quando brincava com sua irmã no jardim, os meninos lhe chegaram e lhe estapearam.

Fiona voltou a chamar a polícia.

— Ligação pra você — cantou um policial ao outro, vendo o identificador de chamadas.

— Não me diga.

— Digo sim.

— Já quantas ligações?

— Desde dezembro, quarenta e duas, e contando.

— Boa noite, senhora Fiona.

— Bateram em meu filho. Arrebentaram o nariz e chutaram ele. Quando vão fazer algo? O que falta para que façam algo!?

—Trataremos de ir, mas neste momento não temos pessoal suficiente.

— Ou seja, outra vez vou ficar esperando.

Fiona bateu o telefone.

Ninguém chegou.

22 de Abril.

Fiona escutou que duas janelas se quebraram. Seus filhos dormiam em seu quarto.

— Você não pode fazer nada, velha estúpida!

— Marc come cocô.

— Andrea é uma burra, burra, burra!

Foi ao telefone, mas não dava linha. Sentiu cheiro de fumaça. Olhou pela janela. Em seu jardim queimava um monte de lixo. Essa noite, a polícia não recebeu nenhuma ligação de distúrbios na área.

23 de Abril.

Depois de matar a bala quatro dos seis jovens, Fiona jogou a arma na rua, foi em casa, botou os filhos no carro e dirigiu até a loja, onde comprou gasolina.

arquiArquímedes González é jornalista e escritor. Nasceu na Nicarágua em 1972. Autor dos livros La muerte de Acuario, Qué sola estás Maité, Tengo un mal presentimiento, Conduciendo a la salvaje Mercedes, El Fabuloso Blackwell, Dos hombres y una e Clases de nataciónVenceu o Premio Centroamericano de Novela Rogelio Sinán 2012, o IV Concurso Internacional de Relato de Humor – Espanha/2011, IV Premio Internacional Sexto Continente de Relato Negro – Espanha/2011 e o II Premio Centroamericano de Novela Corta de Honduras/ 2010. http://arquimedesgonzalez.blogspot.com/

La versión original en español:

Dos litros de gasolina

Conto Afora4ªTemporada
By Renato Ribeiro

23 de Abril.

— Buenos días, Fiona.

— Hola, Nora.

—  Parece que no has podido dormir…

— Así es…

— ¿Otra vez los chicos…?

— Sí.

— ¿Llamaste a la policía?

— Sí.

— ¿Y?

—  Nada.

— ¿Hablaste con sus padres?

— Con los niños.

— ¿Los regañaste?

— Sí, lo suficiente para que no vuelvan a molestarnos.

— Me alegro por vos. A veces los niños son inconscientes de las maldades que hacen. ¿Tus hijos están bien?

— Sí, me esperan en el vehículo.

Fiona cargaba un recipiente plástico que contenía gasolina.

— ¿Dos litros?

— Sí.

La dependienta la quedó viendo.

— Es para combatir una plaga de hormigas que tengo en el jardín.

—  Un dólar con veintidós centavos.

Fiona le dio un billete de diez y recibió el cambio.

Se despidió de la encargada del negocio y fue al estacionamiento.

A través de la ventana vio que a su hija de veinte años, la baba le manchaba la camisa. Estaba sentada en el asiento trasero. Su otro hijo estaba al lado dormido.

Fiona recogió el pañuelo que estaba en el piso y la limpió.

— ¡Mamá! —exclamó la muchacha alegre porque de nuevo reanudaban el viaje.

Le encantaba cuando Fiona la sacaba a pasear.

Desde que escuchaba el tintineo de las llaves, se llenaba de alegría y corría por el pasillo de la casa buscando sus zapatos.

Fiona le sonrió.

—  Daremos un gran paseo —le adelantó.

— ¡Mamá! —volvió a decir la hija, pero esta vez su llamado era de un tono preocupado.

— ¡Ah, disculpame! —le dijo pasándole el oso de peluche que se había caído.

Giró la llave de contacto y el motor despertó.

La hija se alegró.

— ¡Allá! —pidió señalando a ninguna parte.

—  Sí, hija. Para allá vamos.

En eso vieron pasar dos patrullas de policías.

Fiona salió del aparcamiento y entró a la carretera. Por el retrovisor observó que una ambulancia se acercaba.

Se salió de su paso y el vehículo con las luces de emergencia y la sirena activadas los adelantó.

La hija volvió a babearse.

Fiona aceleró saliendo de la avenida y tomó rumbo hacia la carretera que iba a la montaña. Tras casi media hora de viaje, paró en una curva. Se bajó del automóvil y se asomó al barranco.

Volvió al vehículo, tomó el recipiente con la gasolina, retiró el tapón y vertió el líquido sobre los asientos traseros y delanteros.

La hija olió y arrugó la cara.

Fiona desparramó más gasolina en el vestido de la muchacha, en el cuerpo de su hijo dormido y luego en el de ella.

— Sólo será un momento —le explicó a la joven, quien se inquietaba y se aferraba más a su oso de peluche.

— ¡Mamá! —rogó la hija nerviosa.

Fiona se sentó al volante, retrocedió el vehículo cien metros y volviendo a ver a Andrea le preguntó:

— ¿Lista?

La muchacha sonrió y con rostro confuso, asintió. Su brazo derecho aferró con fuerza en su pecho a su oso de peluche.

Su madre tomó su cartera y de ella sacó un encendedor.

— No hay que jugar con el fuego —recomendó la hija pues en repetidas ocasiones su madre le advertía del peligro.

— Así es hija.

La madre ejerció presión con su dedo pulgar en la cabeza del encendedor, lo hizo girar y en el instante en que su dedo descansó en la palanca que liberaba el gas, se produjo una chispa electromecánica que originó la llama. Activó la primera velocidad, pisó el acelerador y condujo con dirección al abismo. Sin ver a sus hijos, acercó el fuego al asiento delantero, de inmediato todo ardió en llamas y segundos después saltaron por los aires.

1 de Marzo.

 Fiona preparaba la cena. Su hijo Marc jugaba en la sala. Su hija Andrea veía la televisión.

En eso escuchó voces. Voces de niños.

Salió de la cocina y fue a la ventana de la sala.

— ¡Estúpidos! —escuchó que gritaban.

— ¡Andrea es una burra! ¡Andrea es una burra! ¡Andrea es una burra! —salmodió otro niño.

— ¡Marc come caca! —gritó uno más.

Fiona fue a la puerta, abrió y se quedó viendo la oscuridad.

De pronto las voces se callaron.

Fiona quiso contestarles, pero se contuvo.

Salió al jardín, se colocó sus manos en la cintura y buscó a ambos lados de la calle, pero no localizó a los pequeños.

Disgustada entró a la casa, cerró la puerta y al llegar a la cocina volvió a escuchar los gritos.

— ¡Par de retrasados mentales!

Andrea seguía viendo la televisión. Marc no estaba en la sala. Lo buscó por la casa. Estaba escondido debajo de la cama de su cuarto tapando sus orejas con las manos.

Ella lo sacó de ahí, lo cargó en brazos y fue al teléfono marcando el número de la policía.

— Oficial…

— Buenas noches, Fiona —saludó el policía al otro lado de la línea, pues desde hacía meses le era familiar esa voz al teléfono.

— Otra vez están molestando —denunció sin responder a la previa cortesía.

— ¿Les pidió que se fueran?

— No.

— Pues…

— Es que en cuanto salgo, se esconden o huyen.

— Veremos si podemos ir —le expresó.

— Como la otra vez —protestó ella.

— Trataremos de enviar una patrulla —anunció el agente sin alterarse.

Nadie apareció.

Los muchachos molestaron veinte minutos más.

Ella incrementó el volumen de la televisión y salió a la calle otras dos veces, pero no los vio.

11 de Marzo.

 Fiona escuchó ruidos en el techo.

Puso atención y concluyó que de nuevo eran los jóvenes vándalos.

Los golpes eran cada vez más fuertes. Marc y Andrea dormían.

Ella fue a la puerta, abrió y olió a huevo podrido.

Salió y descubrió cáscaras de huevo pegadas a la puerta y las paredes. Al suelo caía el pegajoso líquido de las claras y las yemas.

Fue a la cocina, tomó un balde, lo colocó bajo el grifo, lo llenó con agua, le agregó jabón líquido y cogió una esponja.

Tardó una hora en limpiar todo, aunque el olor a huevo podrido no desapareció.

A la mañana siguiente, cuando salió con sus hijos para dejarlos en el centro de rehabilitación, encontró la puerta manchada con heces de perro.

20 de Marzo.

 El sábado, aprovechando el buen clima, Fiona dejó que Marc y Andrea jugaran en el jardín. Mientras preparaba el desayuno, pensó ir con ellos al zoológico. Hacía meses que no salían de paseo. A Marc le encantaban los leones y a Andrea los osos polares.

Mientras los niños estaban fuera, lavó los platos, limpió la mesa y cargó el cesto de la ropa sucia a la lavadora. Metió todo y activó la máquina.

En el pasillo escuchó a Andrea.

— ¡Mamá! ¡Mamá!

Corrió y descubrió que Marc tenía en sus labios un cigarro encendido.

— ¿Quién te dio esto? —le interrogó quitándoselo.

Marc sólo sonrió.

Andrea señaló a la calle.

No había nadie.

Fiona lanzó el cigarro al suelo, entraron a la casa y llamó al departamento de policía.

— Hola, Fiona —le habló el oficial como si fuera la habitual llamada de una vecina.

— Los muchachos le dieron un cigarro a mi hijo —le contó.

— ¿Está segura?

— Así es.

— ¿No fue el mismo Marc quien lo consiguió?

— No. Mis hijos estaban jugando en el jardín y…

— ¿Pero por qué los tiene afuera?

— ¿Usted quiere que los mantenga encerrados?

— No, pero…

— Más bien, deberían encerrar a esos mocosos revoltosos.

— Veremos qué podemos hacer.

2 de Abril.

Mientras miraba la televisión, Fiona escuchó caer piedras en el techo.

Una de ellas chocó contra el vidrio de la ventana de la sala y lo hizo pedazos.

De inmediato se quitó del sofá.

La piedra era del tamaño de un puño.

Llamó a la policía. Se presentaron dos agentes.

— ¿Qué puedo hacer para mantener a mis hijos a salvo de esos pequeños delincuentes? —preguntó Fiona al encargado policial.

— ¿Está segura que se trata de los niños?

— Así es. Cada semana nos molestan dos o tres veces. ¿Por qué creen que los llamo? ¿Acaso creen que a mí me encanta entablar conversación con ustedes? Esto va de mal en peor. Desde diciembre comenzaron a molestar. Ya no soporto más.

— Trataremos de hablar con los vecinos. ¿Ha identificado a alguno de los muchachos?

— Conozco a uno llamado Alfredo. Vive a tres cuadras de aquí, en la casa número B―196.

— Perfecto. Entonces hablaremos con sus padres.

Los oficiales tomaron nota de los daños y se retiraron.

Hasta una semana después Fiona reemplazó el vidrio de la ventana.

10 de Abril.

Fiona volvió a escuchar las piedras en el techo.

— ¡Mierda! —  exclamó.

Marc y Andrea se despertaron nerviosos.

14 de Abril

Los muchachos gritaron obscenidades.

Esa noche Fiona administró somníferos a sus hijos y los acostó. Desde hacía horas estaba escondida en la esquina de la cuadra y al localizar al grupo agazapado entre los arbustos, corrió hacia ellos.

Tomó a dos por las orejas. Ellos se asustaron.

—¡Estoy harta de ustedes! — les reprendió zarandeándolos.

Los demás jóvenes se acercaron y la acosaron jalándola del vestido o del cabello, hasta que soltó a los que tenía tomados por las orejas.

A los quince minutos llegó una patrulla policial. Esta vez ella no los había llamado.

Buenas noches, señora Fiona — le dijo uno de los uniformados acomodándose el pantalón.

Ella cruzó los brazos en su pecho.

Recibimos reportes de padres de familia denunciando que usted atacó a cuatro niños vecinos — le informó el otro.

Son ellos los que vienen a molestar y nadie hace nada.

—Señora Fiona, sabemos lo que sucede, pero creemos que ha exagerado al golpear a los chicos sin antes hablar con sus padres.

—No los golpeé.

—Los padres de familia no quieren presentar cargos, pero le pedimos un poco de control.

Fiona dio la espalda y les cerró la puerta.

16 de Abril. 

Fiona, por medio de un amigo de la ciudad, compró una pistola marca Star.

Tenía nueve balas.

20 de Abril.

Marc sangraba de la nariz. Fiona le limpiaba la cara.

Cuando jugaba con su hermana en el jardín, los niños se acercaron y lo patearon.

Fiona volvió a llamar a la policía.

—Te llaman —cantó un oficial al otro viendo el identificador de llamadas.

—No me digás.

—Sí te digo.

— ¿Cuántas llamadas van?

—Desde diciembre cuarenta y dos, y contando.

—Buenas noches, señora Fiona.

—Le pegaron a mi hijo. Le reventaron la nariz y le dieron de patadas. ¿Cuándo van a hacer algo? ¿¡Qué falta para que hagan algo!?

—Trataremos de ir, pero en este momento no tenemos suficiente personal.

—O sea, que otra vez me quedaré esperando.

Fiona colgó el teléfono.

Nadie llegó.

22 de Abril. 

Fiona escuchó que dos ventanas se quebraron. Sus hijos dormían en su cuarto.

—¡No nos podés hacer nada, vieja estúpida!

—¡Marc come caca!

—¡Andrea es una burra, burra, burra!

Fue al teléfono, pero no había línea. Olió a humo. Se asomó por la ventana. En su jardín ardía un bote de basura. Esa noche la policía no recibió ninguna llamada de disturbios en la zona.

23 de Abril. 

Luego de matar a balazos a cuatro de los seis jóvenes, Fiona tiró el arma a la calle, fue a casa, acomodó a sus hijos en el automóvil y condujo hacia la tienda donde compró combustible.

arquiArquímedes González es nicaraguense. Periodista y escritor, autor de La muerte de Acuario, Qué sola estás Maité, Tengo un mal presentimiento, Conduciendo a la salvaje Mercedes, El Fabuloso Blackwell, Dos hombres y una y Clases de natación. Finalista del IV Certamen de Novela de Crímenes Medellín Negro, en el 2015, ganador del Premio Centroamericano de Novela Rogelio Sinán 2012, ganador del IV Concurso Internacional de Relato de Humor en España en abril del 2011, ganador del IV Premio Internacional Sexto Continente de Relato Negro en España en enero del 2011 y ganador del II Premio Centroamericano de Novela Corta de Honduras en agosto del 2010. http://arquimedesgonzalez.blogspot.com/

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