Retificando a vida | Resenha sobre “Aquela música”, novo livro de contos de Luís Pimentel.

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Aquela música (Myrrha, 2016, contos). Novo livro de contos do escritor Luís Pimentel. Segue aqui uma breve resenha que espera dar conta desse sólido e muito preciso volume de histórias curtas desse autor, já, há muito, consagrado e premiado mestre do gênero.
Há bastante tempo a música acompanha Pimentel em sua carreira, já que é também compositor, assim como jornalista, homem de televisão e dramaturgo. Dessa vez, a música surge perpassando os contos não como um tema, mas como um traço de banalidade que, como em toda a obra de Pimentel, recebe tratamento poético e atencioso. Trocando em miúdos, é desse caráter casual e muitas vezes desprezível que se alimentam seus contos. Pimentel mistura suas cores nas calçadas da Cinelândia, assentos de ônibus e suítes decadentes do centro do Rio, de modo que ao encerrar-se a leitura de mais um conto, fica sempre a pergunta: não é de minha vida que ele fala aí? Ou uma observação: isso já aconteceu do meu lado e eu nem percebi.
É que Luís Pimentel demonstra, cada vez mais, saber que todas as histórias já foram contadas, mas que restam novas formas de se falar do amor, da morte, da infância, ou da existência ou não de Deus. Ele sabe que a palavra clama por trabalho, até o limite de sua reinvenção, de modo que recontar esses aspectos de nossas vidas nunca seja, a rigor um recontar, mas uma narrativa virgem, genuína, quando dotada de poesia; o que é bem o caso em questão.  Trabalhar a palavra a tal ponto que a recelebração de nossas dores nem seja o foco, mas a celebração de novos sentidos que ali nascem. Por seu texto enxuto, limpo e recheado de pérolas, Luís demonstra saber que não resta chance às feiuras da vida, senão a retificação que a Literatura lhes confere. Vide o trecho que segue, quase versos de um poema:
Depois, não dormia pesado, botava o disco para tocar, e boca cadeado, corpo fogueira, saía de fininho, deixando o quarto em chamas, sem açúcar, sem afeto, eu e o Chico, eu e o medo, eu e o terço a que me agarrava, contando os rosários até sua volta (trecho do conto Quem que eu era?).
Ou, como num conto em que o protagonista é ninguém menos que Assis Valente:
Meu coração vivia em guerra, pois também não sabia onde botar o desejo, e guerreei nas alturas, me atirando lá de cima em queda livre e música pura.Tudo para chamar a atenção de uma inspiração de nome Causa (trecho do conto Foxtrote).
Há uma atmosfera geral de melancolia em Aquela música, mas como ela, a melancolia, é posta de forma dosada, consciente, trabalhada, como toda arte deve ser, antes de ir pro mundo, o resultado é o prazer e a emoção do receptor.
Marçal Aquino, no texto de orelha de Aquela música,  pontua a ambivalência dos contos do livro ao citar seu caráter divertido e sombrio. Completo sua observação dizendo que, mais do que ambivalente, Aquela música é ambíguo, genialmente ambíguo.
Alguns dos contos atendem a uma expectativa de epifania, de moral, de ensinamento em seu percurso feito, mas em sua grande maioria os contos de Pimentel exercitam aquilo que lhe conferem, com muita justeza, o caráter de grande Arte, porque não trazem mensagem. É o velho, indefectível e maravilhoso mistério da Arte, que existe sem que se precise dEla para viver, mas que existe, sem que nos reserve chance de viver sem Ela.
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