Sonhei com o poder de um trem | Réquiem para Sam Shepard

SAM ROUND

Nunca tive coragem suficiente para resenhar nenhum de seus livros.

Fui audacioso para falar da obra de autores tidos até como mais geniais que ele, como Roberto Arlt, John Fante ou Tchekhov, mas quando me chegava a ideia de resenhar algum volume de contos de Sam Shepard, a ideia se esvaía junto com a coragem.

Uma vez comecei a resenhar A lua do falcão e parei. Fiquei imaginando o cowboy invadir minha sala, contrariado com um ou outro detalhe da resenha. Certamente, jogaria uma cadeira, acho que ia ser uma briga boa.

A lua do falcão traz textos curtos, é carregado de impressões fatalistas sobre uma “América rachando e despencando no mar”, contos violentos sobre essa espécie agonizante – o homem – e sua casa – o mundo. Muitos de seus textos nos trazem, mais que isso, a ideia de que o mundo vasto é reflexo de nossos vazios mais dolorosos, de nossas indagações mais inadiáveis.

Seus outros volumes de contos, Grande sonho do céuCruzando o paraíso e Crônicas de motel, assim como a peça Louco para amar, revelam isso.  Não só por esta última, mas por alguns contos de Sam, aprendi a entrar na corrente do diálogo de silêncios. Sam foi um exímio narrador na medida em que delegou aos personagens o encargo de, quase calados, contarem a história.

Falando também como escritor agora. Partindo do pressuposto de que uma boa e comprometida oficina de criação só acontece com uma sistemática investigação literária – eterno laboratório – posso afirmar que a leitura de seus contos e peças tem muito a ensinar, na tessitura de casualidades internas, num primado de pouca fala e de muito dito. Sam Shepard me ensinou, tentei aprender, a falar de vastidões, as externas e as maiores, as internas.

E quanta poesia se acha no que ele deixou, a poesia da atmosfera que cria, a poesia do mundo reinventado a partir do vento seco do oeste americano:

O som do carro do ser tentacular desaparece à distância. Não pode se mover. Está paralisado pela vastidão e pela incerteza. O ruído silencioso do deserto. Desertado. Deixado para trás para tornar-se outra vez selvagem, mas sem saber como. Sem precisar ser. Lentamente devora sua cauda, as patas traseiras, a barriga e, por fim, se engole inteiro. Pela manhã, um caminhão passa zunindo, sem motorista, o rádio berrando. Apenas o caminhão, o rádio e o deserto (Desertado. Em A lua do falcão).

A poesia do que não é dito:

– Você pode vir aqui? – ele pergunta. – preciso ver você.

– O que? Você quer dizer, agora? Imediatamente?

– É. Venha para cá. Estou no número dezessete.

– Bem, já, já, eu não posso. É que… Eu não posso.

– Por quê? – ele pergunta.

– Eu estou… bem, a verdade é que eu estava me aprontando para sair

– Aonde é que você vai?

– Vou para Indiana. O David arranjou um novo emprego lá.

– O David? – ele pergunta.

– É. Surgiu assim, de repente. Ele está me esperando.

– Esperando você onde?

– Em Indiana. Acabei de dizer.

– Você vai pegar um avião para ir a Indiana encontrar o David?

– É. Eu estava na porta quando o telefone tocou. – Ele escuta o barulho do mergulho do gordo caindo na piscina lá fora. Aí nada. Uma sirene distante.

– Alô – ela diz – Você ainda está aí?

– E para onde você quer que eu vá? – ele pergunta.

(Coalinga – metade do caminho. Em Grande sonho do céu).

E a poesia que ele destila na prosa:

Todas as vezes que Jamie soltava Swaps, os outros cães enlouqueciam, latindo, uivando e chocando-se contra a tela da cerca. Nessa manhã específica, Jamie terminou a limpeza e foi buscar Swaps. Abriu o portão e Swaps dançou e saltitou, abanando o rabo de felicidade. Quando Jamie abriu a porta principal, Swaps partiu direto como uma bala rumo ao sol da manhã (Cidade da esperança. Em A lua do falcão).

Sam Shepard, 73, nos deixou no domingo, dia 31. Como ator, roteirista, dramaturgo e escritor, recebeu inúmeros prêmios. Não vou falar de nenhum deles. Acho sua obra suprema, à parte dos galardões que recebera.

Passado o primeiro choque, comecei a me aperceber de como estava clara, de modo geral, a importância de Sam em minha trajetória, já que recebi algumas mensagens avisando de sua morte. Ainda que eu não fosse escritor, a obra de Sam Shepard seria importante para mim. Dizendo isso, atribuo a ele – artista da palavra – aquela condição eterna e mágica dada a poucos, aos poucos que se esquecem da verdade, desprezam-na, em nome da vida, em nome da arte.

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