Assim caminha a humanidade, de Carlos Vilarinho

Esta semana, a CONTO AFORA passeia com Carlos Vilarinho por questões como Deus, cinema e aposentadoria. Tudo isso num diálogo aparentemente banal, numa cena que poderia acontecer na minha rua, ou na sua.

Depois da leitura, clique AQUI e escute o tema musical de Assim caminha a humanidade.

Conto Afora4ªTemporada

— O verdadeiro ladrão é eleito pelo povo e assume cargos de confiança, diz que acredita em Deus e o esnoba entre as paredes… É aplaudido, ou vaiado, tanto faz para ele, durante um tempo indeterminado, às vezes, ele morre ladrão jurando ser inocente de caixa dois, sem que ninguém saiba — dizia Melquizedeque, um velho negro sentado de um lado do tabuleiro de damas, no fim de linha da Barroquinha, enquanto analisava a jogada que devia fazer.

— Ligam pras artes, Melqui?

— Não, Joaquim, não ligam pras artes, nem pro cinema, muito menos pro idoso e sua aposentadoria. Quem assume cargos desse naipe, eleito pelo povo, só liga pra futebol e o próprio bolso. Em sua grande maioria, nunca jogaram futebol, provavelmente nem gostam, mas querem ser notados num grande clássico e não torcem para time nenhum, mas para que acabe tudo em pancadaria pra acusar o adversário político.

— Querem mais, sempre mais, Melqui. Seja lá o que for.

— Dama, Joaquim.

— Lembra que você escreveu a poesia da derrota em 1950, quando o Brasil perdeu a copa pra Gighia, Melqui?

— Lembro, Joaquim. Mas a poesia é um gênero perigoso.

— Gênero? Por quê?

— Às vezes, ela esconde a verdade, em outras ela traz à tona o que não se quer que ninguém saiba, e aqueles homens que falávamos não suportam poesia.

— Eles nunca dizem a verdade…Tem uma coisa… De vez em quando… Você se sente preso, às vezes?

— Me sinto preso nesse universo cruel, velho Joaquim.

— Eu também. Tudo é perversão hoje em dia. Então é isso.

— Pode não ser só isso, ou há algo mais… Parece castigo, Joaquim, temos que testemunhar a morte do ser humano em tempos que deveríamos renascer.

— Melquizedeque, preste atenção ao jogo, homem! Quanta filosofia…

— Há quantos anos sua Madalena partiu?

— Minha Madalena, ah, minha Madalena! Onze anos sem ela. Ficou fula da vida quando soube da traição de Angélica.

— Angélica escolheu o caminho dela. Talvez tenha morrido antes de ser chamada por Deus e eu envelheço como se sofresse por ela o castigo Dele.  Esse calor… Esse calor me lembra a última vez que fui a um cinema, assisti a um filme chamado Faça a coisa certa, era muito calor dentro da tela. Mataram um negro nesse filme.

— Dentro do cinema, Melqui?

— Não, no filme, Joaquim.

— Hum, era faroeste?

— Não.

— Às vezes me passo com filmes, lembro que foi John Wayne escondido que atirou no facínora…

— Facínoras merecem morrer… Hum. Parece que o mundo tá sendo tomado por uma revolução dos espíritos, velho Joaquim.

— Dos espíritos, Melqui?

— Os espíritos que comandam o Universo e a mente do homem.

— Vou sair com as brancas.

— Minha filha Alice, antes de ir pro estrangeiro conversou comigo. E me disse uma coisa estranha.

— Alice? O que ela falou?

— Disse que existe algo no universo que encaminha o ser humano. Uma forma do outro mundo, sei lá… Um tal de Anunnaki…

— O que é isso, Melqui? Quem encaminha o homem não é Deus?

— Não faço ideia, Joaquim; ela falou muito brevemente, depois deve ter visto minha cara de ignorante e parou de falar. Mas acho que é algo sobre… Sabe de uma coisa, se Deus nos fez a sua imagem e semelhança, ele deve estar muito perturbado…

Ao lado, distante seis ou sete metros, um taxista que usava bigodes em toda a extensão da boca, observava alheio. Futucava a cova do nariz com o indicador, depois olhava sem anseios de um lado a outro com a melancolia depressiva a lhe acossar. Parou os olhos no tabuleiro. Limpou o dedo no paralamas do carro ao lado do seu. Comentou de si para si.

 — Deus me livre acabar daquele jeito. Dois velhos panacas jogando damas, não devem ter nada para dizer um ao outro, o mundo acaba e eles morrem sem dizer nada que preste. Gente assim devia ser eliminada pela ditadura do proletariado, não produz… Só pensa em receber a aposentadoria do Estado.

unnamed - CopiaCarlos Vilarinho é professor de Língua Portuguesa. Anarquista. Contista e romancista. Participou das coletâneas 82, uma Copa, quinze histórias (Casarão do Verbo, 2013, contos), Bom tom – contos eróticos. É autor de Labirinto-homem (Kalango, 2013, romance) e O velho -18 contos cotidianos e fantásticos (CBaL, 2010,contos), entre outros.

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