Passageiras, de Natália Borges Polesso

Nesta semana, a coluna CONTO AFORA traz um conto da escritora Natália Borges Polesso. Nele,  uma dor silenciosa, filha da memória, como todas são. Sutileza e concisão dando forma a um belo texto em fluxo de consciência.

Depois da leitura, clique AQUI e escute o tema musical de Passageiras.

Conto Afora4ªTemporada

Passageira 23: Compartilhamentos íntimos. Sentar por duas, três, quatro horas, ao lado de um desconhecido. Sentir o contínuo vibrar do atrito dos pneus no asfalto. Vibrar na mesma frequência em que as outras 43 pessoas. Um motorista deve vibrar diferente – segurar um volante de ônibus deve enrijecer a musculatura dos braços e ombros de um modo insalubre. A vida útil profissional de um motorista de ônibus é de 9 anos. Desconheço esse dado. Desconheço minha companheira de fileira. Uma mulher ansiosa. Ela ocupa quinze por cento do meu banco. Ela limpa o suor do buço com muita frequência. Ela parece ter algum tipo de desconforto gástrico. Ela tenta não ser incômodo. Eu não me importo. Compartilhamos esta intimidade. Eu sento com trezentas e duas folhas e dois livros. Não lerei todo esse volume. Eu espalho minhas coisas nos oitenta e cinco por cento do banco. Ela não se importa. Compartilhamos esta intimidade.

Passageira 12: já estou acomodada quando entra no ônibus meu agressor. Ele entra com uma mulher e uma criança. Esposa e filha, a conversa indica. Eles se acomodam nos assentos bem à minha frente. Tenho nas mãos meu estojo e no corpo todo tenho uma náusea horrenda. Abro o estojo, saco o estilete. Vou enfiando devagar no assento à frente, bem onde ele está. A pessoa ao meu lado dorme. Rasgo o estofado como se rasgasse a carne dele como se ele rasgasse a minha de novo. Num solavanco mais bruto, enfio todo o estilete no banco. Não atravessa. Não chega. Ele é intocável.

IMG_1492 Natália Borges Polesso é escritora e doutoranda em Teoria da Literatura na PUCRS. Publicou Recortes para álbum de fotografia sem gente (Modelo de Nuvem/Belas Letras, 2013, contos), vencedor do prêmio Açorianos de Literatura; Coração a corda (Patuá, 2015, poesia); e Amora (Não Editora, 2015, contos), finalista do prêmio AGEs de literatura 2016. Este ano participa da coletânea Olhar Paris, organizada por Leonardo Tonus.

 

 

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